Mais um livro do Andarilho

Sozinha

12/08/2014

Como uma música percorre as vidas

Como diria Benjamin Button, às vezes estamos em uma rota de colisão e não podemos fazer nada à respeito. Às vezes a colisão vem no formato de uma canção que, como se não fosse nada, une amores, move pessoas e remove montanhas. É o caso de uma música gravada pela banda Heart, em 1987 e da qual muitas emoções são destiladas em diferentes épocas e lugares do mundo. Segue a letra:




Alone
(Steinberg/Kelly)

I hear the ticking of the clock
I'm lying here the room's pitch dark
I wonder where you are tonight
No answer on the telephone
And the night goes by so very slow
Oh I hope that it won't end though
Alone

Till now I always got by on my own
I never really cared until I met you
And now it chills me to the bone
How do I get you alone
How do I get you alone

You don't know how long I have wanted
To touch your lips and hold you tight
You don't know how long I have waited
And I was gonna tell you tonight
But the secret is still my own
And my love for you is still unknown
Alone

Till now I always got by on my own
I never really cared until I met you
And now it chills me to the bone
How do I get you alone
How do I get you alone

How do I get you alone
How do I get you alone
Alone, alone

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Foi cantando Alone do Heart em um Rock Bar qualquer das Filipinas que Arnel Pineda foi contratado pelos integrantes remanescentes do Journey para ressuscitar a clássica banda dos anos 80, dona do eterno hit, Don't Stop Believing. Descobri isso em uma aparentemente inocente aula de inglês, alguns anos atrás. Foi mais ou menos o que aconteceu com Tim Owens e o Judas Priest e que acabou inspirando o filmaço Rockstar. Por mais incrível que possa parecer, essas coisas realmente acontecem. E elas só parecem incríveis por que não estamos acostumados a testemunhar os mecanismos secretos do universo. Talvez se prestarmos mais atenção, essas misturas magníficas de caminhos podem se tornar mais normais. Mas qual seria a graça disso? A graça é se surpreender com a magia do mundo, se emocionar com as loucuras e acreditar mais ainda em Deus por isso. E eu acredito, por que também fui vítma de um encontro inusitado do destino envolvendo Heart e as Filipinas. Sou apenas um homem ordinário, mas às vezes esses detalhes não passam batidos pelos meus olhos cansados. Foi na Austrália, assim como muitas das histórias mais interessantes que presenciei. Enquanto lavava pratos, tornou-se comum - quase necessário - ouvir música. Não fosse por Audioslave, O Rappa e Skid Row eu talvez não estivesse em total sanidade mental. Ou melhor dizendo, não teria mantido o pouco de sanidade que tenho. Num dos dias em que me afundava entre os pratos, era Heart quem tocava. Meu, até então, único disco das irmãs Wilson era um "Greatests Hits" dos anos 80. Alone obviamente estava na lista e quando tocou não pude me segurar. Lembrei-me de uma antiga chefe no Brasil que me disse ter tido uma banda cover de Heart na juventude. Não duvidei. Se há alguém louco o bastante para montar um cover de Heart esse alguém era minha chefe. Logo que ouvi os primeiros acordes do refrão em suas notas tristes e poderosas, imaginei ela em toda sua energia e vivacidade declamando os versos de Ann Wilson em plenos pulmões. Inspirado por aquela visão entorpecida de uma fada cantando em meio à penumbra de guitarras pesadas e florestas secretas soltei a voz. Foi aí que ignorei os colegas de trabalho, esqueci do profissionalismo e cantei o refrão inteiro e finalizei com aquela acentuada ótima do último verso, que suplica: "How do I get you aloooooooone?" ("Como eu te encontro sozinha?"). Senti um arrepio. Teria algo saído errado no meu falcete? Não, não foi aquilo. Foi diferente. O som tinha algo a mais além da minha terrível voz. Era uma segunda voz e eu poderia jurar que ela não pertencia à Ann ou mesmo à backing vocal Nancy Wilson que mantinham aquele ritmo incrível no meu celular. Olhei para um canto da cozinha e avistei a resposta. Kat estava lá e sorria com uma dose de cumplicidade no olhar. Kat era uma jovem das Filipinas. Como muitos na Austrália ela havia trocado o país de origem por um lugar mais quente ao sol. Já vivia ali há pelo menos uns dois anos e, por alguma razão que só os deuses poderiam saber ela conhecia e admirava Heart. Embora não nos conhecêssemos muito bem, dividimos ali, naquela cozinha abarrotada de louças sujas, um pequeno momento da liberdade incondicional que só os verdadeiros apreciadores da música podem experimentar. De repente estava tudo bem. Não havia mais sujeira à ser removida. Não havia salário à ser desejado, nem realizações a serem cumpridas. Tudo o que importava era a entrada certa no verso do refrão. Arnel Pineda teria aprovado. Minha antiga chefe sorriria ao ouvir. Journey teria nos contratado e a própria Heart sentiria um calafrio ao ver o que sua canção teria se tornado. Sozinha ;)

2 comentários:

Claudia C.Silva disse...

Muito legal. Seu relato, Felipe! A música tem essa capacidade de nos transportar! Bj

Felipe Andarilho disse...

Obrigado tia!! Fico feliz q vc ainda esteja acompanhando! Bj!

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