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Indo de Volta pra Nova Orleans

02/11/2014

Uma busca por um pub, cerveja e uma canção

Tenho uma história interessante sobre essa canção. Uma história que envolve milhares de milhas de distância, viagens, cerveja e um e-mail. Uma boa história sem uma canção é como cerveja sem gelo. Por mais que sobrem adjetivos negativos para qualificá-la, a verdadeé que ela se torna: sem graça. É por isso que coloco a própria música aqui, a verdadeira autora dessa história, uma canção de Deacon John, lançada em 2003 no disco "Deacon John's Jump Blues. Segue a letra:




Goin' Back to New Orleans
(John)

Goin' back home, fe nan e'
To the land of the beautiful queen
Goin' back to home to my baby
Goin' back to New Orleans

On the double
Here comes the Neville Brothers

Seeing na-na, my parin
Couzine and my ma and pa
Want to plant my feet on Rampart Street
Be there for the Mardi Gras

Goin' back home, fe nan e'
And never more will I roam
Goin' get me fill of that etoufee
'Cause New Orleans is my home

Is that a jumbo jet?
No, that's Big Al comin'
To put a hurt on you

On the level
There's Charlie Neville

Get some crawfish, jambalaya
Red beans and fine pralines
Get some lovin' that gonna satisfy
Home in New Orleans

Goin' back home, fe nan e'
In the land of the Carnival Queen
I'm goin' back home to my baby
Goin' back to New Orleans

I want go back home
Back where I'm little known
Yeah, home, boss
You're home sweet home

Here come Pete Fountain

I want to see some
On that Mardi Gras queen
Good red beans
Baby, I want to go back home
Home, sweet home
Home back to New Orleans

Goin' back home, fe nan e'
In the land of the Carnival Queen
I'm goin' back home to my baby
Goin' back to New Orleans

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Essa história começa em em Sydney, embora já tenham havido tantas outras histórias que antecedessem essa para que ela pudesse começar ali, bem naquela cidade australiana. As outras histórias possuem outras canções, mas essa é a história de um blues em especial e, embora a Austrália possa parecer o lugar mais distante possível do blues, você perceberá, assim como eu, que essa informação é tão sem sentido quanto fazer um amigo Tcheco na Austrália. Pois é, eu viajava com ele, Patrik, um cara alto, magro com inseperáveis óculos de fundo de garrafa e que veio da República Tcheca tentar a vida na Austrália, onde dividíamos os pratos para lavar, assim como as sobras do restaurante em que trabalhávamos, além de muita risada. Patrik era dono de um sotaque forte, cheio de 'R's e 'K's, e um bom humor tão poderoso e ácido quanto seu mau humor. Nesse dia, por sorte, ele estava feliz, e seguiamos pela noite explorando a maior cidade da Austrália. Decidimos ir para lá nos dias que antecederam nossa despedida do país dos cangurus. Eu ia embora para casa, ele ia para a Thailandia. Eu havia combinado com uma amiga de nos encontrarmos em Sydney para fazer alguma coisa. Roberta morava lá à uns 10 anos e queria nos levar para os lugares mais interessantes e secretos da cidade. Lugares que não aparecem em nenhum guia, mas que são sempre os melhores momentos de um visitante. A outra personagem dessa pequena história é Sônia, outra amiga que estava por ali há alguns meses e queria tanto conhecer a cidade como a gente. Uma aventura diferente para um quarteto inusitado e que, por alguma peripécia do destino foi para ali naquela esquina.


Foi onde nos encontramos - o cruzamento de uma das maiores avenidas da cidade com uma rua menor bem na frente do imponente "Queen Victoria Building" - um lugar iluminado, cheio de lojas, carros e sons. Roberta então imediatamente nos conduziu por algumas alamedas, cruzou uma ou duas praças e seguiu por rua pequenas enquanto nos maravilhávamos com os prédios antigos e imponentes da cidade. Tudo ali remetia à movimento e luzes, e a noite estava apenas começando. Foi aí que ela entrou num beco que dava numa área comum, saída de serviço de três ou quatro restaurantes. Um local escuro e silencioso, embora ainda assim pouco assustador. Nada em Sydney é assustador, a não ser talvez o desejo quase incontrolável de ali permanecer por dias sem fim. Entre uma e outra porta havia uma escada que descia e foi por ali que nossa guia nos conduziu, pisando seguramente nos degraus de pedra que circundavam tambores de cerveja já vazios. Uma última porta de madeira foi aberta e imediatamente tudo mudou. O que era silêncio e frio de repente se tornou música, vozes, risadas e muito jazz. Me senti um marujo recém saído de um cargueiro que estava no mar há alguns meses e que adentrou o primeiro bar do cais.


