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[ENTREVISTA] Ricardo "Micka" Michaelis fala sobre o filme Brasil Heavy Metal

18/12/2015

Filma idealizado há 8 anos ganha Financiamento Coletivo para ser finalizado. Fãs que colaboram ganham recompensas e se tornam "Imortais"


Nesta novíssima edição do Podcast A Todo Volume, tive a honra de conversar com Ricardo ""Micka" Michaelis", fundador da banda Santuário e produtor audiovisual que está trabalhando no documentário Brasil Heavy Metal, longa que promete contar a história do Heavy Metal no Brasil, "do zero a 100" como coloca o diretor. Conversamos sobre a inspiração para o filme, o cenário do Rock Pesado no Brasil e o projeto de Crowdfunding que está rolando para ajudar o filme ser finalizado. Para ouvir o programa dê o play abaixo ou leia a transcrição adaptada na sequência:




Micka, você que é um cara bem ativo no cenário do Heavy Metal, teve até uma banda, conta pra gente um pouco da sua trajetória.

Começamos adolescentes nos anos 80. A gente tinha uma cena do Rock pesado muito virgem. Comecei a me interessar por Rock e meu irmão também. Somos de São Vicente e foi lá que a gente montou uma banda chamada Santuário. Essa banda surgiu no meio do movimento da Inglaterra, o New Wave of British Heavy Metal (NWBHM). Era o movimento onde surgiram grandes bandas icônicas como Iron Maiden, Judas Priest, Saxon. Nós pegamos essas influências desse novo Rock Pesado que vieo após Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin. Nós estavamos em Santos e São Vicente e essa cena também estava começando em São Paulo com bandas como Centúria, Salario Mínimo, Patrulha do Espaço. Eles criavam um movimento muito forte. Foi assim que comecei a me interessar pelo Rock. Estou falando de 1981, 1982, começo dos anos 80 onde tudo era muito novo. Foi o ponto inicial de tocar guitarra e ter uma banda. Posteriormente, percebemos que a gente ajudou a desenvolver um movimento que estava acontecendo no país inteiro.


Nós não tinhamos acesso à informação, nem se compara com o que temos hoje. Naquela época até telefone era difícil. Pra fazer uma ligação interurbana era difícil. Então nós pensávamos, será que está acontecendo algo no Rio? Algo em Minas ou na Bahia, Fortaleza? Ninguem sabia... O movimento que começou a surgir ao mesmo tempo é o que a gente vai contar no filme. Nós começamos a produzi-lo em 2008, quando percebemos que, buscando na internet informações sobre o que tinha de Heavy Metal no início no Brasil, havia pouca informação consolidada. Haviam informações soltas - um blog, um site - mas nada que juntava as pontas. Em 2008 eu já estava envolvido com a produtora, a Ideia House, e trabalhamos nesse universo de entretenimento e vídeo. Usamos então nosso conhecimento para contar essa história. Captamos depoimentos de pessoas ligadas à cena do Heavy Metal, mas não apenas músicos e sim tentando retratar em todos os níveis: desde a imprensa roqueira especializadas, a indústria de instrumentos musicais, lojistas, novos empresários, fotógrafos que foram se profissionalizando. O filme conta esse momento do ponto onde não havia nada até o final dos anos 80; do zero ao 100 descobrindo essa nova atitude, esse novo comportamento e essa nova forma de se expressar.

O filme foi uma ideia sua ou algo da banda, de amigos?

Foi bem pessoal. A grande maioria das bandas dos anos 80 se dissolveram ao longo dos anos 80. Poucas bandas sobreviveram. A minha banda foi parte dessas que se dissolveu. Cada um foi cuidar de uma atividade. Um continuou como músico, o baterista virou professor de educação física e eu acabei ligado à produção de vídeos. A ideia foi muito independente, sem investimentos externos, com recursos da própria produtora pra dar o pontapé inicial.

Cena do filme Brasil Heavy Metal

Pelo que vi pelo trailer, além da parte documental, o filme tem também uma história, certo?

