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Brazuca é bom de bola

24/06/2014

A Copa das Copas e a Copa Política

O juíz já apitou, a bola está rolando e a Copa do Mundo segue no nosso país em meio à surpresas (Costa Rica batendo no Uruguai e na Inglaterra?), zebras (Espanha primeira eliminada) e muita polêmica envolvendo a organização do evento e o momento poítico que nosso país vive. Devo admitir que mesmo não sendo fã de futebol, a coisa muda na hora da Copa do Mundo. Não assisto as finais do bom e velho Santos, clube para o qual alego torcer, e não sei quem são metade dos jogadores da Seleção atual, mas mesmo assim acompanho todas as Copas com uma curiosa e incoerente paixão. Quando o evento resolveu ser no Brasil, o que parecia o acontecimento perfeito para esse tipo de torcedor acabou dividindo-o ao meio. Para refletir um pouco, vamos ao som do Gabriel, o Pensador, como sempre cutucando nossas feridas com coragem e anseio por mudanças. Essa canção é uma velha obra presente no disco "Nádegas a Declarar", lançado há 15 anos, mas que se revela mais atual do que nunca com a "Copa das Copas" acontecendo em solo brasileiro. Segue a letra:




Brazuca
(Gabriel O Pensador)

Futebol? futebol não se aprende na escola

No país do futebol o sol nasce para todos mas só brilha para poucos
E brilhou pela janela do barraco da favela onde morava esse garoto chamado brazuca
Que não tinha nem comida na panela mas fazia embaixadinha na canela e deixava a galera maluca
Era novo e já diziam que era o novo Pelé
Que fazia o que queria com uma bola no pé
Que cobrava falta bem melhor que o Zico e o Maradona e que driblava até melhor que o mané
Pois é
E o brazuca cresceu, despertando o interesse em empresários e a inveja nos otários
Inclusive em seu irmão que tem um poster do Romário no armário
Mas joga bola mal pra caralho
O nome dele é zé batalha
E desde pequeno ele trabalha pra ganhar uma migalha que alimenta sua mãe e o seu irmão mais novo
Nenhum dos dois estudou porque não existe educação pro povo no país do futebol
Futebol não se aprende na escola
É por isso que brazuca é bom de bola

Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola
Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola

Chega de levar porrada
A canela tá inchada e o juiz não vê
Chega dessa marmelada
A camisa tá suada de tanto correr
Chega de bola quadrada
Essa regra tá errada, vamo refazer
Chega de levar porrada
A galera tá cansada de perder

No país do futebol quase tudo vai mal
Mas brazuca é bom de bola, já virou profissional
Campeão estadual, campeão brasileiro
Foi jogar na seleção, conheceu o mundo inteiro
E o mundo inteiro conheceu brazuca com a dez
Comandando na meiúca como quem joga sinuca com os pés
Com calma, com classe, sem errar um passe
O que fez com que seu passe também se valorizasse
E hoje ele é o craque mais bem pago da Europa
Capitão da seleção, tá lá na copa
Enquanto o seu irmão, zé batalha,
E todo o seu povão, a gentalha
Da favela de onde veio, só trabalha
Suando a camisa, jogado pra escanteio
Tentando construir uma jogada mais bonita do que a grama que carrega na marmita
Contundido de tanto apanhar
Confundido com bandido, impedido
Pode parar!!

Sem reclamar pra não levar cartão vermelho
Zé batalha sob a mira da metralha de joelhos
Tentando se explicar com um revólver na nuca:
Eu sou trabalhador, sou irmão do brazuca!
Ele reza, prende a respiração
E lá na copa, pênalti a favor da seleção
Bola no lugar, brazuca vai bater
Dedo no gatilho, zé batalha vai morrer
Juiz apitou... tudo como tinha que ser:
Tá lá mais um gol e o brasil é campeão
Tá lá mais um corpo estendido no chão

Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola
Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola

Chega de levar porrada
A canela tá inchada e o juiz não vê
Chega dessa marmelada
A camisa tá suada de tanto correr
Chega de bola quadrada
Essa regra tá errada, vamo refazer
Chega de levar porrada
A galera tá cansada de perder

