Sobre o Autor

Minha foto

Sou um homem em constante dualidade. Metade de mim queria ser um astro do Rock. A outra metade um monge budista. O resultado disso foi um blog que mistura John Lennon e Jesus Cristo e um livro chamado Heróis e Anônimos.

Vagabundo

26/02/2015

A arte da guitarra discreta

A vantagem de ser um fã não ortodoxo de uma banda é a possibilidade de se surpreender com ela em diversos momentos da vida. Por exemplo, sou o maior fã de Beatles que existe e isso me fez consumir cada disco deles com fome voraz. Hoje, Beatles já não me surpreende mais, pois conheço tudo - cada segundo de gravação deles já passou pelos meus ouvidos pelo menos duzentas vezes. Agora comparemos com Jethro Tull. Tenho lá uns CDs em casa e ouço "Aqualung" quase todos os dias, mas haviam ainda dezenas de outros álbuns dos caras que eu não conhecia. Discos dos quais eu não conhecia nenhuma única musiquinha. Isso faz com que, ao ouvir o "Heavy Horses", de 1978, eu me surpreende-se. Segue a letra:




Rover
(Anderson/Barre)

I chase your footstep
and I follow every whim.
When you call the tune I'm ready
to strike up the battle hymn.
My lady of the meadows
My comber of the beach
You've thrown the stick for your dog's trick
but it's floating out of reach.
The long road is a rainbow and the pot of gold leis their.
So slip the chain and I'm off again -
You'll find me everywhere. I'm a Rover.

As the robin craves the summer
to hide his smock of red,
I need the pillow of your hair
in which to hide my head,
I', simple in my sadness;
resourceful in remorse.
Then I'm down straining at the lead
holding on a windward course.

Strip, me from the bundle
of balloons at every fair:
colourful and carefree
designed to make you stare.
But I'm lost and I'm losing
the thread that holds me down.
And I'm up hot and rising
in the light of every town.

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

A guitarras e guitarras. Não estou me referindo à marca do instrumento, nem ao guitarrista em sim. Refiro-me à presença da guitarra em uma canção. Existem canções com uma guitarra base que, como um ator coadjuvante de alto calibre, toca a canção com simplicidade e beleza sem roubar o papel do vocalista e, neste caso, o ator principal. É o caso de Eight Days a Week, dos Beatles por exemplo. Existem canções em que a guitarra é o ator principal, não só no riff como no solo, como Alive do Pearl Jam, onde Mike McCready consegue ofuscar ninguém menos que Eddie Vedder com um dos melhores solos da história. Existem guitarras que dividem igualmente o papel principal com o vocal, como Still of The Night, do Whitesnake que faz uma batalha épica entre riff e voz. Veja bem, não estou dizendo que um estilo de guitarra seja melhor que o outro, mas apenas analisando-os, afinal, quem sempre ganha com qualquer estilo, somos nós ouvintes. Além destes, há um outro estilo de guitarra, que classifico como a guitarra discreta. Ela vem como um ator novo, porém talentoso que pede licença na praça. Ele definitivamente não quer prêmio nenhum, mas simplesmente fazer o seu papel da melhor forma, sem ofuscar demais a estrela. Sem querer, e graças à sua habilidade e carisma únicos, acaba ele roubando a cena, mesmo pelos poucos minutos em que está em foco. Um exemplo deste estilo de guitarra é a 10 Years Gone, do Led Zeppelin. Quando ouvimos pela primeira vez, pode ser que não percebamos. A partir da segunda audição, porém, tudo o que esperamos da canção é o momento em que a guitarra aparecerá e roubará a cena. Nós ouvimos, não sem empolgação, a voz, a bateria e o baixo, mas quando a guitarra discreta vem, sorrimos e reconhecemos que, na verdade, ela era tudo o que queríamos. É esse o caso de Rover do Jethro Tull que curiosamente tem o mesmo título de outra guitarra discreta do Led Zeppelin. Quando ouvimos Rover nos sentimos maravilhados com a ambientação medieval da canção criada por seu violão belamente dedilhado, sua bateria rápida e a voz rouca. Podemos até nos sentir tentados à acompanhar a letra e tentar entender melhor quem é o vagabundo do título, mas tudo cai por terra quando a guitarra de Martin Barre entra. É ela que interessa. É ela que queremos. É uma guitarra forte, rápida, dolorida. Ela não solta notas, mas sim choros soluçantes de emoção. Ela diz muito mais que qualquer refrão marcante ou solo inspirador. Talvez até por isso a canção tenha optado por não incluir nada do tipo. Temos a letra, a instrumentação base e A guitarra discreta. Sem saber, ela rouba a cena. Sem querer, ela nos faz esperar por ela. E, como se não soubessemos que seria assim desde o começo, ela se vai, com a mesma discrição que veio. Só quando ausente na canção, percebemos sua importância e a nossa quase necessidade de ouvi-la novamente. E então ela volta, sem sorrisinhos e gracinhas. Ela volta pra fazer o que veio fazer: nos dar uma viagem. E ai some de novo. Não nos acostumamos, pois ela nos oferece muito pouco, não é suficiente em nenhum momento da obra. É tão provocante que chegamos a pensar que ela não é real de verdade. Mas é. Rover e sua guitarra discreta são reais ;)

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...