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[SHOW] Todos os dias as Velhas Virgens salvam minha vida

23/04/2016

Show das Velhas Virgens no Rock Club, em São Bernardo em 20/04/2016

Eu tinha 18 anos quando conheci as Velhas Virgens. Foi com o disco "Abre Essas Pernas ao Vivo". Meu conhecimento musical não era grande e me surpreendi com a habilidade daqueles caras em fazerem música boa e falarem abertamente de coisas que eu tinha vergonha de comentar com qualquer um.

Estar na seca, sexo anal, tocar bronha ou siririca, sentir atração (e culpa) pela sogra ou pela cunhada... Aquilo tudo era um tabu grande demais não só para mim, mas para o mundo em geral e era reconfortante saber que alguém falava daquilo como se fosse um assunto tão normal quanto, de fato, deveria ser.

Velhas Virgens no Rock Club. Foto: Felipe Andarilho/Divulgação


Naquele ano de 2006, há exatos 10 anos, fui num show deles para ver qual era a dos caras. Era um show de quinta-feira, no Café Aurora. Eu trabalharia na sexta às 7h, mas era jovem, forte, cheio de energia e muitas merdas ainda por fazer. Foi uma das noites mais incríveis na minha vida e nunca esqueci do heroico fato de que saí do bar direto para o trabalho, meio bêbado e completamente convertido em zumbi. Tive tempo apenas de tomar banho em casa, mas nem um minuto de sono.

Talvez tenha sido a primeira vez em que curti minha vida de verdade, sem pensar no amanhã. E ter sido um show das Velhas torna tudo muito mais poético. No palco, um até então desconhecido para mim, Paulão de Carvalho estava vestido de general, debulhando na gaita, xingando o show acústico que eles estavam fazendo porque, segundo eles, "as guitarras ficavam baixas demais". Em certo momento ele se vestiu de mulher para cantar Era Um Homem Lindo, ocasião em que percebi, não era pecado nenhum achar um travesti bonito. Um tabu à menos.

Foi Bom Pra Você. Disco de estreia das Velhas e CD que mais ouvi da banda. Foto: Reprodução.

A música que mais me marcou naquele show há 10 anos foi uma canção do primeiro disco deles. Chamava-se Blue à Perigo. Era tudo que um garoto cheio de hormônios, mas nenhuma desenvoltura com as mulheres, precisava ouvir. Afinal, eu não era o único à sofrer seguidas rejeições do sexo oposto. "Uma mulher pelo amor de Deus", Paulão gritou e eu gritei com ele. Percebi que ele era um cara em quem eu podia confiar...

Engraçado como nesses 10 anos que se seguiram ouvi as Velhas com uma certa frequência, mas nunca mais consegui ir num show deles. Sempre que procurava a agenda da banda eles excursionavam por algum canto do Brasil. Nas raras ocasiões em que tomei conhecimento de um show em São Paulo, por alguma peripécia do destino, eu não podia ir. Ou estava viajando, ou tinha algum aniversário. Muitas vezes, quando descobri sobre o show ele tinha sido há um ou dois dias.

Mas não tinha problema. Eu tinha os CDs à disposição e fazia bom uso deles.

Velhas Virgens. Foto: Divulgação

Foi na Austrália, há uns 3 anos, parado no meio da noite esperando o ônibus que eu percebi que as Velhas eram um remédio contra a minha tristeza e solidão. Na ocasião eu estava chateado pela vida complicada em que tinha me metido onde trabalhava igual uma mula e a conta no fim do mês não fechava. Foi colocar os Velhas e tudo mudou de figura. A noite da distante Perth ficou colorida como a Augusta. O frio se tornou calor. A tristeza definhou diante de uma visão incrivelmente alegre sobre a vida.

No final do meu período na Austrália, comecei a escrever um livro. Eu precisava colocar no papel não só aquela, mas muitas outras percepções de alegria da vida. Quando pensei em alguém para escrever o prefácio percebi que não podia haver outra assinatura que não à do Paulão. E qual não foi minha surpresa quando o cara aceitou prontamente dedicar algumas linhas àquele livro que, como as próprias Velhas, era totalmente independente?

Meu Livro Heróis e Anônimos. Um capítulo sobre as Velhas e prefácio escrito pelo Paulão. Foto: Divulgação

Eu devia saber.

Quando levei o livro já pronto para ele pude finalmente conhecer pessoalmente aquele cara autor de tantas canções que fizeram parte desses 10 anos de vida adulta.

Paulão era ali no bar o mesmo cara que eu ouvia nos discos e tinha visto há tantos anos no palco. Irreverente, sincero, bem humorado. Era o amigo que você gostaria de ter na festa. Pude conversar por alguns minutos com ele comparando, de certa forma, nossas vidas de roqueiros rebeldes. A dele, um músico experiente e famoso do cenário underground. À minha a de um aspirante a escritor e blogueiro independente. Alguns anos de diferença e muitas ideias em comum. Logo concluímos que valia mais a pena fazer o que gostávamos do que seguir um direcionamento imposto pela indústria ou pela mídia.

Estamos falando de Rock and Roll afinal e, à esse âmbito mais puro da palavra, não há nenhuma banda que seja tão fiel quanto as Velhas Virgens.

E eu precisava ver mais um show dos caras. Simplesmente precisava. Paulão ia sair da banda e conforme os dias passavam minha chance de vê-lo mais uma vez à frente das Velhas ficava cada vez menor.

Eu, minha esposa, e o mestre. Foto: Felipe Andarilho

Escolhi então esse show em São Bernardo, no Rock Club. Moro em São Paulo, mas o local era próximo. Dava pra ir.

Fui lá então conferir aquele velho amigo pela segunda e última vez.

Não me decepcionei.

Me surpreendi, aliás, em saber como a banda tem fãs. Muitos fãs. Inúmeros fãs. Muito mais próximos da banda do que eu. Caras que sabem todas as letras. Caras que têm camisetas. Caras que xingam o Paulão no palco, como só amigos muito próximos podem fazer.

Estavam ali. Todos eles. Aqueles velhos que eram certamente heróis, e talvez um pouco anônimos, como eu sugeri no livro. Tocando, destruindo, fazendo todos rirem e se emocionarem. Cavalo destruindo na guitarra. Tuca no baixo. Juliana sensualizando no microfone e Paulão fazendo piadas, cantando e, o quê? tossindo! Era só uma gripe, ele explicou, mas que não ia deixar o show por causa daquilo. Nada menos do que eu poderia esperar dele.

Velhas Virgens, os garçons do inferno. Foto: Divulgação

Tocaram de tudo. Falaram de tudo, como eu sabia que iam falar. Daqueles temas tão proibidos que citei no início do texto, nenhum ficou de fora. Não pude deixar de notar que, mesmo 10 anos depois, os temas ainda são tabus para a maioria das pessoas. Nem por isso a banda mudou em um único disco sequer, sobre o que ia falar. Tudo sempre se resumiu, no fim das contas, à bebedeira, alegria e liberdade.

No tema de abertura do último disco, com todos cantando em uma só voz, percebi qual era a verdade daquilo tudo, afinal. Em todos os dias de trabalho árduo, todos momentos em que o peso parece pesado demais, todo momento em que só queremos mandar tudo à merda. Bem nesses momentos que infelizmente não são raros, não é a cerveja que nos salva, mas sim as Velhas Virgens.

Todos os dias as Velhas Virgens salvam minha vida ;)

2 comentários:

paulaovv disse...

obrigaduuuuuuuuuuuuu

Felipe Perazza disse...

Eu que agradeço!

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