Mais um livro do Andarilho

O Caminho

17/01/2014

Andarilhos que são professores e inspiradores

Já conhecia Gypsy Kings "de vista" há algum tempo. Me pareciam simpáticos, mas eu só dava aquele "oi" do outro lado da rua ou um aceno tímido, porém respeitoso, com a cabeça. Há algumas semanas decidi tomar coragem e me apresentar. Dizer à eles quem eu era e perguntar pela vida deles. Não me arrependi, pois conheci bem uma banda excepcional que não só trabalha suas canções com maestria é uma identidade cigana (como sugere o próprio nome da banda) mas também com muita viagem de qualidade. Essa canção faz parte do disco "Mosaique" de 1989. Segue a letra:




El Camino
(Reyes/Bailardo)

Yo me encuentro triste y solo
Y buscando por la calle
Mi camino

Porque soy un vagabundo
En mi tierra, en el mundo
Mi Camino

Yo me encuentro triste y solo
Y buscando por la calle
Mi camino

El camino, mi camino
El camino del verano
Y yo soy un vagabundo
Yo me voy por este mundo

La guitarra entre las manos
Tocando por mis hermanos
El camino

La mujer que yo mas quiero
Es la que me sigue fiero
El camino

Yo la quiero tanto tanto
Y por ella canto canto
El camino

La guitarra entre las manos
Tocando por mis hermanos
El camino

El camino, mi camino
El camino del verano
Y yo soy un vagabundo
Yo me voy por este mundo

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

O leitor que me conhece pessoalmente ou que já acompanha o blog há algum tempo sabe do meu fraco pela estrada. Meu apelido de "Andarilho" não é à toa. Desde jovem sou fascinado pela ideia de colocar uma mochila nas costas e cair na estrada - seja a pé, de carro ou de avião. Um propósito para a viagem pode ser importante ou não. Às vezes apenas vagar sem rumo já é suficiente para um amante da viagem. A estrada física também é outro detalhe de pouca relevância, afinal a viagem pode ser apenas mental - não foi George Harrison que disse, inspirado pelo I Ching, que podia ver todas as coisas do mundo sem sair pela porta? Pura verdade. A viagem é assim - aprende-se de qualquer forma. Quando criança meus heróis eram todos andarilhos: de Kenshin Himura (de "Samurai X") à Gandalf (de "Senhor dos Anéis"); de Link (da série "Zelda") à Son Goku ("Dragon Ball"). Todos com suas missões e inimigos à serem vencidos durante uma longa jornada por terras misteriosas. Na religião não poderia ser diferente: Jesus Cristo e Buda eram ambos bons caminhantes e cruzavam terras longínquas à pé com força de vontade divina. Nos campos da arte a influência do cavaleiro solitário me fisgou de diversas maneiras, ao exemplo da história real de solidão e felicidade inabalável de Christopher McCandless (que virou livro e filme intitulado "Na Natureza Selvagem")ou nas "Crônicas de Artur" vividas por Derfel Cadarn e escritas por Bernard Cornwell. De uma forma ou de outra, a imagem de um homem de costas com apenas a estrada e o desconhecido à frente sempre me encantaram. Na música não poderia ser diferente e essa foi a principal inspiração para o registro de músicas viajantes que originou esse blog. Foi com Johnny Cash, a encarnação exata do andarilho e com Fernando Noronha que aprendi a viajar pelas estradas da vida por meio do som. Se Gypsy Kings me atraiu pela qualidade com que o grupo trabalha suas canções em um estilo espanhol com guitarra flamenca foi em El Camino que percebi que não poderia deixar de falar dessa banda. O tom da canção lembra O Cigano, do Made in Brazil. Não por acaso "Gypsy" é a palavra em inglês para se referir àqueles que vivem em comunidades itinerantes, são bons comerciantes e alguns oferecem serviços místicos como leitura de mãos e cartas de tarô. Se há reis entre os ciganos, esses com certeza formaram uma banda e emprestam seu talento para o mundo com músicas incrivelmente emocionantes. Se na obra brasileira o Made in Brazil usa um personagem para descrever o espírito andarilho de estar sempre em movimento em busca de conhecer o mundo e a si próprio, aqui a mensagem é a mesma. Nicolas Reyes diz com sua voz aguda e arrepiante: "Me encontro triste e solitário, buscando pela rua o meu caminho. Pois eu sou um vagabundo, na minha terra, no meu mundo. Meu caminho". Cada vez que o título da canção é cantado, ele vem num ritmo delirante que alonga o balanço original comandado pelas violas espanholas rápidas e precisas como a determinação de um viajante. No refrão o cantor diz "O caminho, meu caminho. O caminho do verão. Eu sou um vagabundo e me vou por esse mundo". Ao fundo podemos ouvir de leve uma sanfona que traz notas belíssimas e suaves num desfecho delicioso aos versos. Há ainda outros detalhes que merecem menção como os backing vocals tranquilos em alguns pontos estratégicos, além de um piano que desfere apenas poucas notas, porém todas excepcionais. O resultado é de uma perfeição que minha vó definiria assim: "sem tirar nem por". Como se não bastasse, o vagabundo-narrador tem ainda duas paixões: a viola que o acompanha em todos os passos e uma mulher que oferece seu amor enquanto o segue e o inspira a compor e "cantar por esse mundo". Não há imagem mais instigante do que esse herói que caminha pela vida cantando por seus irmãos em cada cidade ou vilarejo, sempre amando e aprendendo; ensinando e descobrindo. Afinal o mundo é grande e maravilhoso e há tanto para ser visto, tantas pessoas com quem compartilhar momentos únicos, tantas formas de ver Deus. Então pegue sua guitarra, uma mala pequena e saia por aí. O caminho é longo e começa na saída da sua porta de casa ;)

2 comentários:

Kátia Perazza disse...

Lindo texto. Linda música. Até em mim, que já "passei", deu vontade de pegar a mala, fechar a porta e ir pelos caminhos do mundo.

Andarilho disse...

Obrigado pelo comentario tia!! Viajar é tudo de bom nessa vida!

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