No início o filme seria baseado apenas em depoimentos de músicos, toda cena ao redor de imagens de arquivos: fotos, cartazes panfletos, alguns videos de VHS que alguem raramente tinha. Esse era o plano inicial. Mas ao longo dos anos surgiu a ideia de fazer uma dramaturgia. De um documentario ele virou um longa metragem com essas representações de momentos ao longo da década contando a historia de 2 garotos que se conheceram na escola - como todo mundo na época - e na escola eles resolvem montar uma banda. A partir dali eles atravessam a década com esse desejo, encontrando as dificuldades ao longo dos anos, os desafios, por exemplo, da ditadura no começo da década. E os depoimentos vão costurando a história. Quando surge a dramaturgia, apesar de ser ficcional é algo baseado em depoimentos que dão veracidade à historia. Fala da ditadura, a descoberta deles das Diretas Já, a posse do Sarney que assume o governo, a Copa do Mundo, que o Brasil naquela década não foi muito feliz e os moleques estão vivendo isso. Essa historia não tem peso, é como uma ilustração para localizar o expectador no tempo. Tudo sempre acompanhando a vontade deles de ter uma banda, descobrir a cena nova, pegar menininhas e fazer sucesso se desse certo. Eles vão se deparando com o surgimento da imprensa, os fanzines, caixa postal, a revista se profissionalizando, os instrumentos musicais que não existiam, então começaram a aparecer lojas especializadas...



E sobre o Crowdfunding. Como surgiu a ideia de pedir a ajuda dos fãs para finalizar o filme?

A gente estava bancando todo o projeto. Mas um projeto de tantos anos com tantas pessoas envolvidas tornou-se difícil. Daí pensamos nas leis de incentivo, a Ancine, o Ministerio da Cultura. A gente foi muito bem recebido pelos órgãos, mas não pelos investidores. Ou seja, nós tínhamos o direito de captar recursos, mas não conseguimos nenhuma captação.

Por quê?

Não vou me fazer de coitadinho. Acho que a gente não teve o empenho necessário após os primeiros 'nãos'. Pense assim, você é a Nestlé ou Petrobrás. Você recebe um projeto de um musical do Mágico de Oz. Sou eu ou o Mago de Oz. Por que eles vão por R$100.000 num assunto de Heavy Metal que não é algo popular? E isso vai remeter à história do Metal lá no comecinho e que até hoje é assim...

É uma dificuldade grande...

Nós somos um país com milhões de fãs. A turnês internacionais sempre lotam, a gente adora isso. Mas a indústria não percebeu até hoje... Eu estava falando há pouco com um rapaz ligado ao Rock pesado, ele tinha uma banda na época mas agora trabalha na área da música sertaneja. Ele falou que está com uma dupla que os empresários investiram R$200.000 pra tocar em tal radio em tal cidade. Não é nem nacional! Vamos supor que os caras pegassem por exemplo o Korzus e colocassem R$200.000 pra fazer o Korzus ter projeção. É claro que Korzus nunca vai ter a popularidade de um sertanejo, mas ele certamente diminuiria o buraco underground que forma o Rock. Ninguém nunca se dispôs a fazer isso. O Brasil nunca teve esse apoio. Então percebemos que há essa tendência mundial que, os EUA por exemplo é especialista nisso, em arrecadar recursos pra fazer as coisas aconteceram independentemente de apoio financeiro de patrocinadores. Quem pode fazer isso acontecer é o fã. Pensamos então no financiamento coletivo, envolvendo o fã para nos ajudar a finalizar o filme e fazendo uma troca legal, porque não estamos pedindo emprestado. Estamos trocando por recompensas. Nós desenvolvemos produtos muito legais com um nível de qualidade incomum no Brasil. Então o fã recebe a recompensa e a gente recebe o recurso. Lembrando que tudo que a gente pleiteia no Crowdfunding é o custo daqui pra frente, pois tudo que ficou pra trás a gente já pagou e não tem como recuperar.

