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Rubber Soul, um disco para a vida adulta

11/12/2015

Álbum dos Beatles de 1965 completa 50 anos

Tento evitar posts com datas comemorativas de bandas e discos. Nada contra celebrar 10, 30 ou 50 anos de algo relacionado à música, mas essa prática explorada por diversos veículos acaba, sem querer, mostrando erroneamente como o a boa música é algo antigo e que já não se faz mais Rock como antigamente.



Mas quando o Melhor Disco de Música do Mundo e também o Mais Importante Disco da Minha Vida completa 50 anos, é claro que temos que abrir uma nova exceção e comemorar o marco. Afinal faz meio século que veio à luz o álbum "Rubber Soul", dos Beatles.

Foi em dezembro de 1965. Beatles naquela época já era a maior banda de Rock do mundo. O sucesso dos discos anteriores, sobretudo "A Hard Day's Night" (1964) e "Help!" (1965), suportados pelos filmes que levavam a banda às telonas de diversos países os havia colocado neste posto. A expectativa aumentava à cada disco e "Rubber Soul" chegou para provar, de uma vez por todas, que Beatles não era um mero fenômeno de marketing.



Até então Beatles era obviamente uma banda entrosada e carismática com um bom punhado de composições incríveis e outros tantos covers selecionados à dedo. Faltava então o que sempre falta aos bons músicos: a liberdade para ousar. Tendo conquistado a merecida posição de respeito no cenário musical e gerado milhões à EMI, o quarteto havia chegado no ponto de sua carreira em que podiam se dar ao luxo de experimentar mais, sem ter de seguir tanto às rédeas do produtor George Martin e do empresário Brian Epstein.



É nesse contexto que nasce "Rubber Soul", um disco que firma a fase 'Adulta' dos Beatles. Muitos estudiosos e até o próprio marketing da banda classifica a história do FabFour em duas fases. Gosto de pensar que houveram três. A infância terminou em "Beatles for Sale" (1964). O amadurecimento veio em "Help!" e firmou-se de vez em "Rubber Soul". A sonoridade do disco não deixa mentir. Muito menos elétrico e apressado, muito mais lírico e sincero, o álbum, é dono de canções que se tornariam ícones da música como Michelle, In My Life e If I Needed Somenone, para citar apenas uma de Paul, uma de John e uma de George, os três compositores do quarteto.

É importante notar que, a partir de "Rubber Soul" a banda nunca mais fez covers. Não havia espaço nem sentido. Primeiro pela quantidade de músicas que o grupo diariamente criava. Segundo, pense bem, que música de outro artista poderia ser encaixada ao lado de Nowhere Man ou Norwegian Wood? Beatles agora mais do que nunca era Vanguarda. Eram eles quem direcionavam o caminho. Às outras bandas cabia o papel de seguir a onda ou serem ofuscadas para sempre.



O Rock poderoso do grupo não ficou de fora. A própria abertura, com Drive My Car serviu para mostrar ao mundo que a banda ainda era a mesma. Mas até mesmo nela, percebe-se uma certa diferença. Há ali, na voz de McCartney, na guitarra de Harrison uma tranquilidade e uma certeza maior. Uma sobriedade de quem sabe o que faz e que não precisa mais da loucura juvenil, pois a loucura foi domada, moldada e usada como ferramenta de trabalho. A loucura evidencia-se em canções mais experimentais como Norwegian Wood e Girl, mas não deixa de permear nem as canções mais convencionais como a country What Goes On, na poderosa voz de Ringo Starr. O encerramento, Run For Your Life, é outro Rock ligeiro e afiado com o melhor da beatlemania e o melhor da madurez dos caras mesclados com maestria.


Foi neste álbum também que George Harrison começou a despontar. Antes dele, o guitarrista era relegado ao posto de coadujvante em prol dos rostos e músicas mais bonitas de John e Paul. A partir daqui, nada poderia segurar o músico e todo disco fatalmente traria duas ou mais das canções apaixonantes e contemplativas que viriam a culminar no disco triplo pós-Beatle: "All Things Must Pass". Em "Rubber Soul" está a canção que considero a mais incrível composição de Harrison dentro do quarteto: If I Need Someone. Dependendo do dia e da hora, só de ouvir o riff, lágrimas me vêm aos olhos.



