Mais um livro do Andarilho

[SHOW] Num Quarto Escuro

24/04/2014

Show do Skid Row em Perth, Austrália, dia 23/04/2014

Ver uma das suas bandas preferidas ao vivo é um raro prazer da vida. Se ainda estiver em atividade, os caras normalmente são de outro país ou estado. Demoram para vir para sua área. E quando vêm, os shows são caros. Às vezes os shows são em locais de difícil acesso. Mas nada é obstáculo demais para um fã determinado. É um esforço bonito de ver quando os fãs param tudo que estão fazendo para prestigiar seus músicos favoritos onde quer que seja. É por que isso que estar ali, diante de seus heróis, naquela noite específica é algo difícil de descrever. Foi o que aconteceu ontem à noite comigo e com o Skid Row aqui na Austrália. Para ler, vamos ao som de um clássico da banda, do disco "Slave to the Grind", de 1992. Segue a letra:




In A Darkened Room
(Bolan/Snake/Bach)

In a darkened room
Beyond the reach of God's faith
Lies the wounded, the shattered remains of love betrayed

And the innocence of a child is bought and sold
In the name of the damned
The rage of the angels left silent and cold

Forgive me please for I know not what I do
How can I keep inside the hurt I know is true?

Tell me when the kiss of love becomes a lie
That bears the scar of sin too deep
To hide behind this fear of running unto you
Please let there be light
In a darkened room

All the precious times have been put to rest again
And the smile of the dawn
Brings tainted lust singing my requiem

Can I face the day when I'm tortured in my trust
And watch it crystallize
While my salvation it crumples to dust

Why can't I steer the ship before it hits the storm
I've fallen to the sea but still I swim for shore

Tell me when the kiss of love becomes a lie
That bears the scar of sin too deep
To hide behind this fear of running unto you
Please let there be light
In a darkened room

