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Samurai X, excepcional em todos os sentidos e em todas as mídias

18/10/2016

Pouquíssimas obras da cultura pop conseguiram atingir um nível de qualidade tão grande em diversas mídias quanto a obra de Nobuhiro Watsuki

Há alguns anos vi uma notícia de que o mangá Rurouni Kenshin, mais conhecido no Brasil como Samurai X iria se tornar um filme. Filme mesmo, com gente e tudo o mais. O chamado Live Action.

Poster Promocional do filme Rurouni Kenshin. Foto: Divulgação


Quando esse tipo de coisa acontece é normal o assunto ser mais motivo de apreensão do que empolgação. Como fãs que somos, ficamos com os dois pés atrás. Parece simples, mas não é fácil adaptar uma obra qualquer para o cinema. Ainda mais uma obra que possui uma legião de fãs que a guarda no coração com carinho, como o caso de Samurai X.

E piora quando falamos de uma obra-prima.

Samurai X é, antes de qualquer cosia, isto: uma obra-prima.

Por alguma façanha do destino, porém, a história de Kenshin Himura, o Andarilho mantém-se intocável no que cerne à qualidade e repeito à sua essência de simplicidade, amizade e conflito. Uma benção para quem é fã, como é meu caso.

Mangá de Nobuhiro Watsuki foi lançado em 1994 e virou febre. Foto: Divulgação

A graphic novel original composta pelo mestre Nobuhiro Watsuki foi lançada em 1994 e contempla 28 volumes que se tornaram animação dois anos depois. Ela conta a história de um exímio samurai que ajudou o Japão à chegar à Era Meiji ao custo de muita guerra civil e, portanto, muitas mortes. Decidido à não matar mais, Kenshin se torna um Andarilho disposto à usar sua espada somente para a vida. Pode parecer contraditório, mas é justamente nesse dilema moral em que se esconde a maestria da história. Afinal, como fazer o bem quando tudo o que se sabe fazer é matar? Como atingir a redenção com mãos tão cheias de sangue? Disfarçado de história de artes marciais para crianças, com um humor leve e personagens estilosos, Samurai X acabou conquistando gente de todas as idades justamente por essa carga emocional forte que carrega nas entrelinhas.

Muitos fãs brasileiros conheceram a obra quando ela foi exibida pela Rede Globo em 1999. Apesar de problemas com cortes em diversas cenas consideradas violentas, o anime chamou a atenção do público e foi exibido, finalmente sem cortes em 2001 pelo Cartoon Network, mesmo ano em que a Editora JBC começou a publicar a obra original por aqui, em edição que chegou a 56 volumes. Tanto o mangá quanto a animação são obras cativantes e que rapidamente se tornaram ícones na cultura pop de quem aprecia esse tipo de arte oriental.

Versão animada também fez sucesso e começou a passar no Brasil em 1999. Foto: Divulgação

Vale destacar a trilha sonora do anime. Com canções de Rock japonesas servindo de abertura e encerramento, Samurai X seguia por um nível de qualidade incomum para obras do gênero. É dele, entre outras, Tactics, viajada neste texto. Ouça Heart of Sword, da banda TM Revolution, outra pedrada presente na trilha:



Além da HQ e do anime, Smaurai X também ganhou 4 episódios dos chamados OVAs, um tipo de longa animado complementar à história original, o qual conta a história do passado do Andarilho protagonista. Uma história extremamente sombria e sangrenta, diga-se de passagem. Com tom muito mais sério, totalmente diferente da obra original, os OVAs, como a HQ e o anime, se tornaram logo referência de qualidade estética e narrativa. Ao que parecia, tudo envolvendo o título Samurai X acabaria sendo bem sucedido.

Versão OVA da série. 4 episódios para te deixar sem dormir. Foto: Divulgação

Com o boom de adaptações de quadrinhos ao cinema em Hollywood e as novas tecnologias que tornaram mais fáceis a concepção de um cinema mais independente e autoral, não seria de se estranhar a vontade de levar Kenshin e seus amigos para o cinema em formato Live Action.

É aí, porém, que morava o perigo.

A Marvel Comics e, em certa medida, a DC Comics têm triunfado nas telonas com seus heróis mascarados e poderes fantásticos, ao exemplo do Homem de Ferro. Mas devemos lembrar que tais heróis são grandes conhecidos do mundo ocidental e foram desenvolvidos, principalmente para um público jovem.

