Mais um livro do Andarilho

[NA ESTRADA] Sem parar o Rock and Roll, seja na Austrália ou no Brasil

23/07/2014

A música continua, independente do cenário

Chegou o fim da minha aventura na Austrália. Depois de mais ou menos um ano e meio recheado de trabalho árduo, caminhadas por cenários incríveis sob um calor indescritível ou frio penetrante, é hora de voltar pro outro lado do globo. Não sei ao certo onde vou parar, mas essa é uma das graças da vida: a incerteza de qualquer coisa. Tentar prever o futuro é, como dizem os sábios, pura tolice. É por isso que com esse texto pretendo falar um pouco do passado. Vou jogar um pouco de luz sobre a vida que levei na Austrália, do lado bom e divertido, mas também do lado negro sobre o qual muitos não ousam comentar. A trilha sonora fica por conta da banda mãe australiana: ACDC e seu lema de sempre amor ao Rock and Roll. Faz parte do incrível disco "Stiff Upper Lip", lançado em 1996. Segue a letra:




Can't Stop Rock N Roll
(Young)

Don't you give me no line
Better run if you can
Just like a thorn in my side
So don't give me no
Don't you give me no
Don't you give me no
Don't you give me no
lies

you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll

Don't you play me no jive
A bit of fun on my side
Too much clap make you blind
So don't give me no

don't you give me no
don't you give me no
don't you give me no
lies

you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll

I said, ah ah ah
ah ah ah
ah ah ah
ah
yeah

oh yeah
I said you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll

listen everybody say
ah ah ah
ah ah ah

you can't stop rock n roll
you can't stop rock n roll

I said you can't stop rock n roll

you can't stop rock n roll

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Você está cansado da sua vida no Brasil cheia de trânsito, trabalho e stress? Está pensando em mandar seu chefe para "Residêndia do Pênis", enquanto você pega suas malas e sai pelo mundo em busca do desconhecido?

Pois bem, faça isso.

Mas não espere que as coisas magicamente vão melhorar junto com o cenário. Esperar é tolice. O sábio estuda, não espera por nada e está preparado para tudo. Por isso gostaria de deixar aqui minha contribuição para a sua aventura, especialmente se ela for na Austrália.


Logo que cheguei à Terra dos Cangurus perguntei para um dos colegas de escola que lá morava já há alguns mêses o que ele achava da nova vida. Sua resposta foi: "A Austrália é boa, mas não é tão boa. E o Brasil é ruim, mas não é tão ruim". Depois de 1 ano e meio vivendo a mesma experiência que meu colega, nunca consegui encontrar definição mais precisa do que a dele.

A Austrália é boa, mas está longe de ser perfeita. Para começar os caras não estão nem aí pro ACDC. Conterrâneos de uma das maiores bandas da história, poucos são os australianos que realmente apreciam o bom e velho Rock and Roll. Comparados ao Brasil essa taxa se torna quase nula. Um dia ouvindo ACDC no rádio enquanto lavava pratos perguntei bastante empolgado para uma garota australiana: "Esses caras são bons ou não?". Ela disse, sem rodeios: "Eles são meio velhos..." Fiquei chocado.

Não me leve a mal. Há boa música na Austrália, principalmente nas ruas. Nos finais de semana é possível encontrar ótimos artistas de rua tocando em troca de moedas ou vendendo seus CDs. Mas, como amante incondicional do Rock and Roll, esperava mais paixão dos nossos irmãos Aussies. Descobri, no fim das contas, que ninguém é tão apaixonado por qualquer coisa, como os latinos são por tudo. Brasileiros, Colombianos, Mexicanos e Chilenos exaltam o que apreciam com alegria e energia. Sorrimos, cantamos, pulamos e gritamos. Tudo isso é estranho na Austrália. À primeira vista pode parecer apatia, mas é só uma questão cultural. Eles não são de demonstrar emoções tão exageradamente como nós fazemos tão bem. No Ano Novo por exemplo, não ouvi um único fogo de artifício.


