Mais um livro do Andarilho

O Amanhã Nunca se Sabe

09/02/2014

Uma experiência surreal e atemporal

Beatles tem minha devoção desde garoto principalmente por abordarem temas sobre amor e amizade em todas as suas circunstâncias e relevos. Mas nas poucas ocasiões em que os caras resolviam falar de crenças, filosofia ou da própria mente, a coisa também não ficava por menos. É o caso dessa canção que fecha o disco "Revolver", lançado em 1967.




Tomorrow Never Knows
(Lennon/McCartney)

Turn off your mind, relax and float down stream,
It is not dying, it is not dying
Lay down all thoughts, surrender to the void,
It is shining, it is shining.
Yet you may see the meaning of within
It is being, it is being
Love is all and love is everyone
It is knowing, it is knowing
That ignorance and hate mourn the dead
It is believing, it is believing
But listen to the colour of your dreams
It is not leaving, it is not leaving
So play the game "Existence" to the end
Of the beginning, of the beginning

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Gosto de usar o termo "viagem" para descrever as inúmeras incursões mentais que fazemos ao ouvir uma canção. Devido ao constante uso da palavra para descrever aquilo que minha capacidade de escritor não consegue descrever, talvez a palavra perca um pouco de sua força. É como a palavra "amor". Tão usada em diversas situações, independente de sua intensidade ou poder, o amor pode acabar soando banalizado. No caso de Tomorrow Never Knows, gostaria de ressaltar que a palavra "viagem" deve ser entendida com seu mais potente significado sobre a transferência de tempo e espaço que ocorre em nossas mentes ao ouvi-la. É isso que essa canção dos Beatles é. Uma grande e poderosa viagem. Nela, John Lennon tentou colocar numa canção sua forma de ver a vida sob olhos e percepção alteradas pelo LSD - droga poderosa que, bem ou mal, tem grandes gênios entre seus adeptos, como Steve Jobs, Aldous Huxley, além dos próprios Beatles. A obra é inspirada no "Livro Tibetano dos Mortos", tradicional composição budista à qual o objetivo é guiar o espírito de um morto pelas veredas do universo até sua conexão segura com o Todo e o Divino. Em suma é uma obra de teor psicodélico e espiritual, temas que são claros na base da obra, composta pela batida quase hipnótica de Ringo Starr e nos inúmeros efeitos variados produzidos com instrumentos musicais - alguns gravados ao contrário - e o barulho de loops de fita cassete reproduzidos com um ruído descoberto por Paul McCartney e que lembra o som de uma gaivota. O resultado é uma experiência surreal que te transporta pelas cores, canais e dimensões que separam o mundo material do misterioso e inexplicável mundo espiritual. Pelos verso de John Lennon podemos testemunhar o conhecimento, mesmo sem o entendimento. Podemos ver Deus e a verdade, mesmo que não saibamos onde eles estão ou quê exatamente é a verdade. É o tipo de canção que não é só ritmo e poesia, mas sim vivência e experiência. Numa mescla de sentidos - e como o próprio LSD sugere - quase podemos tocar a música, separando suas camadas de cores e vozes. Com um pouco mais de esforço é possível ver a canção, sentir seu cheiro e tudo o que ela representa. É como absorver anos de sabedoria e entendimento espiritual em apenas três minutos. Para melhor preparo nessa viagem, segue a tradução da poesia que na voz anasalada de John Lennon e que, com seus efeitos, surge como que cantada no alto de uma montanha, presente em todos os cantos, como em nossa mente, e não originada num ponto comum. Ele diz:

"Desligue sua mente, relaxe e flutue pela correnteza
Isso não é a morte, isso não é a morte

Eleve-se sobre seus pensamento, entregue-se ao vazio
Isso não é a iluminação, isso não é a iluminação

Ainda que você entenda o significado de dentro
Isso não é ser, isso não é ser

Amor é tudo e amor é todos
Isso é saber, isso é saber


Que a ignorância e ódio chorem os mortos
Isso é acreditar, isso é acreditar

Mas ouça as cores dos seus sonhos
Isso não é partir, isso não é partir

Jogue o jogo da existência até o fim
O fim do começo, o fim do começo"


Que embalados por essa experiência, possamos perceber o valor do momento, da existência e principalmente, do amor, em tudo e em todos, em cada momento presente, pois como o próprio título sugere, o amanhã só a Deus pertence ;)

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