Viaje neste blog

Sujo, frio e bêbado!

13/10/2015

Um tapa na cara da Cidade Grande

Foi com o Ska, um ritmo forte e viajante baseado em instrumentos de sopro, que O Rappa iniciou sua carreira, em 1994. O balanço somado às letras críticas e poéticas do baterista Marcelo Yuka mostraram ali, no primeiro disco, que a banda carioca não era qualquer uma. Seu som era emblemático, poderoso, denso, liricamente pesado e instrumentalmente empolgante. É desse disco uma das maiores pérolas dO Rappa e é a canção que nos levará para passeio hoje. Segue a letra:




Sujo
(Yuka)

Se um raio cai no mesmo lugar duas vezes
Qualquer um de nós é capaz de
parar, e pensar, e dizer, e falar
Por que eu? Por que eu?
Por que eu? Por que eu?

Mas a cidade é muito grande
A cidade é gigante
A cidade é covarde
com os que mais precisam dela

Os raios então são mais de dois
São muitos e sucessivos
E é por isso que ele está aí

Sujo, frio e bêbado
Sujo, mas não tão sujo quanto a sociedade
Frio, mas não tão frio quanto a impiedade
Bêbado, mas não tão ébrio quanto a passividade
Sujo, frio e bêbado

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Demorei alguns bons anos para compreender do que O Rappa falava em Sujo. A canção me ganhou inicialmente pelo ritmo, principalmente pela levada no piano e, em seguida, nos trumpetes, com um riff longo e poderoso com um quê caribenho e outro quê mais sombrio, que permeia o disco todo e nos faz pensar na obra toda como um sonho que deixa aquela sensação de que há algo estranho, mas não sabemos bem o que é. É essa sensação que também, como num sonho, nos fascina do começo ao fim do disco.

Quando descobri que a canção traçava um retrato assustadoramente realista dos mendigos da cidade grande, só passei a admirar mais ainda a banda e a obra. Afinal, a construção da letra é outro ponto alto da música.

Marcelo Yuka, um dos fundadores do Rappa e responsável pelas letras críticas que direcionaram a banda até hoje

A letra começa fazendo um paralelo com a probabilidade. "Se um raio cai no mesmo lugar duas vezes, qualquer um de nós é capaz de parar e pensar e dizer e falar: por quê eu? Por quê eu?" Pois é, se até as coisas mais inacreditáveis, como por exemplo, digamos, o amor ou o nascimento de um bebê, acontecem todos os dias nesse mundo perigoso e intrigante, por quê algo tão simples quanto o questionamento de um mendigo não aconteceria. Por quê eu? Tenho certeza que eles se perguntam isso diariamente.

Isso, no entanto, de nada adianta. Como a própria banda diz: "Mas a cidade é muito grande. A cidade é gigante. A cidade é covarde com os que mais precisam dela". Os raios caem não só duas, mas inúmeras vezes no mesmo lugar apenas para nos mostrar como o impossível é só uma questão de ponto de vista. Afinal, a cidade cresceu e se estruturou de uma forma inexplicável. O amor ainda cisma em acontecer mesmo nesses dias conturbados, as crianças continuam nascendo saudáveis e os mendigos, como que parte de uma verdade da qual se sustenta o universo, continuam vivendo nas ruas. O homem chegou até a lua, mas não até a esquina de casa. O que deveria ser absurdo tornou-se banal. O que merecia uma atenção e reflexão especial tornou-se comum. Ninguém mais reconhece os milagres. Ninguém percebe mais a tortura.

"E é por isso que ele está aí: sujo, mas não tão sujo quanto a sociedade. Frio, mas não tão frio quanto a impiedade. E Bêbado, mas não tão ébrio quanto a passividade".


Quem é mais sujo: o mendigo ou o nosso sistema que faz o homem crescer em cima de outro homem? Quem vive mais frio: o mendigo ou o nosso senso de justiça? Quem está mais bêbado: o mendigo ou a nossa força de vontade, anestesiada pela correria e pela conformidade e incapaz de fazer qualquer coisa para ajudar esses irmãos desafortunados?

Li recentemente que o homem descobriu água em marte. Fico imaginando o quanto de investimento - intelectual e financeiro - foi necessário para gerar essa linha nos jornais e o quanto ainda será necessário até que o homem possa experimentar a água de lá. É no mínimo revoltante pensar que ainda temos países inteiros carentes de água e comida e que são sumariamente ignorados pelos "donos do mundo". E o pior: essa discrepância nos valores humanos são encaradas com normalidade pela sociedade. O próprio Rappa diz, em outra faixa do mesmo disco, dessa vez na canção Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro, "mesmo a AIDS possui hierarquia. Na África a doença corre solta e a imprensa mundial dispensa poucas linhas comparado ao que faz com qualquer figurinha do cinema ou das colunas socias".


E quem se dispões a falar tem pouco espaço e quase nenhuma força para mudar o cenário. O próprio Rappa é vítma dessa postura que eles abraçaram desde a primeira canção do primeiro disco. Já perguntou-se por quê a banda não faz mais (se é que já fez um dia) parte do grande circuito comercial e cada vez se aprofunda mais num nicho underground? Pelo mesmo motivo que faz os mendigos permanecerem espalhados por aí escondendo uma verdade inconveniente: eles contam uma história que as pessoas preferem não ouvir.

Enquanto houverem moradores nas ruas em condições subumanas a loucura será o nosso melhor rótulo. Seremos todos sujos, frios e bêbados. Muito mais do que qualquer mendigo ;)

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...