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O humor e a filosofia Beatnik de Porcas Borboletas

26/04/2020

Quando terminei meu segundo livro, Meditando no Banheiro, e pedi para o mestre chargista Márcio Baraldi escrever um prefácio para apresentar o livro, me surpreendi com um texto em que ele chamava de "O Último Beatnik".

A surpresa se deu por que eu não imaginava que minha escrita soaria tão facilmente Beatnik.

Foi uma boa surpresa.

Um elogio, assim eu entendi. Fiquei orgulhoso, devo admitir.

Os Beatniks foram artistas da década de 50, criadores de um estilo de vida inspirado na liberdade, na amizade e no questionamento. Mais ou menos como os Hippies viriam a fazer posteriormente. Nomes Beat famosos são Jack Kerouac, Charles Bukowski e William S. Burroughs.

Como ser associado à nomes grandiosos como esses pode não ser um elogio? Escritores Beat foram (e continuam sendo) inspiração para meus textos.

Banda Porcas Borboletas: muito humor e força musical em versos Beat

Creio que o que mais me chamou a atenção em livros como On The Road, de Jack Kerouacc, foi a liberdade. O desejo de viver a vida, sem regras, sem amarras.

Não há preconceito em uma história Beat. Tudo é permitido e tudo é perdoável, desde que feito com emoção.

É o que viria a ser a essência do espírito Rock'n'Roll.

"Curtindo o que a vida me dá de presente", como sintetizaria tão bem, décadas depois, as Velhas Virgens, outros ícones da cultura (ou contracultura) Beat.

E há alguns anos conheci uma outra banda que compartilha dessa mesma essência e, não por acaso, acabei viajando completamente no som deles: Porcas Borboletas.

Não trazem consigo a mesma alegria pulsante das Velhas, mas encontraram o caminho para a música dos deuses com outro tipo de humor: o autodepreciativo. Dessa forma a banda entrelaça um trabalho instrumental de primeira com letras que versam sobre conquistas amorosas mal sucedidas, deficiências físicas do narrador, desilusões com projetos pessoais e muito mais.

Tudo com um estranho e poderoso carisma na voz do vocalista Danislau.

Quem viveu a vida minimamente não vai conseguir deixar de sentir empatia em versos como:
Todo mundo está pensando em Sexo.
Todo mundo disfarçando muito bem.
Será que só você não? Será que só você não?
Meu bem...



Ou:
Tudo que eu tentei falhou:
Sapatênis, bandana, sunga dos states, suspensório
Relacionamento aberto, fechado, ménage à trois, suruba psicodélica
Abstinência do uso de drogas seguido da suspensão da abstinência
Paraíso, purgatório, inferno, rua augusta



É necessária uma rara habilidade para rir dos próprios problemas.

Enquanto a maioria das pessoas acaba sucumbindo às pressões e as derrotas, Porcas Borboletas faz música. Eles riem do destino. Sabem que não é preciso levar tudo à sério e que, por mais difíceis que sejam nossos desafios, tudo fica mais fácil com amigos em uma mesa de bar.

É aquele pensamento que só os mais sábios conseguem incorporar: se não der certo, afinal, pelo menos a gente tomou umas cervejas e deu risada.

Embora a filosofia Beat fique evidente em canções como Derrota Transcedental, Você Mentiu, Ejaculação Precoce e nas já citadas, é em Aninha, uma canção mais simples e intimista, que o grupo atinge o ápice da viagem musical.

Acompanhando um poema ligeiro que descreve com delicadeza a Aninha do título, a guitarra cria um ambiente profundo e envolvente. As cordas hipnotizam e os versos saem com brisa:

Greta garbo
The pin-up's dreams
The fifties
Tudo existiu
Pra vestir aninha

Após aprisionar o ouvinte com o clima sereno e misterioso, o grupo está livre para explodir. É quando a canção vira um Rock vigoroso. Os versos se repetem, mas paixão pela Aninha se torna visceral, obsessiva.

Não há conclusão para a história, mas isso não a torna menos perfeita.

Ao contrário, é justamente por esse olhar distante que a obra ganha importância.

Trata-se, afinal, de apenas uma constatação. Um devaneio, como em Heaven dos Rolling Stones ou Cheap Day Return do Jethro Tull. Um momento de delírio no qual o narrador, como nós, é impotente. Como a maioria dos eventos de nossas vidas, não há muito o que fazer. Apenas aceitar e admirar.

Confira Aninha:

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