Mais um livro do Andarilho

[SOUNDTRACK] Tim Maia

23/11/2014

Altos estratosféricos e baixos subterrâneos

Marcelo Fornali, no site Omelete, disse em sua resenha sobre o filme "Tim Maia" (2014) que só há uma maneira de não gostar de Tim Maia: não conhecendo Tim Maia. É verdade. Eu conhecia um pouco na infância e por isso gostava um pouco. Conheci mais durante a vida adulta quando aprendi a tocar sua maravilhosa Gostava Tanto de Você e, consequentemente, passei a gostar mais do cara. Agora como filme de Mauro Lima, passei a conhecer - e obviamente - gostar mais ainda do Rei do Soul. Para falar sobre seu merecido filme e sua trilha sonora, vai aí uma das canções mais emocionantes e autobiográficas do cantor. Essa faz parte do seu primeiro disco, homônimo, lançado em 1970. Segue a letra:




Você
(Maia)

De repente a dor
De esperar terminou
E o amor veio enfim

Eu que sempre sonhei
Mas não acreditei
Muito em mim

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez
Mas desta vez

Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor

Você
É mais do que sei
É mais que pensei
É mais que esperava
Baby

Você
É algo assim
É tudo pra mim
É como eu sonhava
Baby

Sou feliz agora
Não, não vá embora
Não
Não, não, não, não não
Não, não, não

Você
É mais do que sei
É mais que pensei
É mais que esperava
Baby

Você
É algo assim
É tudo pra mim
É como eu sonhava
Baby

Sou feliz agora
Não não vá embora
Não
Não não não não não
Não não não

Não não vá embora
Não não vá embora
Não não vá embora
Não não vá embora

Vou morrer de saudade
Vou morrer de saudade
Vou morrer de saudade

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

O Filme:

Chega a ser redundante dizer que um gênio da música teve diversos problemas em sua vida - muitos deles criados por ele mesmo. É estranho, mas pode-se observar nessas pessoas que loucura e genialidade são irmãs gêmeas siamesas. Se a corda pende momentaneamente para o talento, inevitavelmente o impulso de volta vai trazer loucura e vice-versa. É a lei de ação e reação. Não por acaso essas pessoas tiveram passagens altamente marcantes no mundo, seja por sua obra, seja por sua vida cheia de capítulos chocantes. É o caso de John Lennon, Jim Morrison, Eric Clapton, Johnny Cash e tantos outros. E como não poderia deixar de ser, é o caso do nosso Tim Maia. Dono de uma impulsividade e gênio fortíssimos que poderiam ter lhe rendido cinturões de boxe ou vale-tudo, o músico decidiu usar toda essa potência para criar música. Isso não quer dizer que ele não tenha disparado um soco ou dois em sua vida, mas lhe garantiu o merecido status de Rei do Soul Brasileiro e posição de destaque nos corações e nas prateleiras de praticamente todos neste país. É justamente o misto do seu total domínio sobre a música e o total descontrole de sua vida que torna a vida de Tim Maia tão interessante e assustadora. O filme dirigido por Mauro Lima contrasta emoções extremas, justamente como deve ter sido viver na pele bipolar de Tim. Há horas em que gargalhamos e horas em que choramos copiosamente. Há momentos de delírio nos versos de uma bela canção e outros de desprezo pela atitude egoísta do artista. Com atuações formidáveis dos protagonistas, ótima fotografia, além de um roteiro extremamente bem escrito, somos levados por uma viagem musical de altos e baixos como somente a montanha russa que foi a vida do músico poderia propôr. Não é a toa que saí da sessão de cinema com a sensação de ter visto uma mistura de "Touro Indomável" com "The Doors" e observando o calibre destes filmes - respectivamente dirigidos por ninguém menos que Martin Scorsese e Oliver Stone - percebemos que esse filme Tim Maia (2014) não é pouca coisa.


Soundtrack:

Como sempre numa cinebiografia de um músico, a trilha sonora tem peso praticamente igual ao do roteiro. Afinal se a música é o instrumento de mestres que querem dizer o que não pode ser dito por palavras ou ações, como não pesar canções que tinham tanto a dizer como as de Tim Maia. O filme merece destaque por suas versões de clássicos dançantes e inspiradores como Festa de Santo Reis, Do Leme ao Pontal e Sossego, mas também por transmitir em tela mensagens tão delicadas e emotivas presentes em Imunização Racional, Gostava Tanto de Você e Você. Escolhi essa última para ilustrar o texto pelo seu tom altamente passional, afinal tudo com relação a Tim era altamente emocionante. A canção é parte de seu segundo disco e muito acertadamente foi colocada no último momento do filme. Depois de sermos bombardeados com toda as aventuras, todos os amores e todas as dores do nosso artista, Azul da Cor do Mar aparece como o epitáfio do cantor, escrito por ele mesmo e tão certeiro em sua visão amorosa tão emotiva. E por muito, muito pouco, essa e muitas de suas obras primas não chegariam aos nossos ouvidos. Sejamos francos. Tim Maia era pobre, negro, gordo e ainda por cima, músico. Se havia alguma chance mínima desse cara se tornar alguém no tenebroso mundo midiático essa chance só se tornaria real graças à sua teimosia altamente radical - quase obsessiva - de buscar seu lugar ao sol. Curiosamente, foi essa a característica que também o matou. Quando percebeu que havia feito o impossível, Tim Maia não aceitava mais o possível. Vivia, como abençoaria Raul Seixas, segundo suas próprias leis. Fazia somente o que amava do fundo do coração e da alma. Para todo o resto, soltava um clássico: "vai-te a merda". Não havia meio termo com o cantor. As coisas eram nuas e cruas. Preto no branco ou Azul da Cor do Mar, outra canção de beleza ímpar, mas que infelizmente não está no filme. Ainda assim vale um comentário, dado seu tom quase clarividente escrito pelo próprio músico. É na suavidade que sua poesia nos ganha. Nela Tim descreve como queria ter forças para distribuir à todos que, como ele, sofreram. Tim entrega suas rimas aos pobres, excluídos, desencorajados, fadados à viverem sempre como coadjuvantes da própria vida, para que eles busquem, como ele mesmo diz, uma "razão para viver". "Um sonho azul da cor do mar", capaz de manter um homem aquecido mesmo nas noites mais frias. Capaz de tornar uma pessoa crente no milagre da vida, mesmo quando tudo ao redor dela cisme em dizer que não vale a pena. É com essa fé que ele conseguiu. E foi com essa razão que suas emoções o dominaram até o último dia de sua vida. Esse era o nosso Tim Maia e com ele todos nós éramos mais felizes ;)

3 comentários:

Fabio CS disse...

Muito boa a análise da música e do gênio musical do grande Tim Maia. Era e é um grande vozerão inigualável. Pretendo ver o filme. Parabéns pelo artigo e análise sensível de sempre. Um abração.

kperazza disse...

Você devia ser menino ainda quando a gente ia em show do Tim Maia e torcia pra ele aparecer. Ninguém ficava sentado nos seus shows. O Eder é um apaixonado pelo Tim e já foi ver o filme. Ficou encantado também. Me orgulha muito, um jovem como você, conseguir entender tão bem a alma deste músico maravilhoso que foi o Tim Maia.

Felipe Andarilho disse...

Pois é, Tim Maia é mais um artista com quem tive a sorte de dividir um pouco de tempo na Terra, embora tenha sido insuficiente para que eu desse o valor que ele merecia naquela época. Pelo menos tenho acesso a sua musica e sua história! Obrigado pelos comentários!!

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