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Quando o Trem Partir

09/03/2015

O ato de pegar o trem e suas dificuldades

Desde que assisti o filme "Chef" tenho escutado bastante sua trilha sonora. Conforme já postei aqui, há muitas canções excelentes na trilha do filme. Mas uma delas, em especial, me chamou a atenção por sem um blues moderno e poderoso. Fui atrás, então do tal Gary Clark Jr. e descobri que o cara faz um som incrivelmente viajante. Essa canção é a que me apresentou ao músico e também é trilha do filme citado. Faz parte do disco "Blak and Blu" lançado em 2012. Segue a letra:




When My Train Pulls In
(Clark Jr)

Everyday nothing seems to change.
Everywhere I go I keep seeing the same old thing and I...
I can't take it no more.
Oh, I would live this town but I ain't got nowhere else to go.

Wake up in the morning, oh, more bad news.
And I... Sometimes I feel like I was born to lose and I...
It's driving me out of my mind.
I'll catch the next train and I...
I'll move on down the line

Whoah, I'll be ready now
I'll be ready when my train pulls in
Whoah, I'll be ready now
I'll be ready when my train pulls in
I know my time ain't long around here
And I can't live this life again

Walking down the streets you might run across a smilng face.
But they'll stab you in the back as soon as you turn
I'll walk away
Oh Lord this is putting me down

Whoah, I'll be ready now
I'll be ready when my train pulls in
Whoah, I'll be ready now
I'll be ready when my train pulls in
I know my time ain't long around here
And I can't live this life again

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Se a libertação do espírito seguisse um passo-a-passo essa canção falaria do primeiro deles. O momento em que percebemos que há algo errado. É nessa hora que começamos a suspeitar que deve haver algo mais na vida além do sofrimento. Todos os dias despertamos, trabalhamos, vemos muita injustiça e muita incapacidade de combatê-la efetivamete e aí pensamos: "a vida não pode ser apenas isso". Gary Clark Jr inicia sua canção com um riff elétrico potente. A bateria e o baixo entram pra dar o peso que a viagem perceptiva necessita. Ele então diz, com sua voz aguda, pouco comum nos maiores bluseiros do mundo, mas que soa tão bem: "Todo dia nada parece mudar. Em todo lugar eu só vejo as mesmas coisas e não aguento mais. Eu deixaria essa cidade, mas não tenho outro lugar pra ir". Com o riff comendo solto e arrepiando os ouvintes, ele continua: "Acordo de manhã e tenho apenas más notícias. Às vezes acho que nasci para perder. Isso está me deixando louco. Vou pegar o próximo trem e ir embora daqui". Esse sentimento de revolta contida e impotência é parte essencial do despertar dos grandes heróis. É assim que Neo, o escolhido de Matrix, começa o filme, por exemplo. Não à toa, Matrix é inteiro sobre o despertar para a Realidade e o livrar-se das ilusões do mundo, seja o sofrimento quase intrincado na vida, sejam os raros momentos de alívio. O Nirvana budista se coloca acima de sofrimento ou felicidade, num estágio mental em que nada pode perturbar a alma do iluminado e ele só vive para a caridade. Outro exemplo de herói é o Tyler Durden, do Clube da Luta - no caso um tanto mais radical, mas igualmente eficaz em despertar seu alter-ego para a Realidade. "O mundo nos faz trabalhar em empregos que odiamos para comprar coisas que não precisamos para impressionar pessoas de quem não gostamos", diz Durden em certo momento. É aí que encontra-se o narrador incorporado por Clark Jr. Ele sabe que há algo errado. Sabe que precisa mudar, embora não saiba por onde começar. O primeiro passo, porém, é o reconhecimento. Esse talvez seja um dos passos mais difíceis: aceitar que a vida não é colorida como num conto de fadas. O próximo passo é, definitivamente o mais difícil de todos: a atitude. Sabemos muito bem que falar é algo simples comparado ao ato que a fala implica. É mais complicado do que parece tomar coragem para, finalmente, sair da zona de conforto. O sofrimento é ruim, mas é seguro. Mudar é sempre assustador. Mas afinal o que forma os heróis, senão o fato deles enfrentarem seus medos? Ninguém quer trocar o certo pelo duvidoso, mas os heróis parecem descobrir que o duvidoso pode ser muito melhor do que o certo. E só o fato de tentarmos mudar, com afinco, já terá valido a pena. Mesmo que algo saia errado (e quando é que nada sai errado?), aprendemos algo. É por isso que o herói da vez, Gary Clark, nos presenteia com um refrão inspirador para acompanhar sua guitarra frenética. Nele, o músico diz: "Eu estou pronto agora. Estarei pronto quando meu trem partir. Sei que meu tempo não será longo aqui e não posso viver essa vida de novo". E você, vai ficar parado no confortável acento do ponto, ou vai pegar o incerto trem na primeira oportunidade?

3 comentários:

Fabio CS disse...

A vida é assim mesmo. Excelente reflexão. Muito bom texto como sempre.

Um abração

Andarilho disse...

Obrigado, mestre!! Abração

Sarah Oliveira disse...

Fiquei um tempo sem aparecer por aqui, daí lembrei... pô, e aquele cara que morava na Aus e escrevia umas coisas bacanas sobre música?! ... continua dando show! Bela reflexão. Dificil mesmo é seguir né?!

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