Mais um livro do Andarilho

[SOUNDTRACK] Chef

19/01/2015

Um filme para ser saboreado


Minha mãe costuma me dizer que tenho um péssimo gosto para cinema. Enquanto ela se encanta com os romances, comédias românticas e dramas hollywoodianos eu gasto minhas preciosas horas assistindo filmes que, segundo ela, geralmente falam de violência, máfia, morte e guerra. De certa forma é verdade. Minha prateleira é cheia de títulos do Quentin Tarantino, Guy Ritchie, Martin Scorsese e Riddley Scott que, de uma forma ou de outra, tratam mais das mazelas humanas do que das alegrias. A mensagem que eles passam, pelo menos pra mim é sempre positiva, mas as ferramentas que utilizam não costumam agradar os mais tradicionais. Embora eu realmente seja um fã do suspense, intriga e assassinato no cinema, também aprecio muito aquele bom filme positivo que te faz sair da sessão com um sorriso no rosto. O problema é que hoje em dia é difícil encontrar um filme engraçado que não seja constragedor, simples que não seja sem graça e positivo que não soe como auto-ajuda. Quando encontro um filme desses, este se torna logo um dos meus favoritos da vida. É precisamente este o caso de Chef, um filme que mistura apenas coisas boas: comida, sonhos e música.



Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

O filme:

Jon Fraveau era um diretor sem grandes momentos, dono de títulos pouco memoráveis até que caiu de pára-quedas no Homem de Ferro e sem querer ajudou a revolucionar o cinema de super-heróis. Seu filme se tornou o primeiro título da Marvel Studios no cinema e um sucesso absoluto de público e crítica, dando o pontapé inicial para a criação de um universo nos cinemas da Marvel, incluindo aí o bilionário Vingadores. Com o passe do diretor valorizado após a sequência de sucesso, a Marvel achou que custaria caro demais manter o diretor no posto e o tirou do comando terceiro longa que, diga-se de passagem, teve recepção bastante inferior aos outros dois. Fraveau passou a fazer suas pequenas atuações, além de um filme considerado mais ou menos, até que apareceu em 2014 com esse autoral Chef. Favreau, além de diretor é o roteirista, produtor e protagonista do filme que conta a história de chef de cozinha, Carl Casper, que acaba tendo sua criatividade podada pelo dono do restaurante onde trabalha. Sua reação passionalmente agressiva diante do veredito de um renomado crítico acaba fazendo com que ele se torne uma web celebridade e nenhum outro restaurante da cidade queira lhe dar uma chance. É aí que ele, ajudado pela ex-esposa - vivida pela bela Sofia Vergara - e pelo divertido ajudante de cozinha interpretado por John Leguizamo, resolve investir na única saída viável: iniciar um negócio próprio nos moldes de um Food Truck.


O filme mostra em tons muito sutis como alguns problemas da vida podem acabar se tornando oportunidades únicas para darmos uma reviravolta em nossas vidas. Favreau conduz seu filme com delicadeza e carinho. É uma direção com a mesma atenção preciosa que Carl reserva aos seus pratos, numa visível paixão pelo que faz. Somos levados por um universo gastronômico de encher os olhos e abrir o apetite, cheio de closes nas cebolas fritas, nas carnes grelhadas, no manuseio cuidadoso de um sanduíche e na preparação de um prato cuja apresentação é tão importante quanto o sabor. O filho do casal divorciado é outro personagem chave na obra, descobridor de como as ferramentas sociais da internet podem ajudar um negócio a ganhar notoriedade, desde que tenha um pouco de sorte e muita qualidade. Enquanto o caminhão de Casper viaja por paisagens tão bonitas quanto suas comidas - desde as praias de Miami até os desertos do Texas - o empreendimento vai ganhando popularidade. Em cada cidade, todos querem conhecer o caminhão do tal Chef louco que faz sanduíches cubanos deliciosos. O trio inusitado composto por Favreau, Leguizamo e Emjay Anthony funciona de forma suave e entrosada, cheio de conversas interessantes e piadas bem feitas. E nós vamos com eles - pé na estrada - com muita alegria nos olhos e um desejo similar no coração. Afinal, quem nunca sonhou com trabalhar - e ser bem sucedido - em algo que se ama fazer. Muitas vezes somos obrigados pelas circunstâncias à deixar nossos ideais e sonhos de lado, enquanto o mundo nos engole com suas contas e ameaças. Com "Chef" temos ao menos um vislumbre de que, com um pouco de sorte e muita força de vontade, podemos nos realizar plenamente no trabalho.


Soundtrack:

Se os pratos preparados pelo chef são visualmente deliciosos e as estradas por onde ele viaja com seus assistentes são visualmente arrebatadoras, a trilha sonora não poderia ser nada menos que inspiradora. Ouso dizer que é uma das melhores trilhas sonoras que já ouvi num filme, sempre num ritmo alegre e leve como próprio filme. Nos momentos de tensão temos uma canção mais reflexiva como Cavern do Liquid Liquid, em cenas de serenidade há diversas canções mais relaxantes como Lucky Man de Courtney John. Já em momentos em que a alegria inspira nossos heróis, não faltam canções de balanço inigualável como Que se Sepa de Roberto Roena e a salsa incrível do grupo Gente de Zona. Quando o furgão passa pelo Texas, ainda somos presenteados com uma apresentação ao vivo do excelente blues man Gary Clark Jr. A apresentação do músico é um dos momentos mais marcantes do longa, quando pai e filho conversam sobre o futuro do garoto. São músicas selecionadas como ingredientes-chave que, assim como num prato preparado com carinho, nos faz imaginar, sonhar e viver.

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Em Message to You Rudy, somos levados pelos músicos a querer abandonar nossas amarras e falsas identidades para abraçar e assumir quem somos de verdade: escritores, músicos, cozinheiros, pintores, jogadores de basquete, programadores, leitores de quadrinhos, pescadores, físicos e tudo aquilo que nos fascina e nos desliga de qualquer problema. Atividades que nos encantam são a mais pura forma de contato com Deus, onde focamos nossa atenção apenas no momento e nos dedicamos de coração à conseguir o melhor resultado. É assim que o chef obtem sucesso com seu pequeno Food Truck e é assim que tantas outras pessoas de carne e osso realizaram feitos incríveis. "Chef" pode parecer um filme simples, mas tem muito mais temperos secretos por trás de suas camadas Road-Family-Movie. Há o drama do pai ausente e casamento fracassado? Sim. Há o quesito superação presente em tantos filmes? Sim. Mas o mérito de Jon Fraveau é não basear seu filme por esses elementos, mas sim usá-los com meros detalhes cotidianos que são. O real foco do filme, a meu ver, é o de seguirmos nossa intuição e buscarmos nossos objetivos, fazendo sempre o melhor. Não adianta querer um carro do ano ou se tornar gerente se você faz um trabalho mais ou menos. Nosso herói é um chef de primeira que assumidamente reconhece seus defeitos "em todo o resto", mas não quanto se trata de trabalho. O sermão que ele dá ao filho que queria servir um sanduíche queimado porque os clientes não estavam pagando, é a melhor mensagem do filme. Se for para fazer algo mais ou menos, nem comece. Em tudo o que fizer, não importa o quão difícil é, dê o seu melhor. Faça isso e deixe Deus fazer o resto. Com certeza daí, coisas boas virão que o mal jamais tocará ;)

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