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[SOUNTRACK] Amadeus

04/04/2016

Um filme digno de uma figura sobre-humana como Mozart

Logo que terminei de assistir Amadeus pela segunda vez na vida, comentei com minha esposa como era interessante pensar que o filme havia sido feito em 1984, ou seja, mais de 30 anos atrás. Por se tratar de um filme de época e ter sido produzido e dirigido com extrema qualidade, Amadeus tornou-se um filme eterno, livre das amarras que poderia torná-lo um filme datado.

Passaram-se 30 anos, mas podem passar mais 300... Amadeus será sempre um filme excelente, incrível, emocionante, impecável.

Poster de Amadeus. Foto: Reprodução


Amadeus é atemporal.

Amadeus foi dirigido por Milos Forman, inspirado numa peça de teatro escrita por ele próprio. Apesar de levar no título o nome do lendário compositor do período clássico Wolfgang Amadeus Mozart, o filme contra a história da relação entre este e seu rival/admirador Antonio Salieri.

É bom observar desde já que o filme não se baseia em fatos históricos, mas toma liberdades artísticas e abusa da mitologia criada em todos dos personagens - sejam criadas na própria época ou nos longos séculos que nos separam daquelas personagens icônicas - para construir sua própria versão dos fatos. Seria como fazer um filme sobre o descobrimento do Brasil. Ninguém de nós estava ali para saber como era Pedro Álvarez Cabral ou Pero Vaz de Caminha. Isso dá um aval ao diretor para criar as próprias personalidades, conflitos e angústias de cada um.

E isso é a grande riqueza de Amadeus.

Mozart, interpretado por Tom Hulce. Foto: Reprodução

Seria simples fazer uma cinebiografia de Mozart. Estariam ali todos os ingredientes essenciais para um filme do tipo: um dos maiores gênio da música (provavelmente o maior) e sua proporcional inabilidade para administrar a própria vida pessoal. O desejo Rock Star de curtir cada momento e não levar nada à sério. Um trauma familiar. Um final épico com a morte misteriosamente precoce do músico aos tenros 35 anos. Seria um filme bom, inegavelmente.

Mas Milos Forman não queria um filme bom.

Ele queria um filme incrível, emocionante, impecável.

Ele queria um filme atemporal.

Daí a grande, genial, ideia de colocar no papel principal não o próprio Mozart, mas Antonio Salieri, uma figura tão ou até mais interessante que Mozart.

Salieri, interpretado por F. Murray Abraham. O papel lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator. Mais que merecido! Foto: Reprodução.

Você já ouviu falar em Antonio Salieri?

Eu não tinha e, a menos que você seja um estudioso da música clássica, provavelmente também não saberá quem é antes de ver o filme.

E é a partir daí que o filme começa e, por duas horas e meia (que passam voando, tamanha a nossa imersão na película), acompanhamos essa relação tão interessante entre os dois protagonistas. Relação esta que envolve admiração, inveja, respeito, raiva, amor e desprezo em doses iguais e extremas. São cenas e mais cenas de emoções destiladas com maestria. A obra é toda conduzida por Forman como a batuta de um maestro. Tudo é forte. Tudo é denso. Tudo é arrepiante. As cenas que mostram as óperas de Mozart e Salieri "ao vivo" são chocantes: de fazer suar frio e de congelar o sangue, tamanho poder da trilha sonora e tamanha a entrega com que os atores F. Murray Abraham e Tom Hulce se entregam aos seus personagens cheios de uma paixão e raiva efervescentes e altamente perigosas.

O filme acontece todo do ponto de vista de um velho e angustiado Salieri. Confessando a um padre ter sido ele o assassino de Mozart, o compositor nos conta sua vida e como ela foi totalmente revirada, embora de forma não intencional, mas bastante prejudicial, pela chegada de Mozart à corte da Áustria.

Dedicação X Talento

Mozart e Salieri. Talento contra dedicação. Isso dá guerra. Foto: Reprodução

Salieri era um músico formidável extremamente dedicado. Estudioso e religioso com o mesmo fervor, decidiu dedicar-se de corpo e alma à música com o objetivo de, como ele mesmo coloca, poder cantar para Deus, provando sua fé por meio das notas musicais. O músico é o total oposto de Mozart. Dono de um dom que só mesmo Deus poderia prover que o fez ser capaz de compor suas primeiras obras aos 4 anos e aprender músicas após ouvi-las uma única vez, Amadeus cresceu para se tornar um homem irreverente e, em certa medida, arrogante. Mozart era o retrato de um espírito livre que vivia segundo suas próprias regras. Um legítimo Rock Star, só que uns 200 anos à frente do tempo.

E isso sem precisar fazer uma oraçãozinha sequer.

É nesse conflito de opostos que o filme nos ganha e nos domina. Não dá para culpar Salieri por suas atitudes duvidosas para prejudicar seu rival "escolhido por Deus" quando tudo o que o dedicado músico conquista com muito suor é ofuscado em 5 segundos de Mozart em cena. Do mesmo modo, não conseguimos nos magoar com a arrogância de Mozart quando vemos seu espírito alegre e indomável numa festa em que ele toca piano de ponta cabeça ou quando ele solta sua risada ridícula, totalmente díspar da figura de um gênio.

Torna-se impossível não refletir à respeito. Quantas vezes nos dedicamos com afinco à alguma atividade e, ao olhar para o lado, vemos um gênio tirando tudo de letra sem o menor esforço? Um professor me disse na faculdade que desenho não era questão de talento, mas sim de treino. Eu não poderia discordar mais. Como Salieri já vi meus esforços minados diversas vezes por "concorrentes" que se dedicavam um mínimo e desenhavam como Leonardo da Vinci renascido. Diante dessas pessoas eu senti raiva e inveja, mas também senti respeito, devoção e reconheci Deus em seus trabalhos. Ou seja, um emaranhado de emoções que só a mente humana é capaz de criar e só a música pode dar vazão.

Soma-se esse conflito uma trilha sonora clássica, fruto das obras-primas desse gênio que foi Amadeus Mozart e você tem uma obra-prima cinematográfica que, por mais difícil que possa parecer, consegue estar no nível de sua música. Algo que Salieri classifica como: a voz de Deus cantando ;)

Ouça a trilha completa:

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