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Tenho uma característica estranha. Por vezes é uma boa qualidade. Às vezes soa como teimosia. No caso do Skid Row é um pouco dos dois. Sou um cara que, quando gosta de alguma coisa, se torna advogado daquilo. Visto a camisa. Compro brigas inofensivas. Tomos as dores e discuto até ser o último a desistir. Procuro por razões para acreditar e justificar meu gosto por aquilo. Quando o objeto de minha afeição é injustiçado de alguma forma, isso só torna minha defesa ainda mais ferrenha. É por isso que sempre fui defensor do Skid Row. Luto por eles com unhas e dentes. Considero-os uma das maiores bandas da história. Muito maior do que Guns N'Roses, com quem chegaram a dividir o palco no auge da carreira. Muito superior à Bon Jovi, que foi quem os descobriu. Imensamente melhor do que qualquer grunge que os destruiu. Digo isso com todo respeito, pois afinal também amo todas essas bandas. Mas o fato é que há no Skid Row um ingrediente secreto pouco encontrado na maioria das boas bandas. Esse elemento misterioso tira o grupo de um patamar e o coloca em uma escala de gigantes. Basta ouvir o primeiro explosivo disco "Skid Row" (1989) para perceber que, desde o primeiríssimo riff, há algo mais ali, além de guitarras rápidas, pauladas na bateria e vocais rasgados. Quando ouvimos "Slave to the Grind" (1992) e "Subhuman Race" (1995) podemos observar o quanto a banda evoluiu em poucos anos de vida. Ganhou ares atemporais que só a forte influência do Heavy Metal poderia propôr. A saída de Sebastian Bach na sequência foi o karma da banda. Perderam o frontman e, com ele, milhares de fãs e o possível passaporte para o Hall das Lendas dos Rock. Não fosse por isso, talvez a banda ainda hoje enchesse estádios e inspirasse garotos a deixarem o cabelo crescer e comprarem suas primeiras guitarras. Não deu. Mas não adianta chorar. Defensor como sou, tive que continuar procurando razões para gostar do som dos caras, agora com Johnny Solinger no vocal. E encontrei. Gostei do que ouvi. Era diferente, mas ainda assim, muito bom. Solinger ajudou o Skid Row à se modernizar e calcar seu som em momentos ora mais melódicos ou ora ainda mais pesados, se é que era possível. Se seu desempenho no microfone era tecnicamente inferior ao de seu predecessor, não podemos dizer o mesmo de seu carisma e força de vontade. Pude comprovar no show de ontem. O cara é um sujeito bacana. Do tipo que dá vontade de ser amigo. É aquele vocalista que passaria um bom tempo conversando e tomando cerveja com cada fã, se pudesse. Não é afetado pelos holofotes. Não tem frescura em cantar hits da época em que o Skid Row era o gigante do qual ele ainda não fazia parte. Ele é como um fã da banda que, por acaso, virou vocalista. É por isso que é ainda mais prazeroso ver um Skid Row cantando hinos como 18 And Life, Monkey Business e Piece of Me com o sorridente Johnny Solinger nos vocais. Eu já vi um show do Sebastian Bach ao vivo. Foi incrível. Quase chorei. Mas faltava a algo. Era a presença de Scotti Hill, Snake Sabo e Rachel Bolan. No show de ontem do Skid Row não faltava nada. Estava tudo ali. A mesma energia e entrosamento que criaram canções explosivas de hard rock como Big Guns e o encerramento sempre épico de Youth Gone Wild. Ver a própria banda fazendo aquele coro que tanto me inspirou na vida é de quase arrancar uma lágrima do olho. Não preciso nem dizer que esperei o momento exato para gritar "Skid Row" junto com todos os fãs. O grupo ainda presenteou o fiel público - várias vezes elogiado pela banda - com as pauladas de Slave to the Grind e Thick Skin, além de seu maior hit, I Remember You (versão original e não a destruída pela própria banda anos depois da qual nem eu consigo gostar). A abertura do show ficou por conta de Kings of Demolition, primeira canção do novo disco do Skid Row, "United World Rebellion", que se for inteiro no nível desta será mais um épico disco à entrar para a história. Em certo momento do show Sollinger explicou que este é o ano em que o Skid Row, por incrível que pareça, completa 25 anos, dos quais ele está na linha de frente há 14. Não é pouca coisa. Constatei que nossos ídolos estão ficando velhos. Quando se forem, sabe-se lá o que vai ser do nosso Rock. Sou fã da banda há 10 anos. Eu mesmo já passei da época de rebeldia selvagem. Mas muito do que vivi nessa fase foi devido à eles. É por isso que ainda hoje quando ouço essas canções sou preenchido por uma energia positiva e arrebatadora. Um desejo desesperador por liberdade e por viver à vida. Foi no solo de In a Darkened Room que eu percebi o quão era grato àqueles caras. Scotti Hill solava. Em seu rosto agora envelhecido, a mesma expressão insana permanecia. Seus dedos percorriam velozes e a língua parecia solta no sorriso louco. A perfeita mistura da habilidade de um velho e a malícia de um garoto. Enquanto meu mestre solava, minha mente viajava. O quarto escuro de minha mente, cheia de experiências e desejos. Minha hipnose só se desfez quando o solo acabou e senti uma pedrada no peito. Ninguém viu nada. Atordoado, olhei para os lados à procura do meu agressor. Quando olhei para o guitarrista novamente, entendi tudo. Eu tinha sido alvejado pela sua energia. Ele entendeu o que eu senti naquela hora. E me enviou, diretamente do palco sua assinatura que nos manteria unidos até o final. Eu era grato por ele e ele por mim. O fã precisa da banda e a banda precisa do fã. Eu podia visualiza-lo claramente dizendo: "Isso é para que você se lembre sempre do que é o Skid Row para você". Aceitei minha missão com humildade e recolhi no chão aos meus pés o meu prêmio. A palheta de Scotti Hill ;)

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...