Mais um livro do Andarilho

Spotfy lança documentário sobre Gabriel, o Pensador

04/11/2016

Derrubando Muros, Expandindo Horizontes conta a história do rapper carioca e sua importância como sinônimo de protesto


Poucos artistas no Brasil possuem um nome tão fortemente associado à protesto quanto Gabriel, o Pensador.


Você pode pensar em nomes como Geraldo Vandré, Chico Buarque e Caetano Veloso quando o assunto é a ditadura militar que começou nos anos 60 e só nos deixou 2 décadas depois. Tais artistas, e muitos outros, eram a força de resistência a um regime opressor, respondendo com música e poesia à torturas e violência.

De lá para cá os problemas do Brasil em termos de política se não pioraram, também não melhoraram muito. Em 30 anos tivemos 2 presidentes depostos de seus cargos e incontáveis casos de corrupção. E não é uma corrupçãozinha, de leve. São rombos de milhões e, ultimamente, bilhões de reais saindo pelo ralo direto para o bolso de uma quadrilha de engravatados. Enquanto isso o povo não têm saúde, não têm lazer, não têm segurança, nem transporte, muito menos educação. Muitos não têm casa, outros tantos não têm empregos.

Motivo para protestar nesse Brasilzão de Meu Deus é o que não falta.

Gente também não falta. Desde de 2013 o brasileiro percebeu (um pouco) do (pouco) poder que tem. Foi às ruas contra a corrupção, contra a Copa do Mundo, contra o Petrolão, contra políticos do naipe de Cunha, Sarney e Calheiros, sem falar nos próprios presidentes (o Ex, a Ex e o Atual). Com exceção de alguns casos, as manifestações foram pacíficas, prova de um povo maduro que sabe o que quer: o fim do "quanto eu levo nisso".

Com motivos de sobra e brasileiros aos montes, o que falta mesmo é artista para colocar em música o que é visto diariamente no noticiário.

Não fosse Gabriel, o Pensador, viveríamos uma geração alheia artisticamente ao sofrimento e a indignação diários.

Como mostra o documentário produzido pela Spotfy, o rapper carioca cresceu vivenciando diariamente a desigualdade social do Rio de Janeiro, uma das cidades mais bonitas e ao mesmo tempo mais tristes do mundo, onde a favela faz parte do cartão postal e onde o tráfico trava uma guerra diária contra o povo.

O Pensador no filme. Sem bigode, quase não o reconheci. Foto: Divulgação

Foi em 1992, ano em que o então presidente Fernando Collor sofreu um impeachment, que Gabriel, o Pensador começou figurar numa carreira que andaria lado a lado com a história política do Brasil. Indignado com o "marajá que roubou o povo até cansar", como ele coloca em É Pra Rir ou Pra Chorar, o pensador soltou sua primeira canção oficial: Tô Feliz (Matei o Presidente).

A canção, apesar de independente, tinha uma qualidade incomum associada a uma letra inteligente, rápida e agressiva que logo chamou a atenção da mídia e de gravadoras.

Fazendo da crítica social sua matéria prima, o pensador lançou canções que se tornaram hits como Cachimbo da Paz, uma crítica à hipocrisia da sociedade em relação à maconha, Retrato de um Playboy, uma crítica aos jovens de mentalidade nula dos anos 90; Loira Burra, crítica, dessa vez, às jovens de mentalidade nula; Brazuca, crítica em relação à idolatria ao futebol num país carente de tudo. Tudo isso e muitas outras canções.

Quebra-Cabeça

Conheci o Pensador em 1997, ano em que pedi de aniversário o CD Quebra-Cabeça, um dos primeiros discos que eu tive na vida e que, diferente dos demais, por alguma razão não sobreviveu até hoje. Eu tinha 10 anos na época e só conhecia Cachimbo da Paz. Gostava da letra, mas não a entendia direito e ficava triste por causa do índio que morria no final. Só muito depois fui entender do que ela falava. Mas o gosto pela batida e pelo refrão ("Mareria, sente a maresia", clássico) foi suficiente para me fazer comprar o disco e ouvi-lo de ponta a ponta vezes o suficiente para decorá-lo na íntegra.

Descobri que Cachimbo da Paz era boa, mas haviam outras ainda melhores. Aliás, tudo naquele disco era bom. Tudo era uma crítica tão bem disfarçada de ironia e humor que muitas vezes eu só fui compreender o real significado anos depois, prestando atenção na letra. É o caso de +1 Dose, música que começa como uma ode à bebedeira e termina com o lado assustador do alcoolismo e Bala Perdida, auto-explicativa. Haviam também momentos descontraídos no disco como Eu e a Tábua e Festa da Música, mas a coisa ganhava um ar mais especial quando endereçada à algum tema especial da sociedade como Sem Saúde e Pátria que Me Pariu.

Capa de Quebra-Cabeças. Foto: Reprodução

Me tornei fã do cara desde então.

Quando saiu Até Quando, em 2001, fui um dos muitos que foram arrebatados pela canção. Assim como quando assisti Clube da Luta e Matrix, depois da primeira audição de Até Quando eu me despertei. Queria mudar o mundo. Queria fazer a diferença. Queria deixar de levar porrada. Queria protestar e brigar pelo que era certo.

Interessante notar em Derrubando Muros, Expandindo Horizontes como as pessoas são contagiadas por essa energia revoltante da obra do músico. O vídeo mostra, por exemplo, como a canção foi acessada e buscada na época da revolta de 2013. Gabriel, o Pensador se tornou efetivamente sinônimo de protesto e do não ao conformismo.

Esse blog é um exemplo disso.

Quando os políticos brasileiros decidiram que a semana de trabalho deles só teria 3 dias, usei a canção Até Quando para ilustrar minha indignação. Na época das revoltas de 2013, usei a belíssima obra Brasa como pano de fundo. Para criticar a Copa, usei Brazuca e quando vi eleitores do PSDB e do PT se batendo na rua nas vésperas da eleição postei É Pra Rir ou Pra Chorar?

O Pensador é, além de uma das raríssimas vozes à criticar os problemas do Brasil com embasamento e inteligência, um ativista que não apenas fala, mas também faz. O documentário da Spotfy é muito bem vindo, uma vez que conhecer a história e a obra desse sujeito é não só bom, como necessário principalmente num dos momentos mais delicados da política brasileira: no qual políticos estão sendo julgados e presos pelo maior desvio de verba pública da história.

Assista ao documentário na íntegra:

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