O país ficou feliz depois daquele gol
Todo mundo satisfeito, todo mundo se abraçou
Muita gente até chorou com a comemoração
Orgulho de viver nesse país campeão
E na favela, no dia seguinte, ninguém trabalha
É o dia de enterrar o que sobrou do zé batalha
Mas não tem ninguém pra carregar o corpo
Nem pra fazer uma oração pelo morto
Tá todo mundo com a bandeira na mão esperando a seleção no aeroporto

É campeão da hipocrisia, da violência, da humilhação
É campeão da ignorância, do desespero, desnutrição
É campeão da covardia e da miséria, corrupção
É campeão do abandono, da fome e da prostituição

Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola
Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola

Chega de levar porrada
A canela tá inchada e o juiz não vê
Chega dessa marmelada
A camisa tá suada de tanto correr
Chega de bola quadrada
Essa regra tá errada, vamo refazer
Chega de levar porrada
A galera tá cansada de perder

Chega de levar porrada!!

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

"Futebol não se aprende na escola". Essa é uma das frases que mais enche de orgulho as bocas dos amantes de futebol, sejam eles torcedores ou jogadores profissionais ou amadores. Tão ostensivos em suas habilidades e amores à pelota, eles acabam ignorando o real sentido dela. Gabriel, o Pensador percebeu e colocou na letra de Brazuca esse triste e poderoso contraste que impera no Brasil. "Futebol não se aprende na escola. É por isso que o Brazuca é bom de bola". Esse é o primeiro verso de Brazuca, dito por Gabriel, o Pensador com uma voz que mistura em proporções iguais o amor ao testemunhar um chapéu no zagueiro adversário e a tristeza ao observar quanto o Brasil negligencia tudo que está fora das quatro linhas. Brazuca é o personagem central dessa letra. Não apenas seu nome representa o povo brasileiro como um todo, mas ele é o típico garoto da favela "que não tinha nem comida na panela, mas fazia embaixadinha na canela". Brazuca é bom de bola porque não frequentou a escola. Vítma de um governo corrupto e uma sociedade desigual, Brazuca desconta nos goleiros adversários todas as oportunidades que não teve: educação, respeito, segurança. Cada uma se torna um golaço por meio dos quais o garoto sobe na vida e se torna um verdadeiro campeão dentro do estádio. O contraponto à Brazuca é seu irmão Zé Batalha, outro estereótipo do povo brasileiro, dessa vez muito mais frio e real. Zé Batalha "tem um poster do Romário no Armário, mas joga bola mal pra caralho". Desprovido do talento do irmão, cabe ao pobre Zé trabalhar desde garoto para sustentar a mãe e o irmão mais novo. A canção segue com um ritmo marcante, sempre recheada de jogos de palavras inteligentes e métricas redondas por parte do Pensador. O refrão é dividido em duas partes e apresenta um tom mais melódico, como é comum nas canções do artista, servindo bem de contraste ao rap com que ele recita as estrofes.


Parte do refrão diz: "Brazuca é bom de bola, Brazuca deita e rola. Zé batalha só trabalha, Zé batalha só se esfola". A vida segue e quem tem a bola da vez sobe na vida como um foguete. Brazuca vai de clube em clube até a Europa, onde o mundo inteiro o reconhece como um legítimo camisa 10. Da Europa, sua glória atinge o ápice com uma escalação para a Seleção Brasileira no posto de capitão. Quem pode, pode. Quem não pode segue com a vida do jeito que dá. É o caso de Zé Batalha, trabalhador que continua "suando a camisa, jogando pra escanteio, tentando construir uma jogada mais bonita do que a grama que carrega na marmita". Integrante humilde de uma sociedade violenta e opressora, Zé Batalha acaba então confundido com um bandido pela polícia. O clímax da canção chega no momento em que Zé Batalha ajoelha-se diante da metralhadora do policial enquanto Brazuca sofre um penalti na final do torneio mundial. O juíz apita e tudo segue conforme manda o figurino. "Tá lá mais um gol, o Brasil é campeão. Tá lá mais um corpo estendido no chão". O desfecho da história vem com a irônica constatação de que não havia ninguém na favela pra enterrar o pobre Zé Batalha, pois todos estavam no aeroporto esperando a Seleção brasileira. Trata-se não só de uma crônica bastante realista do país, mas uma crítica contundente à ilusão que sofremos pelo espetáculo, enquanto brasileiros e apaixonados pelo futebol. Nosso amor pela camisa é tanto que não nos deixa espaço pelo amor à saúde pública, ao transporte público, à segurança e à desigualdade social. É o truque mais velho da história da civilização. Um Pão e Circo moderno que anestesia o povo e o afasta de preocupações mais urgentes. No fim da canção de Gabriel, o Pensador, o povo comemora enquanto o cantor revela o verdadeiro prêmio que nos aguarda:

