Mais um livro do Andarilho

Beatles 1, o melhor presente de Natal que eu não ganhei

23/12/2015

Coletânea do grupo é relançada com DVD com vídeos inéditos.

No ano 2000 os Beatles lançaram um disco que viria a se tornar um dos álbuns mais vendidos da história. Trata-se de uma coletânea batizada singelamente de "1" com as 27 canções do quarteto mágico que chegaram ao topo das paradas americanas e britânicas.

CD e DVD "1" lançado em novembro passado. Foto: Divulgação


No mês passado, os fãs dos FabFour e da boa música foram agraciados com mais um lançamento do tipo Por-Favor-Leve-Todo-Meu-Dinheiro. Trata-se na, verdade, do relançamento do disco "1" em comemoração aos 15 anos em que a coletânea veio ao mundo. O novo "1" traz, além das 27 faixas icônicas, um disco extra com 50 vídeos restaurados para diversas canções. Alguns dos vídeos são velhos conhecidos do público, outros foram colorizados digitalmente quadro-a-quadro e alguns poucos são inéditos.

Beatles foi uma banda que soube aproveitar todos os meios para promover sua imagem e e usou e abusou dos recursos audiovisuais ao longo de sua história. Apesar de serem pouco variados os registros de shows ao vivo (a maioria segue a linha Love Me Do, She Loves You e Can't Buy Me Love), a banda tem no portfólio nada menos que 4 longa metragens, dezenas de clipes, alguns bons documentários e uma antologia completa registrada em 8 capítulos, sem contar os extras.

Longe de ser um material extra essencial, como no caso do maravilhoso disco "Love", o relançamento do "1" vale mais como curiosidade. Afinal, mesmo com todo esse acervo já conhecido, os produtores da Apple conseguiram encontrar cenas inéditas do quarteto para ilustrar algumas canções que resultaram em vídeos interessantes como esse da música A Day In The Life:



Outro vídeo obrigatório para um fã é este de Hello Goodbye:



Para quem só conhece os Beatles de vista (se é que ainda há alguém assim no mundo), o lançamento cumpre o papel principal de uma coletânea: apresentar a banda com suas canções mais famosas.

É óbvio que, para quem conhece à fundo Beatles, uma coletânea é o último disco a ser ouvido. O que há de melhor deles está espalhado no lado B dos álbuns, permeando essas canções clássicas. Ainda assim, não tiro o valor do "1". Isso porque esse foi o disco que colocou Beatles na minha vida.

E foi num Natal, há exatos 15 anos atrás.

Capa do disco "1" lançado em 2000. Foto: Divulgação

O "1" havia acabado de ser lançado e mesmo sendo um garoto de 13 anos, eu já percebia a promoção que acompanhava o disco, sempre estampado nos pôsteres de lojas e em anúncios de revistas. Até então eu conhecia Beatles como hoje conheço Hemingway: pouco mais que o nome e a certeza de um poder ao redor dele.

Foi então que minha mãe trouxe o CD de presente, embrulhado no previsível formato quadrado.

Mudou minha vida aquele presente da minha amada mãe.

Mas não era pra mim.

O embrulho era para o meu pai que abriu logo um sorrisão de orelha à orelha quando viu o número 1 amarelo estampado no fundo vermelho. Ele ouviu diversas vezes o disco, sempre num velho DiscMan da Panasonic para não incomodar ninguém.

Até que um dia, curioso, pedi à ele pra ouvir o que ele estava ouvindo.

Foi como levar um tiro.

Meu queixo caiu e o mundo pareceu, de repente, ganhar cores. Tudo que eu conhecia por música - e não era muito - até aquele instante me pareceu, subitamente, tão sem graça. Minha vida até aquele momento tinha sido sem sentido. Perceber isso foi um insight assustador e maravilhoso.

Beatles: como resistir?

Decidi então ouvir o disco completo. Ele terminou e eu coloquei mais uma vez. No dia seguinte ouvi mais duas vezes. Alguns dias eu conseguia ouvir três ou quatro vezes, dependendo com que velocidade eu terminava a lição de casa. Pedi à minha mãe de aniversário um DiscMan só pra mim. Não era justo roubar o CD e o DiscMan do meu pai. Com meu próprio aparelho eu podia levar o CD onde quisesse. Quando viajava, levava o disco comigo. Quando dormia, dormia com os fones no ouvido. Se o apetrecho fosse à prova d'água, com certeza o disco me acompanharia no banho.

Era alegria demais. Entrosamento demais. Amor, muito amor e guitarras aceleradas. Eu não entendia nada de inglês mas sabia que "love" queria dizer "amor" e me orgulhava de perceber quantas vezes eles diziam aquela mística palavra. Eles repetiam aquilo toda hora, sem a menor vergonha, sem o medo de ser ridizularizado que nos acompanha à todo momento em que estamos em público. Falavam de encontros, de danças, conquistas e desilusões. Tudo era sobre amor. Os caras conheciam todas as faces desse enorme mistério. E falavam daquilo abertamente. E o melhor: faziam um som incrível com aquilo tudo. Perceber que os caras sorriam enquanto cantavam era mágico.

Se tornaram meus herois para o resto da vida.

Hoje, 15 anos depois do episódio, tornei-me um homem não exatamente mais sábio, mas talvez menos tolo. Feliz, com certeza, mas também um tanto cansado. Conheço alguma coisa do amor, viajei um pouco e vivi algumas histórias. Raramente ouço o disco "1" mas basta ouvir os acordes iniciais de I Wanna Hold Your Hand, a quarta faixa do álbum, para saber que há muito o quê aprender, muito o quê rir e muito o quê celebrar.

Feliz Natal. Viva o "1" e os presentes que são para nós, mesmo não sendo ;)

2 comentários:

nanasparks disse...

Aaahhh... O "1". Este CD também marcou uma época na minha vida. Nem foi o primeiro álbum deles que eu ouvi. Minha "primeira vez" (haha) com eles foi quando ouvi o "Please Please Me" aos 11 anos e tive sensações parecidas com as suas. Meu pai até brigava comigo porque eu ouvia o CD toda hora hahaha. O "1" eu comprei aos 15 anos e se tornou um xodó do meu discman, tal como outros CDs que comprei. Viajava legal olhando o encarte (que de tão grosso nunca mais consegui colocá-lo direitinho na caixa. Uma folha sempre fica de fora).

Felipe Perazza disse...

Hahaqhahah meu encarte tambem nunca mais entrou, ficou todo rasgado e amassado... Viajava nas fotos e capas dos discos dos caras. Minha mae tambem me deu umas duas broncas por ouvir o disco demais, todo dia, ininterruptamente... Hahaha. Obrigado pelo comentário e pela visita. Fico feliz que continue acompanhando o blog! Abraços!!

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