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Revolução

17/03/2016

Vivemos dias de guerra. Mas contra as pessoas erradas.

Não se fala em outro assunto. O Brasil está mais interessante do que a série House of Cards sobre os bastidores do poder na Casa Branca. Seria cômico se não fosse trágico. São tantas manobras, recursos, operações e surpresas que cada dia traz uma nova bomba para as manchetes. Sou um cara relativamente jovem, mas não posso dizer que testemunhei um momento tão delicado para a política brasileira quanto este.

E percebendo a máquina de agressões e julgamentos que se tornam as redes sociais nessas épocas (eleições de 2014 que o diga, que nojo daqueles dias), percebo uma importância em abordar o tema da política e das manifestações populares no nosso País. Corro o risco, como sempre, de ser agredido verbalmente por algum militante virtual, mas quer saber? Que se dane.

Beatles em 1968, ano da Revolução! Foto: Divulgação


Buscando no acervo infinito da música boa para ilustrar o momento, lembrei de uma canção de quase 50 anos atrás dos meus queridos Beatles, estes sim, especialistas em revoluções positivas. Afinal, trata-se da banda de Rock que mais mexeu com a música e, fora do âmbito musical, não podemos esquecer da importância de John Lennon na luta contra a guerra do Vietnã, George Harrison na luta contra a fome em países miseráveis e até mesmo Paul McCartney em causas menores, porém não menos louváveis, como o vegetarianismo.

Ou seja, de luta social os caras também entendiam.

Pois então que não estranhemos que, no ano de 1968 saiu no "White Álbum", também conhecido como "The Beatles", uma canção chamada Revolution.

Trata-se de uma canção bastante Beatle: ritmo excelente, riff inspirador e backing vocals sensacionais. Mas essa canção traz uma qualidade ainda maior do quarteto que nem sempre se sobressaia em suas obras: uma letra inteligente, com humor ácido britânico e um toque de ironia. Ela fala justamente sobre a Revolução e as chamas que inflamam os corações das pessoas que anseiam lutar por alguma causa.

Hospitais Lotados. Por quê não lutar por isso?

Há muito pelo que lutar, principalmente num país como o nosso, portanto, àqueles com o coração em chamas não faltam opções. Salários mínimos minimamente dignos. Saúde pública que possa usar, de fato, a palavra "saúde". Transporte público que não se assemelhe à um matadouro. Um governo livre da corrupção. Uma qualidade de vida digna, que infelizmente é realidade para uma minúscula parcela da população. Para coroar a cereja podre no bolo de merda, desde o ano passado nossa economia está caminhando para trás com tanta corrupção sendo desmascarada somada à inépcia de nossos governantes, mais preocupados em salvar o próprio cargo do que em, digamos, trabalhá-lo (se é que podemos chamar de trabalho uma atividade altissimamente remunerada onde não há chefe, nem cobrança, nem ao menos obrigatoriedade de ir ao local de trabalho, mas isso é problema de 1988, ano em que inventaram essa palhaçada).

Enfim, o que vejo atualmente nas redes sociais e nos debates entre pessoas com ideias diferentes é uma incapacidade de visualizar 4 básicos numa análise fria sobre política:

1. Ter uma opinião diferente de outra pessoa não faz de você dono da verdade, nem dessa pessoa sua inimiga mortal. A verdade, nós mortais, jamais conheceremos e, francamente, um inimigo mortal é um luxo que nenhum de nós precisa.

2. Ser de direita ou esquerda é apenas uma rotulagem para partidos fazerem propaganda política. Uma vez instaurados eles governam unicamente com o bojetivo de se prepetuarem no poder. Qualquer expectativa de que políticos irão seguir essa visão ideológica e fantástica para o bem do povo é mera ilusão. Não fosse por isso não teríamos dezenas de opções de partidos, cada um com uma ideologia que mais parece desculpa. Temos os de extrema esquerda, centro-direita, 3/4 de direita, 25% esquerda. "Opções" não faltam. O que faltam mesmo são opções, sem aspas.

3. Políticos não são nosso amigos. Sei que nas propagandas eles aparecem abraçando o povão, andando de ônibus, mas te garanto: essas serão as únicas ocasiões em que você o verá agindo como um ser humano comum. No resto do tempo ele vive em seu próprio castelo, desfrutando das regalias que seu cargo permite e seguindo seus próprios interesses. Ele fará de tudo para alcançá-los, não importa o preço. Como um vírus, ele vive unicamente para si. Ele não pensa em nada além de si próprio e de sua família, embora alguns nem nisso pensem. Jamais, em hipótese alguma, se esqueça de quem o político é. Portanto, jamais, em hipótese alguma, defenda um político. Ou defenda, sabendo que o efeito é o mesmo que defender um serial killer ou um poderoso endinheirado: torna sua imagem duvidosa, ainda que não seja. Além disso, vale lembrar, ele não precisa da sua defesa, pois já tem um advogado poderoso (e caríssimo) para isso.