"É campeão! Da hipocrisia, da violência, da humilhação.
É campeão! Da ignorância, do desespero, desnutrição.
É campeão! Da covardia e da miséria, corrupção.
É campeão! Do abandono, da fome e da prostituição."



Grafite por Paulo Ito, que repercutiu mundo afora

A Copa no Brasil neste ano se tornou, como o Governo previu, um evento único. Mas não único por sua grandiosidade e apresentação de um belo espetáculo esportivo. Único por seu teor social. A Copa do Mundo 2014 se tornou uma Copa Política. Depois do Ronco das Ruas em 2013, não era por menos. Mesmo com toda a brasilidade e jogo de cintura na hora de encarar os problemas, o povo está cansado de tanta corrupção no Governo e tanta desigualdade. Muita gente acabou percebendo que, mesmo com o Brasil em campo, há outros pontos que merecem nossa atenção. Como descrito na canção, somos Pentacampeões de Futebol, mas somos um número muito maior de vezes que isso em miséria, ignorância, fome e corrupção. Sabíamos desde o início que a Copa só traria mais oportunidades para o Governo desviar nosso dinheiro tão suado. A Fifa, tão sombria quanto o plenário brasileiro também se tornou alvo de críticas não só brasileiras, mas de todo o mundo quanto à sua sede insaciável por dinheiro. Gananciosa, a Federação elegeu o Brasil como sede da Copa. No país do "Quanto eu levo nisso?" a Fifa viu um caminho rápido e eficiente para encher seus cofres, mesmo às custas de uma sociedade insatisfeita e às vidas de brasileiros que morreram em obras dos estádios. O próximo da lista é o Qatar, que já conta com um número recorde de vítmas das construções de baixa segurança. Para piorar a situação ainda há as eleições presidenciais em poucos meses e o Governo que prega um País de Todos excluiu os pobres dos eventos. A Arena Corinthians, dentro de um dos bairros mais populares de São Paulo, não abrigou nenhum torcedor da classe baixa. Logo aqueles que mais apreciam o futebol e que encontram na seleção amarelinha o único alívio para uma vida cheia de dores e cicatrizes. O investimento de bilhões em estádios e aeroportos contradiz a falta de verba para todas as outras áreas que o Brasil tanto precisa. Tamanha discrepância acabou dividindo o Brasil também dentro dos campos. É claro que ainda há o torcedor típico apaixonado que não-importa-o-que-aconteça estará ao lado do Brasil. Mas há também aqueles que agora sentem um certo gosto amargo na boca ao apoiar o Brasil em meio à tanta politicagem. Afinal, celebrar a vitória em campo é, como cantou Gabriel, o Pensador, apioar a negligência nos bastidores do país. Sorte nossa que as redes sociais estão bombando e o mundo todo está ficando à par do que acontece por baixo dos panos no país 5 vezes Campeão do Mundo. Eu, pessoalmente, não consigo deixar de torcer pelo Brasil, mas preferia que ele não fosse campeão. Chegar na final e perder com glória numa disputa apertada, quem sabe nos pênaltis, para outro país mais merecedor talvez ajude o brasileiro a deixar de lado um pouco do fanatismo e continuar olhando para o Governo com fome de Gols na educação, saúde, segurança e justiça ;)

NOTA: Quando uso a palavra "Governo" nesse texto, não me refiro à nenhum partido político, mas sim à estrutura governista como um todo, formada por todos os partidos, coligações, oposições e políticos que, infelizmente, sem exceção, deitam e rolam com o dinheiro público.

Um comentário:

Kátia Perazza disse...

Muito boa a analogia desta música com o nosso atual momento. Perfeita. Realmente, não deixo de torcer para o Brasil, mas reconheço que se ele ganhar vai ajudar bastante este governo corrupto. Aqui, não é a religião, mas o "futebol que é o ópio do povo". Kátia

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