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Relembrando Chris

06/10/2017



Momento 1

Eu tinha uns 15 anos. Estava na escola. Provavelmente intervalo entre aulas. Eu gostava de Rock, mas era limitado, teimoso e mente fechada. Uma amiga estava cantarolando algum som que eu provavelmente viria a gostar no futuro, mas que fiz questão de dizer como era ruim.

Ela fez uma careta, retrucou qualquer coisa e eu sentei na frente dela. Olhei seu fichário e havia ali em uma das divisórias, escrito com Liquid Paper, a letra de uma canção. Percebendo minha curiosidade ela me emprestou os fones e colocou a música.

- Legal - eu disse com desprezo, levantei e fui embora.

Foi assim que eu conheci Like a Stone.





Momento 2

Eu tinha uns 17 anos. Já era uma prática comum gravar CDs com as músicas que você quisesse, como a gente fazia com as fitas K7 no passado. Apesar disso, ainda era novidade gravar um CD no formato MP3. Era preciso um disc man especial para tocar esse tipo de mídia, mas a vantagem era que, num único disco, você podia colocar umas 100 músicas ou mais.

Eu já gostava de mais bandas além de Beatles e U2, mas ainda conhecia pouco do mundo. Talvez querendo me ajudar a descobrir sonoridades boas, meu primo me gravou um desses discos em MP3. Foi assim que ouvi com calma e mente aberta uma das músicas mais poderosas da vida. Nunca me esqueci. Era uma pedrada. Algo bom e diferente. Algo que eu precisava. Era difícil acreditar que alguém no mundo conseguisse cantar como aquele vocalista.

Foi assim que eu conheci Show Me How to Live




Momento 3

Eu tinha uns 19 anos e arrumei um estágio em um estúdio de design. Lá o rádio vivia ligado na Kiss FM e, dessa forma, conheci várias bandas boas. De vez em quando alguém trazia um CD. Foi assim que ouvi, pela primeira vez, um trabalho solo do Chris Cornell. Eu já era viciado em canções como Show Me How to Live, Like a Stone e Be Yourself, mas eram todas músicas do Audioslave. Nem imaginava que o cara poderia ter discos solo.

Era um disco ao vivo e acústico e, por mais que a palavra "acústico" não tivesse nada a ver com Cornell num primeiro momento, me surpreendi muito ao ver como ele encaixava sua voz absurda em canções acompanhadas só pelo violão. Eu não estava lá, mas podia visualizar Chris cantando de olhos fechados, em outra dimensão, amando o que fazia.

Era certamente um cara que cantava com paixão.

Foi assim que conheci Black Hole Sun.




Momento 4

Eu tinha uns 20 anos. Tinha arrumado um emprego bem legal com vários caras que curtiam Rock compartilhando a mesma sala.

Um deles conhecia mais bandas que a Wikipedia e era fanático pelo que rolou nos anos 90. Ele comentou sobre uma reunião de alguns músicos famosos na época para homenagear um amigo falecido. O grupo chama-se Temple of the Dog e tinha nos vocais nada menos que Eddie Vedder do Pearl Jam e Chris Cornell, do Audioslave e Soundgarden.

Foi assim que conheci Hunger Strike.




Momento 4

Eu tinha uns 21 anos. Trabalhava e estudava que nem um camelo, ganhava pouco, mas ainda conseguia um tempinho para jogar o Playstation 2 do meu irmão. Joguei poucos jogos de vídeo-game na vida e a maioria deles foi por causa da trilha sonora. Era o caso aqui. O jogo era GTA: San Andreas. Sim, era aquele jogo politicamente incorreto em que você roubava carros e podia matar quem quisesse. 

Eu não estava nem aí para a possibilidade de roubar ou matar livremente. O que eu gostava mesmo era de pegar algum carro e ficar viajando pelas estradas do cenário enorme do jogo. De tão bem feito que era haviam até rádios a escolher. A que eu sempre sintonizava era a Radio X, onde rolava um Rock dos anos 90. Era só coisa fina. Coisa do tipo de Guns N'Roses, Danzig, Helmet, Living Color e Soundgarden.

Isso aí. Lá estava ele de novo. Chris Cornell na rádio fictícia do meu carro virtual dentro de um jogo. Parando para pensar é preciso um mínimo de qualidade para conseguir essa proeza.

Foi assim que eu conheci Rusty Cage.



Momento 5

Eu tinha uns 25 anos. Gastava boa parte do meu salário em CDs de lojas que já começavam a fechar as portas.

Foi assim que eu conheci Revelations. Escutei esse disco pelo menos umas 5 mil vezes.


Momento 6

Eu tinha 29 anos. Chris Cornell tinha morrido há alguns dias. Encontrei com meus bons amigos num barzinho. Fazia tempo que não nos víamos e tomamos umas cervejas bem geladas.

Na volta um amigo me deu uma carona até em casa. Roqueiro como era, o cara havia preparado uma lista de músicas em homenagem a Chris Cornell. Perguntei se ele havia ficado chateado com a morte do músico.

- Chorei - ele disse.

Uma música bem pesada tocava no fundo. Mesmo assim, naquela hora, eu é que quase chorei.

Foi assim que conheci Outshined.



Foram muito mais que 6 momentos, mas esses são os que me lembro melhor. Momentos em que, não alguém qualquer ou um artigo na internet me disse. Foram momentos em que o mundo me disse.

Me disse que Chris Cornell era o cara.

Esteja em paz, Chris ;)

Um comentário:

Fabio CS disse...

Muito bom o texto e a memória melódica e cronológica. Algumas passagens de nossa vida parece ter uma trilha sonora muito bem sincronizada com os fatos e sentimentos. Parabéns pelo texto sempre muito claro e emocionante. Um grande abraço.

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