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O dia em que Bruce Springsteen me salvou da morte certa

15/12/2016


Nunca consegui perder por completo o medo de voar.

Já voei até a Austrália e voltei 2 vezes. Somando essas viagens são mais de 80 horas no ar. Ainda assim, de vez em quando eu sinto um medo sinistro de estar literalmente nas nuvens. A coisa simplesmente não entra na minha cabeça. Alguma coisa fica sempre martelando. Repetindo uma lábia primitiva que diz que nós, seres humanos, não fomos feitos para voar. Que nosso lugar é no chão, em terra firme.


Como todos os medos, meu receio em voar não tem uma explicação coerente para aparecer.

Na maioria das vezes, graças ao bom Deus, ele não dá as caras.

Mas às vezes ele fica à espreita, me olhando de longe e fazendo questão de que eu o esteja vendo. Faz isso para me provocar, eu acho. Essas vezes são tranquilas. Eu sei que ele vai ficar lá. Não vai atravessar a cerca da minha casa. Não vai pisar na minha grama. Sei disso porque eu o mantenho lá. Uso meus mantras e penso nos dois Jesus que eu conheço. O Messias e o meu amigo que é piloto. Quando o medo ameaça um passo à frente eu repito: "Jesus disse que voar é seguro. Ele é piloto, sabe das coisas".

Isso normalmente funciona.

Eu na hora da turbulência

Algumas vezes porém, o safado do medo se aproxima até demais. Não só entra na minha casa, mas come à minha mesa. Usa meus talheres e limpa a boca na toalha de mesa.

Essas ocasiões são raras, mas são de longe as piores.

Eu me agarro à poltrona como se aquilo fosse fazer qualquer diferença numa eventualidade. Respiro fundo, tento ignorar o coração que se acelera. Tento ler, mas as letras passeiam pelos olhos como numa dança típica ensaiada. Tento ver um filme mas o pensamento insiste em voltar para o perigo.

Na última vez que voei estava passando por uma situação dessas.

O medo simplesmente veio e ficou cara a cara comigo. Nenhuma das medidas paliativas ajudou. Eu simplesmente tinha certeza de que ia morrer. De que aquele era meu último voo. Bem feito, o medo sussurrava. Seu lugar é no chão, não no ar. Você pediu por isso.

O papo ia nessa linha assustadora e eu não sabia o que fazer.

Até a hora em que decidi ouvir música.

Procurei pelos álbuns disponíveis no sistema do avião. Haviam vários, mas poucos ajudariam. Justin Bieber? Claro que não. Beyoncee? Agora não. Bruno Mars? Talvez, mas eu precisava de algo melhor.

Achei então o Bruce Springsteen. A capa era uma velha conhecida. Um cara de calça jeans azul em frente à bandeira dos EUA. Close na bunda do sujeito. Born in USA era o álbum. Capa mais ridícula, impossível. Fiquei feliz quando a vi. Sabia do poder daquela bunda. Digo, daquela capa.

Coloquei de cara a Cover Me.



O gritinho rápido do Bruce logo nos segundos iniciais foi suficiente pra despertar o medo, que à essa altura ja tinha deitado no sofá e dominado a TV.

Sem tempo pra pensar a guitarra já começou seu show. Um solinho arrepiante. Fez o próprio medo sentir medo. Eu ri. Provando do próprio remédio, eu lhe disse. É bom, não é?

Springsteen arrebentava na guitarra e nos vocais. "Prometa-me baby que não vai deixar eles nos pegarem". Aquilo servia pra mim. Era um ritmo frenético. Absurdo. Empolgante. Me senti grande. Me senti poderoso. "Feche a porta e me proteja". A adrenalina corria solta. O coração batia acelerado, mas agora era por pura excitação. Comecei a tocar minha parceira de sempre: a guitarra invisível. Me aventurei até pela bateria. Agora eu era o herói. O medo à uma hora dessas já tinha corrido para as colinas. Eu tinha o poder. Era eu quem ditava as regras. Ali era minha casa e ele não entraria mais.

O fatality veio com Going Down já ná sequência.



Com aquele ritmo alegre, ligeiro e com a voz do guitarrista dizendo "Estou indo pra baixo, pra baixo, pra baixo" eu sentia minha mão colossal agarrando o medo, agora uma coisinha de nada, triste e digna de pena. Peguei-o e o aproximei dos olhos para olha-lo bem, tão pequeno que estava. To tamanho de uma pinta potencialmente cancerígena. Poderia ter feito, mas não o esmaguei, não. Era bom ter um pouco de medo. Na dose certa fazia até bem. Tornava as coisas mais emocionantes. Fazia pensar um pouco. Guardei-o no bolso e deixei-o ali. Ele estava dominado afinal.

E fiquei curtindo o Bruce Springsteen. Ele tinha me salvado a vida. Eu que tinha certeza da morte agora me sentia dono da vida. Nada ia acontecer, não ali, não naquele momento. Não enquanto a energia do Bruce ainda pulsasse no meu coração.

E assim cheguei em paz em casa. Feliz e inteiro ;)

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