Por outro lado, ouve-se há anos a intenção de transformar Evangelion, Gunnm e Akira em longas metragens. Com impasses criativos e direitos de licença, o adiamento dessas empreitadas serve como um alívio para quem admira e respeita as obras. Não é preciso ser gênio para prever o risco que se corre nesse tipo de adaptação. Ninguém quer ver sua obra preferida da infância despedaçada numa adaptação que vise unicamente o lucro e esqueça-se de sua essência. Essas obras citadas são ícones da cultura pop. É inevitável pensar nelas em obras sérias, dramáticas e pesadas com classificação mínima de 18 anos. Você acha que algum estúdio iria por essa linha na adaptação de um desenho? Dificilmente.

E não é que ficou bom? Foto: Divulgação

Nesse ponto Samurai X tem a vantagem de ser uma história muito mais realista (até mesmo histórica), o que tornaria sua ambientação muito mais palatável. Até mesmo o fato de o herói ser um ex-assassino é facilmente contornável com um bom roteiro sem comprometer a classificação etária. Mas ainda assim haviam elementos delicados na obra que exigiriam um mínimo de cuidado para que ela não se tornasse uma caricatura de si mesma.

Por sorte a benção de Samurai X continuou firme e forte.

O longa Rurouni Kenshin saiu em 2012 de forma discreta e acabou, como tudo envolvendo o espadachim Andarilho, conquistando um grande público e possibilitando a realização de 2 sequências. A estratégia de Watsuki e do diretor Keishi Ōtomo foi bem delineada desde o princípio: fazer algo simples, porém bem-feito. Não por acaso foi escolhida a primeira saga do mangá, a do Chapéu Negro, como trama central. Além de seguir a linha cronológica original, serve muito mais como uma introdução ao universo do Samurai X. Com certeza o criador e o diretor não sabiam que o filme seria um sucesso, de forma que optaram por ir com calma, um passo de cada vez. É de se tirar o chapéu a opção por uma saga menos conhecida e mais simples do que pelos trechos mais famosos do desenho. Uma vez que o sucesso foi alcançado, aí então, e somente então foi pensada na adaptação da saga de Kyoto, a mais famosa e importante da história. Essa forma de pensar ajudaria muito Hollywood a não fracassar com heróis famosos como Homem Aranha em sua versão Espetacular e Superman. Ao invés de colocar o herói num conflito de proporções mundiais, que tal apresentá-lo decentemente, com uma história simples e bem feita?

Live Action se destaca pelas cenas de ação. Foto: Divulgação

No primeiro longa, assim como na HQ e no desenho animado, Kenshin é apresentado como um andarilho que esconde seu passado. Suas andanças o levam até Tóquio, mais precisamente até o dojo de Kaoru Kamyia, uma professora de Kendô (a arte marcial praticada pelos samurais). Yahiko, um garoto sem pais adotado pela jovem e Sanozuke, um lutador de rua completam o time que faz vezes da nova família do samurai. Alguns assassinatos, entretanto, parecem perseguir o guerreiro e, com a ajuda da polícia e do oficial Hajime Saito, Kenshin precisa enfrentar o espadachim poderoso conhecido como Jin-E ou, Chapeú Negro, que pretende trazer de volta o antigo assassino do passado de Kenshin.

Como dito anteriormente, é um filme de estrutura e trama simples. O grande trunfo da adaptação é o mesmo que fez brilhar a aventura nas mídias anteriores, o carisma dos personagens e as cenas de luta estarrecedoras. Com um elenco afiado e ação muito bem coreografada o longa se sobressai como um filme de luta muito bem feito e com personagens já consagrados. É de tirar um sorriso do rosto o jeito humilde e, às vezes até bobo, de Kenshin, a seriedade de Saito e o jeito sempre "em guarda" de Sano.

As duas sequências, O Fantasma de Kyoto e O Fim de Uma Lenda, se encarregam de contar a saga de Kyoto, grande ápice do anime que havia alcançado, na época, a produção do mangá que já gozava de sua máxima popularidade. O filme acerta em valorizar esse momento épico em que Kenshin precisa viajar para Kyoto para enfrentar Shishio, uma espécie de sucessor de sua época como assassino. Além de feroz na luta, Shishio possui uma equipe de guerreiros tão sanguinários e caóticos quanto ele próprio. Antes de tentar vencê-lo, Kenshin precisará aprender com seu antigo mestre a técnica suprema do seu estilo de combate.

