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[LANÇAMENTO] O Rappa: Nunca Tem Fim

01/10/2014

Uma ode às pessoas invisíveis

Se há uma banda braisleira de quem eu prezo muito o trabalho, esse alguém é O Rappa. A importância da banda não é somente por fazer música boa, mas sim por sua preocupação genuína - quase obsessiva - com os oprimidos pela sociedade. É impressionante como pobres, desempregados, mendigos, ladrões e todos que não tem um lugar ao sol no mundo atual recebem uma atenção especial da banda carioca. Essa canção é uma homenagem às pessoas que estão sempre à nossa volta, mas pouco percebemos, dado seu baixo destaque na escala social. É parte do último disco da banda, "Nunca Tem Fim", lançado ano passado, 2013. Segue a letra:




Doutor, sim senhor doutor
(Falcão/Xandão)

Doutor, senhor, doutor, senhor
Doutor, senhor, doutor senhor, doutor, doutor, doutor

Criaturas tão visiveis no cenário urbano
Situação estatua no cotidiano
O ar quente desespera quem esta la fora
O ar frio perdulario dentro, dentro
Imagem que passam fora da vitrine
Diz que não tem lugar ou assento
Imagem que passam fora da vitrine
Diz que não tem lugar ou assento
Acessorista, trocador, porteiro
Porteiro de apoio, o motorista, lixeiro
Personagem do mesmo desterro

Pra quem não sabe ler
Letreiro é só, somente um desenho

A limpeza é necessária mas é invisível
Brigação de maquina ressão possivel
Alguma peças vão sobrando, ficando no caminho
Computador, frutas, jornal, resto de missil, novinho
Resto de missil novinho

Invisíveis criaturas, humildes, desumanos
Olhares e receios sob o chão no plano
São pessoas que não vem por quem
São pessoas amigas é de quando precisamos

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Se conseguissemos manter a atenção durante um dia inteiro, ficaríamos assustados com o número de pessoas que ignoramos. E não estou me referindo às pessoas que não nos afetam diretamente, como transeuntes na rua ou colegas de trabalho com quem não temos contato. Me refiro às pessoas que interagem diretamente conosco. Pessoas das quais dependemos. São tantos motoristas, cobradores, porteiros, lixeiros, faxineiras, ascensoristas, eletricistas, pedreiros, açougueiros, caixas e garçons no dia a dia que esse grupo todo de pessoas passou a ter um triste lugar na percepção comum das pessoas. O lugar dos invisíveis. Não por acaso essas pessoas são as mais pobres da sociedade. Donas de um talento pouco valorizado, mas tão necessário, elas permanecem transparentes para o resto da sociedade. É num grupo dos renegados que vive esse monte de figurantes. Pagos não para abrir a boca, mas somente para executar suas tarefas indispensáveis em silêncio. O máximo que dizem é, como manda o figurino, um "sim, senhor" ou um "obrigado". Qualquer coisa além disso não vale a pena ser dita, pois não seria ouvida. Os microfones não chegam até os extras. No alto de nossas importantes vidas de astros principais nos esquecemos que essas pessoas também têm vida. Esquecemos que elas tem famílias, interesses, hobbies, amigos e, como todos nós, problemas. Pensamos que, por elas não viverem em nossos bairros e não terem estudado em nossas escolas, que elas são ignorantes, que não possuem sentimentos como os demais e que não merecem nem um pouco de atenção.


É pensando nessa triste análise que O Rappa compôs Doutor Sim Senhor. Como sempre do lado dos indefesos, o Rappa dá voz aos mudos. Joga luz nos obscuros e fala por eles. Descreve seus dramas e nos tenta despertar para essa classe trabalhadora tão humilde. "A limpeza é necessária mas é invisível", eles dizem. E é verdade. Só o que sabemos é que o lixo do escritório foi removido e um cesto vazio apareceu no lugar. O grande mistério por trás dessa façanha é que havia alguém ali, responsável por removê-lo. O pior de tudo é que esse alguém recebe muito pouco para fazer isso. Alguns recebem ainda menos para serviços piores. Serviços que ninguém jamais gostaria de fazer. Essas pessoas raramente reclamam de suas vidas. Raramente percebem a injustiça que lhes acomete. É triste mas a regra é a sobrevivência. Quem pode, manda. Quem não pode responde: "Doutor, sim senhor". Como O Rappa diz: "Pra quem não sabe ler, letreiro é somente um desenho". As pessoas invisíveis não têm voz, nem vez. São conformadas com o pouco que têm, porque não sabem que também merecem ter mais. A sociedade precisa delas como elas são. Afinal, quem vai tirar o lixo, dirigir o ônibus e preparar o cimento se todos, de repente, tiverem a mesma ambição de um executivo? Com um ritmo rápido e os efeitos sempre bem desenhados, O Rappa esfrega na cara da alta roda o papel triste e irresponsável que cada um de nós executa. É só uma música, é verdade. Mas ao menos pode nos fazer pensar. Então, pense bem. Da próxima vez que ver alguém invisível você enxergará a pessoa ou continuará ignorando sua existência? ;)

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