A mesma ausência de orgulho, por exemplo, acontece com o Men at Work e o INXS. Talvez só o Midnight Oil se salve, dado seu apelo ao politicamente correto. Australianos adoram o politicamente correto. Esse é talvez o maior problema da Austrália para um imigrante que venha do Brasil.

Na Austrália as coisas são como são. Não há um jeitinho, não há segunda opção. É tudo sim ou não. É tudo preto ou branco.

Nenhum funcionário de atendimento vai te dizer na Austrália: "Tudo bem, vou abrir uma exceção". Não existem exceções na Austrália. Ou você segue as leis - muitas leis - ou vai embora. Eles não querem você. Não precisam de você. Então não têm motivo algum para querer te agradar. Como diria o Metallica, "Triste, mas verdade". Para os que sonham em viver ali, a única opção é investir muito dinheiro e seguir as regras.

Algumas regras são dolorosas.

A pior delas é que não se pode beber em locais públicos. Para o brasileiro, amante da cervejinha depois do trabalho, a mudança de hábito pode ser estressante. Ou você bebe infurnado dentro de um Pub (há um em cada esquina) ou em casa. Agora imagine aquela praia paradisíaca: areia branca, coqueiro verde e mar azul. Água do mar cristalina e geladinha, sol aquecendo tudo poderosamente. Porém, não há cerveja. Pode parecer implicância, mas não é. Eu me contentaria com água de côco. Mas também não tem. Não tem refrigerante, sorvete ou suco. Nada para comprar e ninguém vendendo nas praias. O famoso BYO ("Bring your own" ou em português "Traga o seu") é implacável e bastante estraga prazeres.

Outra regra capaz de enegrecer o coração do homem mais gentil são os estudos.

Por alguma questão que gente da minha laia não tem como entender, os brasileiros só podem ir para a Austrália com um visto de estudante - exceto, é claro, aqueles que possuem dupla cidadania italiana, francesa, etc. Para os pobres mortais só resta o visto de estudante que permite trabalhar meio período apenas. O motivo disso não é para que o pobre estudante foque no seu curso, como parece. O objetivo estrategicamente pensado pelo governo é que assim essas pessoas ficam impossibilitadas de trabalhar em em suas próprias áreas profissionais, mantendo os cidadãos australianos empregados e felizes. Os empregos menos desejados por eles (também chamados de sub-empregos) são quase que exclusivamente ocupados por pessoas de outros países. Já parou para pensar por quê, na região sudeste do Brasil, os piores empregos são ocupados pelas pessoas que vem do nordeste? Por que eles não tem escolha. Quem decide por eles é o governo e a sociedade. Na Austrália é a mesma e feia matemática. Os mais pobres fazem o trabalho mais pesado. "Uma beleza de mundo", como diria Devo.


Mas uma das características que o brasileiro tem mais orgulho é a sua persistência. Quando quer algo, o brasileiro é capaz de fazer o impossível. Lavamos louça, limpamos banheiros, servimos mesas com a mesma destreza com que somos advogados, publicitários, administradores e vendedores. Tudo em prol de um sonho.

Estremeço ao pensar em quantos brasileiros se frustram depois de tantos anos e muitas cifras investidas na Austrália. A imigração não é fácil. Existem sim muitos brasileiros residentes na Austrália, mas comparados ao número de estudantes que chegam, esse número é ridiculamente pequeno.

Veja você mesmo.

Leva-se algo em torno de 4 a 6 anos para conquistar a tão almejada "Permanent Residency" (Residência Permanente) na Austrália. Nesse meio tempo é preciso pagar muitas escolas, vistos, taxas, agentes imigratórios e seguros. O valor é alto e a soma deste ao final do período pode ultrapassar os seis dígitos e gerar ataques cardíacos, especialmente pelo alto valor do Dólar em comparação ao nosso Real. É preferível não olhar para trás.

O caminho é tortuoso, cheio de subidas, pedras rolando, poças de lama, areia movediça, crocodilos, às vezes a chuva cai, relampeja, mas os brasileiros residentes juram que vale a pena. Tem que valer.

