Mais um livro do Andarilho

2.0.1.3

30/12/2013

Uma estrada cheia de altos e baixos, mas incrivelmente deliciosa de ser percorrida

Acaba aqui mais um ano de viagens musicais - a maioria delas, dessa vez, registrada aqui do outro lado do mundo, na Austrália. Como de costume trago para a viagem que encerra o ano a banda que mais tocou no meu player durante 2013. E esse ano quem nunca descansou no meu fone de ouvido foi Orishas, banda que eu já admirava desde algum tempo atrás, mas que curiosamente só apareceu aqui no blog pela primeira vez esse ano. Foi ela, aliás, a responsável pela quebra da barreira de sonoridades diferentes do Rock. Ao som dessa banda tão especial, viajo um pouco sobre o ano que passou. Essa canção faz parte do disco de estréia dos Orishas, chamado "A Lo Cubano", lançado em 1999, ano que deu nome à canção. Segue a letra:




1.9.9.9
(Medina/Romero/Rivero)

Oye nena
dice que ......
conmigo no quiero cuentos ni chismecitos
tu sabes ......
telarañas conmigo
deja eso !
y esa nota?

soy lo que buscabas para darle a tu existencia una razon de ser
reconoce, te toque
no me pare sin mi melodia
llegue y plante mi bandera
donde a ti mas te dolia
y ya tu ves
te me cole
por donde no imaginabas

a mi tu no me engañas
yo soy maña de maraña
me extraña que siendo araña
de la pared tu te caigas

vamo' a consumirla
vamo' a consumirla que te gusta a ti
no me dejes solo

consume musica cubana
banamamasi yusanamama aha

vamo' a consumirla
vamo' a consumirla que te gusta a ti
no me dejes solo

mi ritmo orisha viene a prisa
no es cuestion de risa
yo vengo suave, suave como la brisa
mi rumba no te avisa
mi caña con petate, risa
el mundo es mi objetivo, quiza
mi flow que flota entre mis notas
tengo mis dones, mis ambiciones
busco cima como Al Capone

a mi tu no me engañas
yo soy maña de maraña
me extraña que siendo araña
de la pared tu te caigas (2)

y asi entro mi voz, locolo
ruso feroz, locolo
tu vas a ver que esto es poco
lo que falta es mi tono para volverte loco
hoy me diploman con el titulo honorario de Don Rima
y aqui en la cima, mi flow te rompera el pescuezo
to'os los huesos
del dicho al hecho aqui no hay trecho
hago efectiva con la mezcla mi doctrina
de ti chico malo yo sere tu pesadilla

tumturum
tumbando andas como Juanito alimañas
si te ve tu mala maña
criticando todo paisa
pero calma, ponle salsa
y hazme solo ese favor
que te doy tu descontrol
mi flow en tiempo sobre el micro
si tu quieres yo te explico
chico, nada entenderas, comprenderas
y mucho menos captaras
aha

a mi tu no me engañas
yo soy maña de maraña
me extraña que siendo araña
de la pared tu te caigas (2)

Ahora que ....
dime ya la verdad
te estremeci tu existencia, tu cuerpo y tu alma
quedaste alucina'
se que te voy a sorprender buscando
la oportunidad, bombon
de entonar mi melodia
de repetir mi filosofia
y de robarme mi corazon
cuidate nene
mira que yo soy la escuela ......
de pelea

a mi tu no me engañas
yo soy maña de maraña
me extraña que siendo araña
de la pared tu te caigas

te sorprendi (uh)
luego no digas que no te vi (a yo!)
a mi tu no me angañas (que va!)
saca de tu mente ya esa mala maña

te sorprendi (ay)
luego no digas que no te vi (a yo!)
a mi tu no me angañas (que va!)
saca de tu mente ya esa mala maña (sacala, sacala !)

