Mais um livro do Andarilho

Cara de Cigana

10/03/2016

A triste história de um músico apaixonado

Essa eu duvido que qualquer um de vocês já tenha escutado!

Isso não é uma música. É uma obra de arte. Uma declamação de puro amor. Um discurso eloquente aprofundado na mais sedutora e perigosa paixão. Uma ode à pessoa amada e perdida mais emocionante que as poesias dos grandes mestres de outrora. Luís de Camões? Não chega nem perto do que esse cara é capaz de falar... Dante Alighieri? Praticamente um estudante juvenil perto da desenvoltura dos versos desse poeta. Roberto Carlos? Uma reles cópia malfeita do talento desse músico.

O único ser humano que pode ser mencionado na mesma frase que esse ícone da música latina - ainda que a diferença entre os dois seja a mesma proporção de uma formiga para um tiranossauro - é o nosso Sidney Magal. Por obra do destino, ambos compartilham não só o estilo musical delirantemente apaixonado, mas também o sobrenome.

Estou falando de Daniel Magal.

Fala sério. Com um bigode como esses um homem só pode esperar a glória. Foto: Divulgação


Eu disse que você não conheceria. Nem a obra e nem o autor.

Não há problema. Grande parte dos tesouros da humanidade passa despercebido pela maioria das pessoas.

Estou aqui justamente para reparar esse erro. Você não poderia morrer sem ter conhecido essa música. Essa obra de arte. Essa declaração de puro amor. Tive que ir até a Colômbia, a terra da Salsa, para conhecer o argentino Daniel Magal e suas canciones de planchar (músicas para passar roupa, melhor definição impossível) e tenho que agradecer meu concunhado que cantava com devoção e olhos marejados a belíssima e triste história de Cara de Gitana. Sua performance me comoveu e eu quase acabei chorando também.

Há poucos homens que conseguem transmitir tanta emoção numa simples canção. É preciso mais que uma bela voz. É preciso ter vivido o que se canta. É preciso ter incorporado nas entranhas aquela experiência inesquecível e depois tê-la digerido, dominado e reconstruído.

No caso de Daniel Magal foi preciso ter conhecido o amor nos olhos de uma cigana. Uma mulher de beleza incomum que o rapaz teve a sorte (ou o azar) de cruzar o caminho. É sabido por tudo e por todos que um homem apaixonado se torna o objeto de divertimento da mulher. E a cigana sabia. Sabia que tinha ganho o jogo naquele primeiro contato visual. Viu os olhos do cantor e o transformou naquele mesmo garoto assustado de tantos anos atrás. Sorriu pra ele maliciosamente. Ela estava com outros homens. Todos tolos. Todos apaixonados como o pobre Magal. Ela os abraçava e os beijava. Mas não tirava os olhos dele. Maldita. Esperta. Sabia o que fazia desde o começo.

A cigana que fisgou o coração de Daniel Magal

Não se sabe quanto tempo Daniel Magal permaneceu naquele bar observando sua musa que o provocava em meio à outros homens que ela não amava, assim como não amava ele. Ela olhava pra ele, isso era fato. Ela sorria, a desgraçada. Talvez até o desejasse ou era assim que ele gostava de pensar. Quem poderia culpá-la, afinal? Ela tinha o poder da liberdade emanando de si. Não tinha dono a não ser o próprio destino. Havia aprendido a brincar com a vida e homens estavam ali para servirem à esse propósito. Afinal para quê mais foi feito um homem apaixonado?

O que se sabe é que, depois do episódio, o músico nunca mais a viu. Percorreu cidades e países em busca da menor das pistas que poderia levá-lo àquela cigana que havia dilacerado seus sentimentos e pisado em seu coração. Mas a mesma força mística que a havia colocado ali parecia tê-la varrido do mundo.

A bebida tornou-se um hábito para Magal. O gosto do álcool ardendo em seu bigode o fazia lembra-se daquela noite, agora apenas um devaneio misturado com reflexos de lembranças semi-esquecidas. Ele gostaria de poder abandonar a ideia de encontrar aquela moça. Mas não conseguia. Simplesmente não conseguia.

Assim nasceu Cara de Gitana. O cantor, hoje um senhor sábio o bastante para não se apegar à ilusões do passado, ainda pode ser encontrado em bares da Argentina cantando e declamando por sua amada.

Ay ay ay donde? Donde estas, gitana mia?
Es esa mi canción desesperada
Que te llama y que te busca en todas partes
Pero donde vá de ti ya nadie sabe


(Ai ai ai onde? Onde está, cigana minha?
É essa minha canção desesperada
Que te chama e te busca em todas partes
Mas onde quer que vá, de ti, já ninguém sabe)

Ouça e emocione-se:

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