Mas nem tudo é um pesadelo na terra dos Cangurus. Pelo contrário.

Existem tantas coisas, pequenas coisas, do dia a dia que são extremamente diferentes e fazem a viagem valer a pena. Os ônibus, por exemplo, destinados à chegar as 08h03, vejam você, realmente chegam as 08h03. Ok, às vezes atrasam e podem chegar as 08h09. Mas só porque furou o pneu, houve um acidente ou algo do tipo, mas tudo foi resolvido de forma rápida e competente e o motorista ainda pede desculpas pela "demora". As coisas realmente funcionam na Austrália. E funcionam tão bem que chegam à assustar quem é acostumado com a bagunça brasileira.


Nos shows não há empurra-empurra. Quando fui ao concerto do Jack Johnson, num dos maiores parques da cidade fiquei abismado com a civilidade australiana. As pessoas eram capazes de levar cobertores e fazerem pique-niques no meio do shows. Se você já foi em algum show no Brasil, provavelmente perceberá que as imagens de um casal deitado na grama tomando vinho e a multidão enlouquecida de fãs são coisas que não se misturam por lá. Na Austrália sim.

Se por um lado a cerveja só pode ser tomada nos Pubs ou em casa, aqui vai outra boa motícia aos bons bebedores: há milhões de tipos de cervejas e vinhos. E todos são bons. É sério! Todas as marcas de cerveja e todos os rótulos de vinhos tem um padrão mínimo de qualidade. São todos, sem exceção, muito bons. Você pode escolher pelo nome mais divertido ou pelo melhor preço, sem medo de errar.

Já o preço em si é outra história.

Ficar bêbado num Pub é algo inimaginável, à menos que você tenha acabado de receber no trabalho e esteja ciente de que passará fome pelas próximas duas semanas. A média de peço de um Pint (copo de Chope, aproximadamente 473 mL) gira em torno de 10 dólares. É isso mesmo que você leu. É muito dinheiro num copo de cerveja. Em alguns lugares há promoções específicas o bastante para te fazer ir no Pub na terça-feira na hora do almoço só para pagar 8 dólares. E as pessoas vão. Afinal, 2 dólares são quase 5 reais, que dá umas 3 latinhas de Skol no mercado e por aí a conta segue.

Os próprios australianos sabem do preço abusivo da bebida. Cigarros então, nem se falam... Um maço pode sair pela bagatela de 25 dólares. Sabendo do assalto que os aguarda nos Pubs, o povo prefere comprar a birita numa loja específica, chamadas de "Bottle Shops" ou "Liquor Stores" e beber em casa com os amigos. O problema é que essa prática ao longo do tempo gerou um grande problema de alcoolismo no país. É comum, nas sextas-feiras e sábados, presenciar cenas de embriaguez em níveis extratosféricos por parte dos jovens.


A Austrália também tem cenários incríveis, o que leva muitos estudantes a viajar pelo país antes de retornarem à suas casas. Mas ao contrário do que muitos pensam, viajar pela Austrália é tão caro quanto no Brasil. E também não há tantas cidades espalhadas pelo interior. Isso gera uma menor infra-estrutura para viagens de carro. Eu que morei em Perth, na costa Oeste, ouvi falar muitas vezes da dificuldade em viajar para outras grandes cidades. Imagine dirigir mais de mil quilômetros sem nada ao redor além de algumas árvores e pedras? Deus que me livre. Quem vai para a costa Leste tem mais sorte. Todas as grandes cidades estão por lá... Sydney, Melbourne, Gold Coast. Cenários paradisíacos aguardam os bons viajantes. É só preciso dinheiro e um pouco de vontade.

Outra característica incrível da Austrália é a mistura de culturas. Ali vivem pessoas de todos os países. Todos mesmo. É uma salada cosmopólita interessantíssima. Num mesmo dia você pode pegar o ônibus com um motorista indiano, ir comer num restaurante chinês, cujo cheff é vietnamita, ser atendido por garçons brasileiros, ir para uma loja e se deparar com um operador de caixa italiano. Tomar café feito por um francês, cortar cabelo com um iraquiano e pegar um táxi de volta para casa com um motorista da Macedônia. E o melhor: no meio disso tudo você ainda encontra alguns australianos.