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Conheci Orishas mais ou menos em 2007 e desde então o grupo cubano de Hip Hop nunca mais me deixou em paz. Não sei ao certo o que vi além da grande qualidade das músicas. Talvez tenha sido o espanhol, idioma tão próximo do nosso, mas tão difícil de entender. Ou quem sabe foi o título da banda que faz referência à crença afro-brasileira - em igual medida misteriosa e bonita. Não, não foi só isso. Havia algo mais ali. Algo que mexia com o que havia de secreto e místico dentro do meu coração. Algo que ativava o meu espírito aventureiro e andarilho. Assim como Bilbo, meu lado Tûk estava adormecido, mas Orishas tentava acordá-lo aos poucos com sua batida latina de ritmo dançante. Na minha mente eu já podia imaginar minhas viagens pelo mundo começando até chegar no Caribe e, por consequência, em Cuba, cidade originária do grupo. Lá eu dançaria nas festas de frente para o mar com pessoas bonitas e amigáveis, além de drinks exóticos e um calor tropical sensacional. Minhas viagens de fato apenas começaram, mas não é por acaso que aqui na Austrália foi o lugar onde ouvi Orishas mais do que qualquer outro. Eu estou na estrada com eles. Eles me dão impulso para continuar conhecendo e explorando o que o mundo tem guardado por aí. Mas não pense que a estrada é fácil. 2013 marcou a trajetória da minha vida no ponto em que me mudei para Perth, mas a estrada foi cheia de curvas, pedras, subidas e dúvidas que apareciam em cada bifurcação. E quantas bifurcações... Mas com o poder da música é fácil ficar tranquilo e lembrar-se de que todos os caminhos levam para um mesmo Deus. Com Orishas me lembrei de que há apenas um caminho e que cada travessa, trevo ou bifurcação são, na verdade, apenas variações desse mesmo caminho. Cada trecho reserva cenários e aventuras diferentes, é verdade, mas todos são válidos e valem uma parada para tirar foto à cada curva. A Austrália é um país bonito e bom de se viver. Talvez seja o melhor país para viver se você tiver sorte de ter um passaporte europeu ou asiático e inglês fluente. Nesse caso, oportunidades de emprego altamente bem pago, um clima maravilhoso e paisagens paradisíacas são uma constante. Já, para os meros mortais do terceiro mundo a vida aqui não é nada fácil e apenas as duas últimas opções continuam disponíveis - não por acaso por que são de graça. Aqui tudo é caro. O custo de vida é altíssimo e, no começo, a dor no coração é constante ao ver seus reais sendo reduzidos à metade para pagar coisas que custam o dobro do que no Brasil. Outra grande pedra no caminho - daquelas grandes, difíceis de contornar - são os cursos. Para o nosso tipo de visto (estudante) é obrigatória a matrícula em algum curso qualquer. O problema é que mesmo que você procure pelo famoso "curso mais em conta" vai descobrir que ele não é tão mais barato quanto os outros. Assim como a população vive numa maioria classe média com pouca diferença social, pode-se dizer que o capitalismo segue a mesma linha. A concorrência não é tão acirrada quanto no Brasil, o que é bom para a economia local, mas terrível para aqueles a quem qualquer trocado faz toda a diferença. Sim, nosso visto permite trabalhar aqui, o que ajuda com essas contas, mas sem experiência ou qualificação local (seu diploma brasileiro aqui vale menos que um pacote de jujuba) o emprego daqueles que chegam na Austrália é geralmente o de garçom ou faxineiro que são as profissões mais mal pagas do país. Não é tão mal pago se compararmos com o garçom ou faxineiro brasileiro, mas considerando o alto custo de vida aqui a conta não fecha e é realmente difícil sobreviver. Nessa cadeia alimentar totalmente desfavorável, literalmente vendemos o almoço para pagar a janta. Se quiser renovar o visto, então... Que Deus e a Força esteja com você. São tantas taxas e altas cifras que cogitar a venda de algum rim ou fígado não é algo raro entre os estudantes. Para piorar ainda mais o quadro, tais profissões são mais requisitadas nos finais de semana, o que dificulta a apreciação do clima e da paisagem gratuitos citados anteriormente. Todos seus amigos estão no mesmo barco, o que te coloca um pouco pra cima, mas é tão difícil conseguir conciliar o tempo livre de todos para uma merecida cerveja que você logo volta pra baixo. Se eu comentar sobre o preço da cerveja é para a depressão chegar de vez. Dúvidas, angústias e cansaço físico são uma constante aqui. Há quem, apesar de tudo, encontrou aqui o paraíso, mas talvez para tais pessoas dinheiro não é um fator preocupante e isso torna a vida boa em qualquer lugar. No meu caso, a "corrida pelo ouro" tornou a estrada mais árdua e o gosto australiano mais amargo. Tirou um pouco do brilho do sol, mas sem camada de ozônio, acabei me queimando do mesmo jeito. Não me arrependo de ter vindo. Nem pretendo desencorajar alguém que pense num intercâmbio na Austrália. Essa ainda foi a maior experiência que tive na vida e minha melhor decisão. Como disse Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". Por tudo que aprendi, por tudo que vi, pelas músicas que ouvi e pelas pessoas que conheci sei que cada passo nesse tortuoso caminho valeu a pena. Aliás o que ficou para trás também mudou para melhor para mim. Como predisse Amyr Klink, eu aprendi a valorizar meu próprio teto ao perdê-lo. Minha casa, meu país, minha família e amigos tão longe agora me são ainda mais caros depois que me afastei deles. Isso só tornará nossa relação mais especial quando eu encontrá-los de novo. Outro mestre, dessa vez Tyler Durden, ensinou que só quando perdemos tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa. A Austrália me libertou. Cresci, aprendi, evoluí e agora sei que posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Me descobri invencível, como todo ser humano que conhece a si mesmo. Os limites são apenas aqueles que eu mesmo colocar na minha frente. Há muito o que ser visto e a estrada segue sempre em frente com o mundo como testemunha nos abençoando e oferecendo seus presentes diários. Um deles é Orishas e suas canções tão inspiradoras como essa. Seja lá qual for música que te moveu esse ano, dê graças à Deus por ela ;)

Feliz 2014 e que venha a estrada. Qualquer que seja, estaremos preparados!

3 comentários:

Ana Cristina disse...

Querido sobrinho,
Parabéns pela coragem e pela iluminação de se colocar On the road e de ir explorar novos e inesperados caminhos.
Como diz meu mestre Shmuel, o desvio é o caminho!
Tenho certeza de que um dia voce terá muito e muito para contar em sua Biografia.
Aliás é isto, a meu ver,o que diferencia todos nesta grande estrada é: olhar para si mesmo e ver quanto tem a contar de suas experiencias e vivências.
A vida está aí para ser experimentada, sofrida e brindada! Que 2014 seja para voce mais um ano mágico , cheio de saúde, amor e grandes alegrias!
beijos querido sobrinho de uma tia muito orgulhosa! PS - Adoro Orichas

Fabio CS disse...

Maravilhoso relato da experiência, sensibilidade, maturidade e observação crítica. Um abração.

Felipe Andarilho disse...

Tia e pai, muito obrigado não só pelos comentários mas com a própria inspiração de suas pessoas para que eu tivesse coragem e força de vontade pra vir pra cá viver essa aventura. Muito obrigado e que 2014 seja maravilhoso!

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