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De repente 30 e fã de Offspring

27/07/2017

Como 30 CDs excelentes vieram parar no meu colo e me descobri, aos 30, fanático por Offspring


The Offspring. Banda do coração de muitos que curtiram os anos 90. Foto: Divulgação

Algumas pessoas tocam um instrumento tão bem que todos passam a se lembrar dela como referência naquela arte.

O mesmo acontece com quem entende muito de cozinha. Seus amigos e familiares normalmente lembram da pessoa sempre que vêem um filme sobre cheffs começando do zero ou uma receita interessante no Youtube.

Nenhum dos dois é o meu caso. Não cozinho tão bem nem faço mais que arranhar o violão.

Mas eu falo bastante de música. E já algum tempo registro algumas reflexões aqui no blog.

Talvez por isso algumas pessoas lembrem de mim quando veem algo interessante sobre música - mais em especial sobre o Rock. Isso é ótimo. Sem essa gentileza eu certamente perderia um bom punhado de novidades e vídeos divertidos.

Recentemente fui lembrado em mais uma dessas atividades. Uma colega estava se mudando para a Irlanda em poucos dias. Logo um amigo em comum me passou um recado no Zap com aqueles toques de urgência:

- Dá uma olhada no Facebook rápido!


Cair na estrada requer uma boa dose de desapego. Foto: Google.
Olhei e me deparei com uma atitude que equilibrava uma imensidão de tristeza e de coragem.

Ela e o marido estavam se desfazendo de seus CDs.

A vida de quem vai morar fora é assim. Eu sei porque eu fui e até que sinto saudades da época em que todos os meus pertences cabiam um duas malas de 23 kg cada, sem contar o excesso de bagagem.

Eu fui para a Austrália sem saber se ia voltar. Mesmo assim não me desfiz de meus preciosos CDs. Não, pois eu ainda morava com meus pais. E acho que eu não tinha tanta coragem quanto essa amiga.

Ela ia e postou que estava doando os CDs. Pilhas e mais pilha de CDs para quem quisesse pegar. Com a gentileza de nosso amigo em comum fui logo comentando que eu queria dar uma garimpada naquela coleção, talvez tão boa quanto a minha.

Pelas fotos vi nomes que me chamaram a atenção de cara. Alice in Chains, Garbage, Foo Fighters, Nirvana, Pearl Jam, Green Day. Enfim, um paraíso para quem nasceu antes dos anos 90 e viu as últimas décadas de glória do Rock.

Uma das joias que eu não tinha na coleção. Foto: Divulgação.

E vários deles eu não tinha.

Perguntei quando ela ia. Em três dias. Perguntei onde ela morava. Do lado da minha casa. Obrigado, destino.

Fui lá no dia seguinte.

Malas semi empacotadas eram os últimos resquícios de uma casa que já não tinha móveis. Tudo tinha sido vendido ou doado, segundo ela. Tristeza e coragem. E admiração, é claro. A vida na estrada pede uma série de sacrifícios e sorri ao perceber que minha amiga já estava aprendendo aquela lição antes mesmo de cair no mundo.

Vasculhei então a coleção.

Timidamente, peguei selecionei uns 10 discos. A maioria do Garbage e Alice in Chains. Ela me encorajou a levar mais:

- Achei que você ia levar tudo. Pega mais uns, ajuda a gente.

Com esse aval, decidi então pegar mais uns 20. No bolo acabei levando até alguns do Raul Seixas e todos os discos do Alice in Chains e do Offspring, bandas que eu sempre gostei, mas nada além disso. Por enquanto.

Mais uma pérola que não resisti a levar. Foto: Divulgação.

Agradeci imensamente e me despedi dela e do marido. Desejei-lhes sucesso por onde fossem. Tudo ia dar certo na estrada. Eu sabia, pois já a tinha percorrido algumas vezes. Até hoje, confesso, ainda ouço ela me chamando em determinadas noites e covardemente finjo que não é comigo. Vai haver um dia, eu espero no fundo do coração, em que eu não vou mais conseguir me fazer de surdo. Não vou mais conseguir fingir. Mas até lá vou ouvindo minhas músicas por aqui mesmo.