Sucesso do longa originou 2 sequências sobre a saga de Kyoto. Foto: Divulgação

É gratificante ver em um novo formato personagens que marcaram sua infância encarnados com maestria. Masaharu Fukuyama como Seijuro Hiko, o mestre de Kenshin, quase me fez chorar quando apareceu em toda sua imponência. O Hajime Saitou de Yōsuke Eguchi me fez manter o respeito e admiração que eu tinha pelo personagem. Emi Takei , embora com menor destaque, expôs toda a docilidade da Kaoru, a jovem e determianda professora. Apesar de um certo exagero na caricatura de brigão de Sanozuke (Munetaka Aoki) e na de bad boy de Aoshi (Yūsuke Iseya), os dois também tinham ali a essência de seus personagens. O corpo todo de secundários como Yahiko, Misao e Megumi também foram não só fisicamente fieis como transpareceram todo o apoio que os heróis precisavam. Vale destacar o Shishio de Tatsuya Fujiwara, selvagem e assustador de maneira, ouso dizer, até mais intensa que no original.

Em especial o Kenshin vivido por Takeru Sato foi um bom acerto. Um personagem da complexidade do espadachim precisava de uma atuação madura, contida e, ainda assim respeitosa. Foi o caso em todos os sentidos. O Kenshin sério, em combate, convencia com a mesma proeza que o Kenshin humilde e, até bobo, do dia-a-dia.

Junjou na Kanjou, outra sonzeira na trilha sonora do anime:



De modo geral a caracterização dos personagens foi outro ponto alto da película. Com exceção de alguns pequenos momentos artificiais em que parecemos estar diante de um concurso de cosplay, em especial do vilão Chou, o resto é tudo muito orgânico e bem feito. Nostalgia pura para quem acompanhou as páginas do mangá e o desenho na TV.

Os dois filmes, O Fantasma de Kyoto e O Fim de Uma Lenda, são interligados como 2 capítulos de uma mesma história. A decisão de fatiar a história em duas foi uma boa saída, afinal a saga possui centenas de detalhes que merecem atenção do roteiro. Ao contrário de tantos longas divididos em 2 como Jogos Vorazes e O Hobbit não se sente aqui a famosa encheção de linguiça. Isso por que é muito material para ser trabalhado. Tanto que muita coisa precisou infelizmente, porém acertadamente ter ficado de fora, como a batalha do Juppongatana. Já outros, poderiam ter sido suprimidos, como o arco de Aoshi, o personagem mais desnecessário do filme, com um background intenso, porém sem tempo de se explicar, resumindo-se a briga atrás de briga.

Quase chorei nessa cena do mestre Seijuro Hiko. Foto: Divulgação

Com exceção de Shishio, os vilões foram todos prejudicados pelo curto tempo de exibição. Os que deram mais dor no coração foram Anji, o monge e professor de Sano, reduzido aqui à um capanga qualquer e Usui, o samurai cego que deu um trabalho danado para o Saito e aqui foi derrotado com um único golpe. O mesmo acontece com Misao, uma das personagens secundárias mais legais e relegada aqui à quase uma extra. Enfim, esse é o desafio maior de adaptar a história de Kenshin. Todos os personagens são bons e possuem backgrounds elaborados. Com a limitação de tempo em tela é preciso escolher quem priorizar.

Deslizes à parte, o filme resulta muito positivo. É mais do que a nostalgia. É ação formidável com cenas de luta dignas dos melhores filmes do Jackie Chan e Jet Li e emoção forte com os principal tema abordados em Samurai X: o conflito interno de um homem que já teve seu fardo de pecados e só quer agora um pouco de paz.

A trilogia Rurouni Kenshin assina, desta vez no cinema, o nome do samurai com a mesma dignidade que conquistou em todas outras mídias, desde a sua criação ;)

2 comentários:

Silvana Santana disse...

Muito legal, seu texto Felipe.
Acho que foi um mês atrás que vi o primeiro filme, e não sabia que tinha sequencia. Agora com certeza verei o segundo filme.

Felipe Perazza disse...

Valeu pelo comentário Silvi!! Assiste e depois me diz o que achou. Beijao e obrigado pelo comentário

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