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Sou um homem em constante dualidade. Metade de mim queria ser um astro do Rock. A outra metade um monge budista. O resultado disso foi um blog que mistura John Lennon e Jesus Cristo e um livro chamado Heróis e Anônimos.

[SOUNDTRACK] Mesmo Se Nada Der Certo

26/08/2015

Um filme feito por quem ama música para quem ama música


Filmes que lidam com música são uma faca de dois gumes. Se por um lado musicais como Les Miserables e Moulin Rouge podem ser um pé no saco para quem não compra a ideia de atores saindo de uma cena completamente aleatória para se levantarem, dançarem e cantarem e depois retornarem aos seus postos como se nada tivesse acontecido; de outro, filme como Commitments - Loucos Pela Fama e E Aí Meu Irmão Cadê Você são obras que se destacam justamente por suas canções que tiram o filme do lugar comum e o colocam no patamar de verdadeiras obras primas.



Acredito que isso aconteça pela maneira como a música é utilizada em cada obra. No caso de musicais teatralizados, a canção é uma ferramenta feita para contar um capítulo da obra e ao mesmo tempo entreter o público. O problema é que compor músicas não é tarefa para qualquer um e muitas vezes o fator "empolgação" acaba de lado em prol do discurso, o que acaba tornado muitas vezes o musical enfadonho. Quando as músicas são muito boas, o resultado costuma ser excepcional, como é o caso de Jesus Christ Superstar e Chicago.

No caso dos outros filmes citados, bem como tantos outros sobre música, como Wonders e Detroit Rock City a música é tratada como o que ela é: uma arte em si, pura e completa, sem precisar cumprir um papel específico. Quando o diretor sabe lidar com isso, o resultado é um filme que vai ficar na sua memória para sempre.

É o caso de Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again, 2013).



Sabe aquele filme despretensioso, sem grandes reviravoltas, sem cenários épicos ou efeitos, mas que te cativa do início ao fim graças aos seus atores entrosados e uma história simples e boa de ser ouvida? É disso que estamos falando. Adicione então uma trilha sonora absurdamente boa e que não quer, nem precisa ser nada nada mais do que ela já é, e está aí um título que você vai querer ter na prateleira, seja em DVD ou em CD.

A história gira em torno de Gretta, uma cantora e compositora talentosa (Keira Knightley, linda e excelente) que nunca teve sua grande chance e passa a vida cantando em bares pela noite ou escrevendo canções para o namorado, Dave - esse sim o astro queridinho do momento, vivido por Adam Levine, o frontman do Maroon 5 e que solta a voz em diversos momentos do longa.

A vida da garota dá um giro quando o namorado passa a negligenciá-la em prol da carreira e ela acaba conhecendo Dan, um produtor musical fracassado, porém visionário, interpretado por Mark Ruffalo (incrível como sempre). Numa das cenas mais bacanas do filme, o personagem vê a garota no palco sozinha com o violão, mas consegue visualizar todos os outros instrumentos acompanhando-a, o que dá uma amostra de como deve funcionar a cabeça de alguém que realmente entenda de música e vive dessa arte.


O desafio é que o produtor, apesar de apostar todas as fichas em Grettaa, tinha acabado de ser demitido da gravadora que ele ajudara a fundar. Sem os recursos necessários, o cara agora tem que correr atrás de uma banda e ajudá-la a produzir o disco nas ruas de Nova York, tudo da forma mais barata e alternativa possível, seja chamando garotos da rua para fazer backing vocals (cena hilariante, veja no vídeo acima), seja tocando no metrô e tendo que fugir da polícia por perturbar a ordem pública.

O longa tem um ótimo ritmo e o carisma de Ruffalo e Knightley nos faz querer acompanhar o grupo em todas aventuras pela produção do disco. O carinho que desenvolvemos pela inusitada banda (que conta com o melhor amigo de Gretta, a filha de Dan e outros músicos talentosos) é tanto que em certo ponto até torcemos para que o desfecho não venha e fiquemos apenas acompanhando aquele Making Of com pitadas de comédia e drama.



