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Across the Universe, a essência do universo Beatle em um filme digno

08/09/2016

Longa dirigido por Julie Taymor respeita o quarteto de Liverpool, reinventa canções e conta uma história simples de forma bonita


Quando eu era adolescente provavelmente ouvia Beatles todos os dias. Hoje, com tantas bandas que eu gosto, não consigo manter a mesma periodicidade, mas o carinho pelo quarteto nunca diminuiu.


Lembro de pensar, naquela época, que os Beatles tinham uma música para cada ocasião da vida. Se você tinha se apaixonado à primeira vista, havia I Saw Her Standing There e mais uma dezena de canções para servir de trilha sonora. Se você tinha levado um pé na bunda, havia Misery, No Reply, I'm a Loser e mais duas dezenas. Se você queria só curtir com os amigos, tinha With a Little Help From My Friends. Se sentia louco? I'm The Walrus. Queria sexo? Why Don't we Do it in the Road. Queria mudar o mundo sem violência? Revolution. Queria escrever novelas? Paperback Writer. Queria ir fazer uma meditação transcedental? Tomorrow Never Knows.

Enfim, a lista de possibilidades era extensa. Os caras pareciam ter passado por tudo e era difícil estar em uma situação que já não tinha sido musicada com maestria pelo quarteto de Liverpool.

Revoluções e protestos. Tudo combina com Beatles. Foto: Reprodução.

Dessa forma, faria todo o sentido ter um filme ilustrado apenas por canções dos Beatles. Qualquer história de vida conseguiria virar uma coletânea Beatle digna de nota.

Talvez seja por isso que Across the Universe seja um filme incrível.

A história do musical é simples e boa como uma música da primeira fase da banda. Um rapaz da Inglaterra vai para os EUA e lá se apaixona por uma garota. O romance dos dois é entrecortado pelas situações políticas e econômicas que a conturbada década de 60 trouxe. O toque especial da obra é colocar canções da maior banda da história para ilustrar situações, não se limitando ao romance, mas também usando as obras em trechos dramáticos como a guerra, tristes como a solidão e tensos como uma briga.

Dessa forma o filme consegue justamente provar para o mundo aquela teoria de que há uma canção beatle para cada momento da vida, seja ele qual for.

É claro que baladas alegres como All My Loving, Hold Me Tight e I Wanna Hold Your Hand não poderiam ter outra conotação que não a do amor juvenil e efervescente, mas Happiness is a Warm Gun, Strawberry Fields Forever e outras canções da terceira fase do grupo podem ser interpretadas de diversas formas. O filme abusa então da profundidade dessas canções para criar uma experiência sinestésica deliciosa e arrepiante.

Trecho emocionante: All You Need s Love. Não podia faltar. Foto: Reprodução

É assim que você tem uma Helter Skelter com todo seu peso servindo para nos afundar no tumulto dos protestos anti-guerra do Vietnã. É assim que I Want You se torna um hino autoritário do Tio Sam em busca de soldados para a guerra - um dos melhores momentos do filme, sem dúvidas. Let It Be também é mostrada numa versão de fazer chorar, enfatizando o outro lado da guerra, ou seja, daqueles que a vivenciam diariamente nos países invadidos.

Revolution consegue colocar todo o seu dilema do modo sarcástico que John Lennon escreveu, colocando o protagonista vivido por Jim Sturgess em conflito com revolucionários radicais e mostrando que a violência pode não ser a solução.

Com um elenco afiado, uma fotografia belíssima e uma edição artística ótima, Across the Universe é um prato cheio não apenas para beatlemaníacos, mas para amantes da música e da arte em geral. Se você é fascinado pelo universo criado pelo quarteto, vai se deliciar com a seleção de canções - uma boa mescla de hits com outras Lado B que não podiam faltar - e com as referências visuais e do roteiro. Preste atenção aos nomes dos personagens e você já esboçará um sorriso à cada menção. Isso tudo mostra o carinho como que Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Frenais escreveram o roteiro. Percebe-se nas várias camadas do filme que o trio é verdadeiramente fã da banda e não apenas conhecedores de uma coletânea qualquer. Quem teria a audácia de colocar um número inteiro sobre Dear Prudence e outro sobre Being for the Benefit of Mr. Kite!? Apenas fãs de coração, é certo.

Bono Vox como Dr. Robert em um número altamente viajante de I Am The Walrus. Foto: Reprodução

Julie Taymor comandou também a direção do longa e fez questão de colocar na tela todas as cores, movimentos e sutilezas que o universo Beatle precisa. A cena de I Am the Walrus como Bono Vox cantando e interpretando o místico Dr. Robert é uma viagem psicodélica quase orgásmica. Come Together vem na voz de Joe Cocker e também traz cores e ritmos que tornaram a canção digna de ser regravada.

É difícil fazer uma obra qualquer pisando em solo sagrado como o que foi batizado pelos Beatles. Mas quando a obra é feita com carinho e competência, se torna mais um ícone no portfólio de materiais sobre a banda. Obrigatório para quem é fã e muito recomendado para quem apenas gosta do grupo ou de cinema em geral ;)

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