E quantas músicas novas-velhas para ouvir.

30 novos CDs. A maioria praticamente zerados. Passei os dias seguintes escutando-os um a um. Saboreando cada novo álbum que eu não conhecia ou nunca tinha ouvido inteiro.

Então chegou a leva do Offspring.

Para aquecer coloquei o primeiro, Smash, um disco que eu já tinha em formato digital e que adoro. Excelente como sempre, ainda melhor no CD do que no computador. Gotta Get Away e Self-Esteem nunca soaram tão vivas nos meus ouvidos.



Depois que o disco acabou, coloquei um dos últimos deles, Rise and Fall, Rage and Grace, que eu nunca tinha ouvido sequer uma canção. Me surpreendi com pauladas boas e rápidas e duas ou três canções no estilo mais rock-grudento que eles aprenderam a fazer tão bem. Ótimo.

Em terceiro lugar veio The Offspring, primeiro álbum deles, de 1989. Explosivo e bastante cru resultou numa audição boa, mas nada excepcional. O mesmo aconteceu com Ignition, o segundo álbum deles cheio de energia e boa vontade. Sem dúvida uma repetição de cada disco me faria descobrir novas camadas de percepção, mas ainda haviam outros discos para ouvir então continuei na sequência.

Foi aí que a coisa começou a ferver. Coloquei Ixnay on the Hombre, o disco que sucedeu Smash, até então meu preferido. O resultado não podia ser outro. Explosões e mais cacetadas na orelha com sonzeiras boas, suculentas. Coisas finas e bem feitas. Deliciosas de ouvir. Que disco! Ouvi três vezes seguidas e passei para o próximo.



Veio então o Fatality.

Sem misericórdia.

O belo golpe na minha pobre mente ainda não tão cansada de novas sonoridades veio com Conspiracy of One.

Logo no começo relembrei tempos de adolescente com Original Prankster. Não resisti a repetir a pérola e enviar um trecho ao meu irmão que também era fã da canção. Aliás se eu gostava um pouco de Offspring foi por causa dele de quem herdei (para não dizer surrupiei os discos Americana e Splinter que tenho até hoje). O mínimo que eu podia fazer era embalar e enviar à ele aquela pequena pérola de juventude eterna e rebelde. O cara gostou.

O disco seguiu com Want You Bad, outra pedrada boa que eu gostava e não lembrava, e explodiu minha cabeça de vez com Million Miles Away, uma música que eu tinha enterrado na memória há muito tempo. Estava lá, semi-esquecida, mas foram necessários apenas 3 segundos para que ela se redescobrisse inteira. Eu sabia a letra. Sabia o ritmo e não consegui me conter. Ouvi várias e várias vezes sempre gritando entre os versos do refrão.



Percebi que aquilo era uma das coisas que eu mais gostava no Offspring. Os gritos. Urros de guerra, bem colocados e que duelavam com a guitarra pesada ou com o vocal principal.

Percebi que gostava muito de Offspring. Gostava das pedradas, do ritmo acelerado e do Punk-Rock moderno que permeou minha adolescência junto com Green Day e Rancid. Onde eu estava naqueles dias que não ouvia Offspring, salvo quando meu irmão colocava o bom e velho Americana para tocar?

Me descobri, enfim e há 1 mês de fazer 30 anos que eu era um grande fã de Offspring.

Foram só uns 15 anos de atraso.

Mas antes tarde do que nunca, é o que dizem os sábios.

Se a banda durar mais 15 com certeza terá aqui um novo-velho fã ;)

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Obrigado Talita e Bruno pelos CDs. Vou cuidar bem deles. Vida próspera e música boa em qualquer estrada que vocês pegarem!

Obrigado Newton pelo aviso no Zapzap.

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