A alegria transbordava do local. Um Pub como o de filmes e desenhos, onde tudo se resume à escolher uma dentre duzentas cervejas disponíveis e encontrar um lugar para sentar. O tipo de lugar em que esbarrar em alguém e derrubar cerveja no chão é motivo de gargalhadas e os maiores problemas que um ser humano pode ter é não ter mais dinheiro para beber. Garçons fortes, tatuados e barbudos - todos eles de boinas e provavelmente recém saídos do porto local - se ocupavam atrás do balcão servindo whiskies e cervejas de todos os cantos do mundo. Atrás deles, uma infinidade de garrafas coloridas e barris se misturavam na baixa luz que permanecia no bar. Em cada mesa havia uma vela e, ao redor dela, pelo menos 10 pessoas se amontoavam para beber, conversar e rir. Tudo acontecia num ritmo rápido e num movimento alegre. Logo percebi o motivo: muito jazz e um blues rápido embalavam o lugar. Era impossível não sentir-se calorosamente bem recebido no local. O desejo por dançar, abraçar o desconhecido mais próximo e ficar bêbado era eminente. E foi o que fizemos. Bebi uma cerveja escura, forte e amarga como um nocaute no lutador que você tinha apostado. A primeira de muitas. Cada amigo escolhia uma e diferente e as compartilhávamos com caretas de reprovação ou olhares cúmplices quando a escolha tinha sido boa. Quando fui ao banheiro pela primeira vez foi quando pude, finalmente, prestar atenção quase que 100% no som. Foi aí que escutei a música que ficaria presa na minha cabeça pelos próximos longos meses que me levaram daquela parte do mundo e me trouxeram para casa.


Infelizmente não tive a genial ideia de gravar alguma música no celular e conferir depois em casa em algum aplicativo. E mesmo que tivesse minha bateria do celular nunca foi grande parceira e me abandona antes da hora várias vezes. Decidi então fazer a única coisa que podia: lamentar a perda para meu primo numa mesa de bar qualquer. 'Canção como aquela, meu amigo, poucos homens conhecem o valor', eu lhe disse. Ele então sugeriu com toda simplicidade e sabedoria que lhe são características natas: 'Procure o nome do bar na internet. Talvez eles tenham alguma lista de músicas disponível em alguma rádio'. Foi o que fiz imediatamente. Encontrar o nome do bar não foi difícil. Palavras chaves como "bar subterrâneo com garçons barbudos e tatuados" me indicou logo de cara o que eu buscava: The Baxter Inn. Não encontrei lista alguma, mas o e-mail do Pub foi suficiente. Escrevi para o desconhecido sobre a minha experiência inesquecível no local e minha busca pela sonoridade que embalou aquele momento. A resposta veio tão tranquila como seria de se esperar de um australiano: "Que bom que curtiu o bar. Nos veremos por aqui em breve, Cheers". A mensagem vinha acompanhada de alguns nomes de músicos de Jazz, Blues e R&B que passei a buscar de imediato. E não é que um tal de Deacon John era o autor da tal música que escutei no bar do banheiro? Era exatamente ela. Eu não lembrava de uma única palavra, mas de alguma forma sua melodia ficou incrustada em algum canto do meu cérebro e se libertou na hora em que dei o play. O australiano que tão prontamente me ajudou estava mais certo do que imaginava. Nós veríamos em breve. Agora, quando quero visitar o tal Baxter Inn, basta colocar para tocar Going Back to New Orleans. No meu caso, soaria mais fiel se a letra fosse "Indo de volta para Sydney" ;)

2 comentários:

Renato disse...

Sensacional essa música.
E as fotos dá uma vontade incontrolável de conhecer o lugar, e Sydney, hahaha.
Já gravei aqui nos meus favoritos.

Abraço

Felipe Andarilho disse...

Hahahahahah, espera até ver a lista que eu preparei! Valeu pela leitura e comentário, mestre. Abraços!

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