Recompensas exclusivas aguardam os fãs que contribuirem com o projeto

Acho legal algo que vocês pensaram e que não costuma acontecer no financiamento coletivo que é o fato do fã já receber algo na hora. Ele não precisa necessariamente esperar o filme ser finalizado. Como funciona?

Isso foi algo que a gente realmente estudou. O Brasil ainda não tem a cultura do Crowdfunding. Até a palavra é difícil. A gente fala em financiamento coletivo e muita gente confunde. Acham que é só dar dinheiro pros caras. Queremos eliminar essa dúvida logo de cara. Por exemplo quando você entra numa loja e compra uma caneca, você leva a caneca mas não contribuiu com nada além do enriquecimento do dono da loja. No nosso caso não, todo lucro possível dessa caneca é reinvestido imediatamente no filme. Você está ganhando as recompensas e colocando seu nome na história. O grande mote ai é: contribua e seu nome estará imortalizado. Todo mundo fala que na vida para ser imortalizado você tem que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Mas se você contribuir com o projeto você também pode ser imortalizado. O nome de quem contribui não fica só no papel, ele vai aparecer em todos materiais possíveis. Isso é muito importante: o fato de que criamos uma campanha diferente. A nossa própria plataforma de Crowdfunding é outro exemplo disso. Normalmente usa-se uma plataforma já existente. Nos EUA, por exemplo, tem o Kickstarter, é uma ferramenta muito legal. mas não teríamos condição de fazer o que estamos fazendo numa plataforma convencional. Na nossa ferramente o fã pode escolher a forma de pagamento que quiser, pode parcelar, pode fazer transferência, escolher o tipo de frete. Além do que a comunicação com a gente fica muito mais aberta. Tem nosso telefone lá, tem o endereço da produtora. Quem quiser aparecer aqui vai ver que a gente existe que é uma empresa de verdade.

Se não me engano as plataformas convencionais cobram também uma comissão em cima do valor arrecadado.

Varia, mas todas têm sim. Até entendo que é justo pois eles trabalham e vivem disso, mas é algo em torno de 12 a 18%. Como nós temos uma meta a ser atingida e ela poderia ser consumida por esse percentual, a gente preferiu investir na própria plataforma. Até porque no futuro a gente tem outros projetos e a gente pode usar essa mesma plataforma para outros filmes.



Uma das recompensas que vocês criaram é um box personalizado. O que o cara que comprar isso vai receber?

Esse é o sonho mais completo que a gente conseguiu imaginar. Essa caixinha simboliza o Headbanger. O Headbanger vive de jeans, couro e metal. Se você olhar pra a caixa, você vê o jeans feito com jeans de verdade como se fosse um coletinho clássico. Tem até o making of (acima) mostrando como foi feita essa caixa, teve todo ato de costurar, martelar. Tem também o cinto do Headbaner com a fivela de metal com o nome de quem receber a recompensa. O kit contém também o DVD do filme, algo que beira quase 2 horas de duração, com extras. Tem o CD com 14 músicas inéditas com bandas dos anos 80. Tem também um certificado de autenticidade numerado, pois os box são todos numerados. O certificado é selado com cera como se fosse medieval. Inclui também caneca, camiseta, button, chaveiro, além do que o nome e a foto do cara que comprar entram nos créditos do filme.

Falando no CD que vocês produziram. Muitas bandas se reuniram pra fazer o som?

Cara, das 14 bandas acho que umas 10 estavam fora de atividade. Então a gente conseguiu sensibilizar os caras pra eles voltarem para participar. Alguns caras hoje são médicos, advogados, mas todos se animaram em fazer parte dessa história. Eles se reuniram e o mais bacana é que, depois desse resgate, algumas bandas retomaram a carreira, motivadas pelo filme.

Vou colocar pros leitores o vídeo (abaixo) que vocês fizeram pro lançamento da campanha com uma galera enorme cantando. Conta um pouco disso.