Como isso tudo se encaixa e funciona é um mistério digno de apreciação.


O inglês não é um problema para quem quer aprender. Em alguns meses já vi amigos indo do zero à uma boa fluência suficiente para se virar sem grandes complicações. O problema maior é que há horas em que precisamos de um inglês bastante técnico e isso é deveras frustrante. Imagine, por exemplo, ir ao médico e explicar que você está sentindo uma pontada na parte interior esquerda dos olhos. Ou imagine explicar pro seu chefe que o câmbio do carro que você estava lavando emperrou e que agora você só pode andar de marcha ré. Essas coisas são complicadas e, cientes de que metade da população ao seu redor não fala inglês desde o berço, os australianos desenvolveram um tipo de Escudo Anti-Outras Línguas. Eles não demonstram impaciência, muito menos agem com falta de respeito. Pelo contrário. Eles fingem que entenderam e preferem não se estender para não nos constranger. Às vezes isso é bom, afinal você não passa vergonha se enrolando com as palavras. Mas tem horas que realmente queremos ser entendidos e tudo que nos respondem é um rápido e condescendente "Ok, ok".

Talvez seja por isso que há pouquíssimos estrangeiros que tenham amizade com algum australiano. É triste, mas a linguá pode ser um obstáculo muito maior do que imaginamos. Poder se expressar livremente no seu próprio idioma é uma dádiva que não nos damos conta até sermos privados dela.

Quando me perguntam o que eu achei do país em que morei eu digo que a Austrália é um excelente lugar, mas não é um lugar perfeito. Exatamente assim como qualquer lugar. Como seres humanos somos capazes de pensar, avaliar e comparar. E se fizermos isso perceberemos que não há um lugar melhor do que o outro. A Austrália não é melhor que o Brasil. E o Brasil não é melhor que a Austrália. O que existe é uma ideia antiga e comumente divulgada que coloca a Austrália num grupo de Países de Primeiro Mundo. Isso gera a ilusão de que ali tudo é melhor do que nos outros lugares, por eles batizados como Terceiro Mundo ou Subdesenvolvidos. É o famoso "Complexo de Vira-Lata", descrito por Nelson Rodrigues. Essa imagem é inclusive tristemente compartilhada por muitos brasileiros e latinos que, em meio ao desejo de pertencer ao primeiro grupo, não enxergam a exploração da qual são vítimas no "País dos Sonhos" neste longo e tenebroso caminho que é a imigração.

A Austrália dá um show de civilidade e eficiência. O Brasil dá um show de culinária e bom atendimento. A beleza do mundo está nas diferenças. Não devemos comparar o que cada país faz de errado, mas sim em que cada país é exemplar. Como brasileiros temos muito o que aprender, mas também muito o que ensinar. Cada lugar tem seu encanto e por ele merece ser mais lembrado do que por seus problemas.


Como viajantes devemos ter em mente que, seja aqui ou ali, a vida segue, sempre. Como o bom e velho Rock and Roll descrito por ACDC, não dá para parar. Nunca ;)

4 comentários:

Marcia Martins disse...

Não sei quando você chega, mas seja bem-vindo! =)

Fabio CS disse...

Maravilhoso, emocionante e engraçado, um texto com laneces muito espirituosos. Fico contente com seu grande senso de observação, sensibilidade e síntese das idéias. Um pequeno almanaque curioso para quem vai viajar para a Austrália. Parabéns e um abração.

Tia Claudia disse...

Que bom que está voltando, Felipe! O seu relato da viagem é emocionante e realista ao mesmo tempo da sua inesquecível experiência do outro lado do mundo! Muitas saudades e beijo ao querido sobrinho andarilho!

Felipe Andarilho disse...

Muito obrigado pelos comentários, meus amigos! Fico muito feliz em estar de volta e poder continuar escrevendo mais aqui. Um abração!!

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