Paul McCartney, um cara que só fui aprender a realmente admirar em seu show em 2010 também tem momentos de iluminação no álbum como a violão que introduz I'm Looking Through You. Se essa obra beira a perfeição, o beatle baixista encontra o Nirvana em You Won't See Me, a música que, em minha opinião, é a melhor do álbum. E ser o dono da Melhor Canção do Melhor Disco dos Beatles não é para poucos. É nela que o músico declama um amor perdido com sensibilidade e carinho. Os amigos, como sempre, não podiam ficar de fora, emprestando backing vocals incríveis em cada verso. Tudo em You Won't See Me é perfeito. Cada rima, cada virada é um delírio. A música foi uma das primeiras do grupo à quebrar a barreira dos 3 minutos, o que já é bom, mas a verdade é que poderiam ser 10. Impossível cansar de ouvir.

E por falar em rima e virada, o que dizer de uma música que dá uma lição nesse quesito? Wait, já no final do álbum é um presente à quem aprecia uma bateria bem marcada e um ritmo perfeito. Nela, Ringo usa de pandeiros para acompanhar cada verso e apresenta, no centésimo de segundo exato, sua bateria incrível com direito à uma virada perfeita. Wait é a canção mais grudenta do álbum e é praticamente impossível ouvir sem querer repetir.



É difícil encontrar um disco sem uma única canção ruim. Até mesmo os Beatles têm em "Help!" a amada/odiada Yesterday e em praticamente todos os outros álbuns há pelo menos uma música que não acompanha às outras no mesmo nível magistral, ao exemplo de Till There Was You em "With The Beatles". Já em "Rubber Soul" tudo é perfeito. Tudo é equilibrado, bonito, simples e majestoso.

Na Minha Vida

Agora você que já encarou esse texto até aqui pode estar se perguntando por quê o disco é o mais importante da minha vida. Bem, quando eu consegui finalmente comprá-lo, eu tinha 18 anos. Assim como os Bealtes naquele disco, eu estava amadurecendo. Estava no primeiro ano da faculdade, estudando à noite. Pela primeira vez eu sentia o fresco vento da liberdade e me achava o máximo por pegar o ônibus de volta pra casa as 23h embaixo do Minhocão. A possibilidade de escapar de algumas aulas sem precisar levar um comunicado pra casa era também algo novo e maravilhoso.

Logo que comprei o disco, consegui um emprego. Foi meu primeiro trabalho e consistia basicamente em escanear jornais. Havia uma meta e muita cobrança. Todo dia tinha que escanear ao menos 80 matérias e tratá-las no Photoshop. Não era fácil, mas dentro de algumas semanas peguei o jeito da coisa. O pessoal que trabalhava lá era simples e bacana. Dávamos muita risada no meio de pilhas e pilhas de jornais. Em meio à tudo isso eu ouvia "Rubber Soul". Eu entrava as 7h. Ia caminhando todos os dias. 40 minutos de subida com os Beatles me empurrando. Escaneava, escaneava e saia as 16h. Dali eram 2 horas e meia de sossego até o começo das aulas. Mais pelo menos duas rodadas completas do álbum. Não havia Youtube e até mesmo o MP3 apenas engatinhava. Eu ouvia o CD num Disc Man e torcia pra pilha durar o trajeto todo e não me deixar na mão bem na hora que Wait ia começar.



Olhando agora, percebo que foi uma época difícil, porém bonita. Muitas descobertas e desilusões amorosas que só a faculdade e o início da vida adulta sabem providenciar. Sair de casa me trouxe duas grandes percepções, equilibradamente boas e ruins. Eu soube ali, na caminhada até o trabalho que minha adolescência havia acabado. Não haveriam mais tardes livres, piscina ou video-games. Agora eu precisava trabalhar e estudar. Foi um golpe duro da vida, mas um golpe inevitável que todos recebem e sobrevivem. Pouco tempo depois eu soube também que havia na vida uma nova perspectiva. O dinheiro suado do meu trabalho querendo ou não trazia uma pequena dose de liberdade que eu ainda conhecia apenas superficialmente. Beatles estavam lá para me ajudar com ambas descobertas. Eles me esmprestavam seus acordes tristes em Girl e I'm Looking Through You como quem diz: "Relaxa rapaz, vai passar. Tudo passa". Como um guru místico Lennon dizia, em In My Life tudo aquilo que eu sentia. Haviam pessoas especiais, haviam lugares inesquecíveis.

Eles, como sempre, estavam certos. Passei por aqueles e uma infinidade de outros desafios. Tudo passa. A única coisa que não passa é a minha admiração por Beatles e pelo Melhor Disco de Música do Mundo e também o Disco Mais Importante da Minha Vida, o bom e velho "Rubber Soul" que completa, neste mês, 50 anos ;)

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