A correria da trupe nos leva por diversos cantos e aí aparece outro diferencial e personagem da peça: o cenário. Outrora uma saída barata para o projeto da dupla, a cidade de Nova York acaba ganhando destaque, sendo mostrada de diversos ângulos, passando por ruas movimentadas, baladas underground, praças cheias no meio da madrugada e altos prédios que pintam o céu da metrópole. Diferente da maioria dos filmes que retrata a cidade apenas em sua grandiosidade e imponência, aqui a NY é mostrada quase como num guia turístico: há milhares de coisas acontecendo a todo momento em todos os cantos. Em certo ponto, no meio da madrugada, a cantora pergunta: "Onde podemos dançar?" e Dan diz: "Por aqui" e a conduz até uma casa noturna, como se houvesse em cada quarteirão uma discoteca pronta a acolher dois gatos perdidos na noite. Não duvido que seja assim de fato, pois a própria São Paulo é assim. A vontade que nos dá é de correr com eles pela noite, ajudá-los nas gravações improvisadas (porém bastante profissionais) e curtir o momento e a liberdade, ainda que momentâneos, na maior cidade dos EUA.

E não pense que o longa trata apenas de canções e cenas bacanas. Aqui todos os personagens, assim como nós, carregam seus próprios dramas, problemas cotidianos e conflitos pessoais. Todos precisam ser mais fortes, precisam dar um jeito de vencer na vida e, acima de tudo, precisam de ajuda. O interessante é notar aqui com qual sutileza o crescimento de cada um acontece, e como aos poucos um vai percebendo as fraquezas do outro e o empurrando para cima e utilizando a música como suporte para essa escalada. Não é à toa que o título da película em inglês seja "Begin Again", ou seja, trata-se de um filme sobre recomeços. São as formas que encontramos para dar a volta por cima, para encontrar coragem para vencer o desalento e força de vontade para fazer o que parecia impossível, como lançar um disco sem dinheiro, superar um amor perdido ou até mesmo reencontrar amor onde antes só havia dor.


E a trilha sonora, como não podia deixar de ser, é algo que dá o tempero especial no longa. Uma mistura de Pop Rock com Folk, somada às letras profundas e a voz da cantora (a própria Keira é quem canta), fazem com que os empreendimentos musicais se tornem ainda mais justificados. Eu fugiria da polícia com eles se fosse para registrar e proteger aquelas canções. Seria difícil comprar a ideia com canções medianas, mas felizmente não é o caso. Aqui cada música tem ritmo, equilíbrio, refrões poderosos e uma instrumentação maravilhosa.

"Mesmo Se Nada Der Certo" é um filme inspirado e feito para inspirar. Enquanto expectadores percebemos o carinho e amor à música com que a obra foi concebida. Em outro momento bacana, o dois protagonistas estão compartilhando um fone de ouvido na rua, quando Ruffalo diz: "Sabe o que eu aprecio na música? Ela pega um momento banal e o transforma em algo único. Veja todas essas banalidades acontecendo e como elas ficam poéticas e bonitas com a música tocando". Quem nunca percebeu isso com um fone no ouvido, talvez também nunca tenha rido consigo mesmo no meio da rua por ter percebido algo que ninguém mais notou naquele momento: como a vida é boa e um acorde de violão, mágico ;)

3 comentários:

Ju Bernal disse...

Amei a dica! Amo o Keira (nem sabia que ela cantava, menos ainda que tocava ¬¬') e sou fã do Mark desde do Ensaio Sobre a Cegueira. E de que quebra Adam... Meu marido vai ficar enciumado! kkk Mas acredito que ele também vá gostar do filme. Amo musicais, não achei Moulin Rouge e Les Miserables um pé no saco não! Tá Les M.. é meio arrasto vai. Mas meu musical favorito é O Fantasma da Ópera e a versão com Gerard Butler é maravilhosa para mim. Perdi as contas de quantas vezes assisti. Mas enfim, curiosíssima pra assistir Se Nada Der Certo! bju

Felipe Perazza disse...

Valeeeeu pela visita e pelo comentário Ju!! Musicais não são muito a minha praia (deu pra ver pela introdução né, heheheh), mas tem uns muito bons, já viu o JESUS CHRIST SUPERSTAR? Só musicão! Curto bastante filmes sobre bandas e esse me surpreendeu muito. A voz da Keira é suave, tranquila e afinada, mandou muito. Também sou muito fã do Ruffalo. Mas não gosto muito do Maroon 5. Esse aí agradou foi minha namorada, hahahaha... Vc me lembrou do Fantasma da Opera e nunca vi essa versão!! Vou anotar aqui pra procurar ;) Beijao!

Ju Bernal disse...

Ah Fe! É óbvio que eu tenho O Fantasma em DVD e se quiser eu te empresto! Mas é musical mesmo, tem falas cantando... então... =D

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