4. Entrar em conflito com outra pessoa (e pior ainda, com um grande amigo seu) é fazer justamente o que o governo precisa: que o povo esteja desunido, dividido para que então seja mais fácil governar. Trata-se da mais antiga, repugnante e (infelizmente) eficiente estratégia de assegurar o poder, utilizada desde os sanguinários romanos até o recente nazismo. Basta colocar um grupo contra o outro e eles estarão tão ocupados se degladiando que não terão tempo para cobrar o governo. Quando vejo uns xingando outros de "petralhas" ou de "coxinhas" ou, pior ainda, agredindo-se fisicamente, paro e penso: onde foi que tudo saiu errado. Ah, sim, logo que Cabral falou: "Terra à vista"...

Discussão para ver como semear a discórdia no povo. Não se preocupem, Dante Alighieri preparou um inferno exclusivo para vocês!

Bom lembrar que esse tipo de problema não é exclusivo do Brasil, embora aqui a coisa pareça ter uma tendência natural para se desenvolver.

Pensando nisso, lá atrás, há 49 anos, John Lennon escreveu o que achava da Revolução e das causas pelas quais os jovens brigavam naquela longínqua Inglaterra dos anos 60. Logo no começo da obra, o músico diz, com seu jeito afiado de cantar e de fazer piada:

"Você diz que quer uma revolução
Bem, você sabe
Nós todos queremos mudar o mundo
Mas quando você fala de destruição
Saiba que pode me considerar fora disso"


Mais à frente, após a levada da guitarra já estar nos conduzindo com alegria e os backing vocals de McCartney e Harrison nos fazerem querer cantar junto, Lennon dá outro tapa na cara do extremista:

"Você diz que tem uma solução real
Bem você sabe
Nós adorariamos ver os planos
Mas se você quer dinheiro das pessoas com mentes odiosas
Tudo que posso dizer é, irmão, você vai ter que esperar"


Como se não fosse suficiente, o mestre ainda solta uma última lição, alfinetando o presidente/ditador Mao Tse Tung:

"Você diz que que irá mudar a Constituição
Bem, você sabe
Nós adorariamos te fazer mudar de ideia
Mas se você vai carregar fotos do ditador Mao
Você não vai conseguir nada de maneira alguma"


A guitarra segue, a bateria do Ringo Starr continua arrebentando, enquanto os Beatles encerram com repetições animadas e um final promissor para a obra, dizendo sempre: "Vai ficar tudo bem, tudo bem".

Apesar da sonoridade agressiva, explosiva e do ritmo perfeito, o grande valor dessa canção está no talento de Lennon em desmascarar líderes que pregam a mudança, mas não abrem mão de métodos duvidosos para atingir seus objetivos. Afinal, eles pregam igualdade entre ricos e pobres, mas continuam recebendo salários estratosféricos e pouco fazendo pelos pobres. Eles pregam ética e transparência, mas continuam agindo na obscuridade da politicagem. Eles pregam respeito ao próximo, mas continuam desviando a verba que deveria ser destinada ao bem-estar do povo. Eles pregam uma pátria educadora, mas as escolas ainda são a última das prioridades do governo. E quando digo "eles" ou "governo" não me refiro à algum partido, mas à todos os partidos, uma vez que, caso ainda não esteja claro, só existe um partido: o político.


A mais pura verdade sobre a política no Brasil

Infelizmente a política no Brasil se tornou puro marketing. No horário eleitoral vale tudo, especialmente o que atinge da cintura para baixo. De dados fictícios à imagens manipuladoras.

E enquanto a gente briga, o País é quem perde.

Que nesses dias tenebrosos onde o maior medo do cidadão comum é abrir o jornal e dar de cara com outro tapa na face, nos lembremos dessa velha canção dos Beatles.

A Revolução deve acontecer, sim. Sempre. Mas nunca de forma violenta. Nunca de forma manipulada. O ódio nunca deve prevalecer sobre o respeito e o bom senso. Por isso use sempre a cabeça. Pense por si próprio. Não seja manipulado por nenhum "veículo" (se é que se pode chamar de veículo o nosso jornalismo mercenário e manipulador). Leia de várias fontes. Procure a verdade antes de compartilhar a menor das informações. Não ignore fatos nem invente desculpas. Não siga uma ideologia. Siga o respeito e a lei. Não se surpreenda se você se decepcionar com esse ou aquele político ou partido. Isso acontece com todo mundo. No fim das contas, você descobre o desapego e essa é a melhor arma contra o fanatismo.

O Brasil ainda vai perceber a grandeza que tem e o poder que um povo unido pode desfrutar. Não sei se estarei vivo para ver isso, mas não custa acreditar. Não espero um povo unido completamente alinhado nas mesmas ideias. Isso não existe e nem seria saudável. A diferença de opiniões é o que constrói a democracia. A união que espero é aquela calcada no respeito.

Enquanto isso não acontece, só me resta esperar soar o gongo e torcer para que os Beatles estivessem certos quando disseram: "tudo vai ficar bem vai, ficar bem" ;)

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