Esse foi outro ponto. No meio do processo, quando a gente convidou as bandas pra fazer o CD recebemos um som de uma banda chamada Stress, do Belém do Pará. Por acaso, o primeiro registro fonográfico de Heavy Metal feito no Brasil, em 1982, foi deles. Por coincidência, quando a banda nos mandou a canção, uma música deles era chamada Brasil Heavy Metal. Era um tema muito representativo e a gente concluiu que poderia servir como musica tema do filme. Aí pensamos: já que temos um tema por quê não chamamos um pessoal pra participar da gravação? Nisso convidamos 16 cantores de bandas dos anos 80 para compartilhar e dividir isso. O Stress gostou da ideia. Pra produzir esse video clipe também foi outra história interessante. A gente montou uma unidade móvel de captação de áudio com um mini cenário de vídeo. E viajamos pelas cidades pra gravar com os caras. Tinha cara no Rio, em Minas e a gente viajou todo o país atrás dos músicos. Quem vê o vídeo pensa que foi tudo gravado no mesmo estúdio, mas na verdade foi em vários lugares. Isso tambem foi feito com os recursos da produtora. E o mais legal de tudo é que esse vídeo foi o mais assistido na história do Metal cantado em português!



Como está indo o Crowfunding e a aceitação do público?

A primeira semana que vai completar amanhã (terça-feira, 15/12) fechamos com um bom número. A gente está atingindo 25% da meta. Nosso desejo, é claro, é atingi-la e seguir adiante. Os fãs estão reagindo muito bem, muito empolgados, empenhados em compartilhar e vibrar junto com a gente. Sabemos do momento econômico que o Brasil vive, mas temos um periodo de 80 dias. E quando o período acabar, encerramos a etapa e seguimos com nosso projeto. Vamos ver se a campanha se expande e se espalha. Isso que voce está fazendo conosco é uma oportunidade pra coisa de espalhar.

Essa é a ideia. Teve um cara na Itália recentemente, muito fã do Foo Fighters que teve a ideia de criar um projeto assim e convidou milhares de pessoas pra tocar uma música deles. O legal desse tipo de projeto é isso: a mobilização coletiva pra fazer um sonho aocntecer.

Esse exemplo do Foo Fighters é bacana e muito parecido com o que a gente esta fazendo: uma mobilização em prol de um objetivo comum. Tomamos a iniciativa e as pessoas estão percebendo que o apoio delas pode ajudar a concretizar. Nesse caso eles conseguiram sensibilizar o artista e o artista foi para a cidade deles realizar o sonho dos caras. A gente prcebe aqui também uma mobilização. Quando concluirmos o projeto a gente quer vibrar com todo mundo, juntos, uma emoção muito forte.

Micka Michaelis, Diretor e idealizador do projeto

O lançamento está programado para quando?

Nossa meta é para Maio, Junho de 2016.

Quem contribuir não precisa esperar tanto...

Não precisa e ainda pode ir curtindo outros produtos: camisetas, canecas. Já estamos despachando. Essa semana já enviamos algumas recompensas.

Pra encerrar Micka, queria que você deixasse o endereço pro pessoal saber como podem aderir ao projeto e deixe uma mensagem para os ouvintes fazerem parte desse projeto tão bacana. A gente percebe uma paixão pelo que vocês estão fazendo, pelo que as bandas se propuseram a fazer, re reuniram, além dos fãs que já contribuíram. Conta aí como eles podem fazer parte.

É só ir no nosso site brasilheavymetal.com e lá ele vai conhecer, vai assistir os vídeos. E lá tem um link Como Contribuir com todas as formas de recompensas, valores, o que recebe, etc. E imediatamente que ele conclui a contribuição o nome dele já entra na aba Os Imortais. Está tudo ali, tudo muito de primeira. Ninguém vai se decepcionar com a qualidade dos materiais recebidos. Nunca foi feito nada parecido.

Legal. Micka, obrigado pela entrevista. Desejo boa sorte no projeto. Tenho certeza que vocês vão atingir a meta até antes do esperado. Um abraço e tudo de Rock.

Pra você também, grande abraço!

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Assita ao Trailer do Documentário:

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