Mais um livro do Andarilho

Samba Rock

13/11/2013

Músicas para todos os trabalhos

No que se refere à minha vida profissional, acredito que tive muita sorte. Não que todos os empregos que eu tive foram estimulantes e ou tenham me oferecido ótimos salários com um bom pacote de benefícios. E não que eu tenha encontrado o emprego dos sonhos em qualquer uma das muitas companhias para as quais trabalhei. Acontece que aprendi muita coisa em cada uma dessas ocasiões e nenhuma delas me ofereceu um cenário insuportável. Geralmente quando saí de um emprego foi para tentar a sorte em outro. Às vezes a mudança foi positiva, outras vezes nem tanto. Mas não posso reclamar das experiências que tive, quando - e especialmente quando - às relaciono com o universo da música. Explico mais à seguir ao som de Seu Jorge, lançado em 2007 em seu disco "América Brasil". Segue a letra:




Samba Rock
(Jorge)

Acordo cedo para trabalhar
E chego cedo todo dia lá
Não falto nunca
Que é pra não deixar
Os homens terem do que reclamar

Um dia desses o chefe do setor
Que sempre tem algum veneno pra jogar
Jogou na cara do supervisor
Que o patrão falou
Que tá sem grana pra pagar

Vai lá
Se quiser falar com ele vai lá
Vai lá
Vai cobrar o seu dinheiro vai lá
Vai lá
É nessa grana que eu vou

O português me disse que não deu
Que a prefeitura ainda não depositou
Agora lá em casa como é que vai ser
Botei o meu moleque pra fazer judô

O japonês disse que lá não tem
Filosofia zen se não tiver dim dim
O senhorio não quer nem saber
Quer levar o dele quando o mês chegar ao fim

Quer dim dim
Quer dim dim
Quer dim dim
Dom dom

Ai dim dim
Que falta que me faz
Eu corro tanto atrás
E você nunca vem pra mim

Ai dom dom
Segura mais um mês
Que agora eu vou dançar
Um samba rock que é bom

Dê o play e comece a viagem:



Vamos à andança...

Logo que entrei na faculdade, há já alguns saudosos anos, comecei a procurar um trabalho justo e honesto que ajudasse a bancar com a caríssima conta do curso superior. Não encontrei nada. Passei a olhar para empregos não tão justos assim e a briga continuou difícil. Tentei de tudo. Desde algo relacionado ao mágico e maravilhoso mundo do design (área que eu estava estudando) até os trabalhos sazonais de shopping center. Sem sucesso. Até o que parecia impossível aconteceu: recebi um "não" de empresas de telemarketing. E foi mais de uma. Várias, na verdade. Algo parecia errado e eu já estava considerando vender alguns órgãos, até que finalmente consegui meu primeiro e tão sonhado estágio. Minha única função consistia em escanear jornais e editar as imagens. Logo peguei o jeito e o que parecia tenebroso no começo se mostrou bastante suportável. Tinha um pessoal legal e um deles me copiou um disco do Jack Johnson. Foi aí que me tornei fã de verdade de um dos músicos que mais admiro até hoje. Meus próximos cinco empregos foram também estágios, nos quais não permaneci mais que 6 meses em cada. Apesar do pouco tempo, aprendi lições valiosas em cada um, fiz bons contatos, algumas amizades duradouras e, acima de tudo, conheci mais e mais boas músicas que me transportavam - ainda que por poucos minutos - para universos melhores e mais justos, onde horas de sono eram mais que cinco e salários tinham mais de três dígitos. Trabalhei em um estúdio bacana onde o rádio ficava ligado 24 horas por dia na Kiss FM. Foi uma fonte inesgotável de sabedoria e Rock and Roll emanando bandas e canções todos os dias - de Duran Duran à Ronnie James Dio. No último dos meus estágios - e que se tornou meu primeiro emprego registrado - conheci dois gurus do Rock And Roll que sabiam mais de Rock do que a Wikipedia e o Kid Vinil juntos. Um deles era meu chefe e o outro um colega da mesma equipe. Com eles aprofundei meu gosto por Led Zeppelin e descobri bandas que jamais sonharia em conhecer como H-Blockx, Fernando Noronha e The Cult. Foi inspirado por eles que comprei um dos meus primeiros CDs com o suor do meu trabalho: "Purpendicular", do Deep Purple. Foi o começo de um hábito monetariamente doloroso mas imensamente satisfatório que resultou numa boa coleção de álbuns e que cresce até hoje. Eu gostava daquele emprego e poderia ter ficado lá até minha calvice e aposentadoria chegarem, não fosse uma relação terrível que tive com uma das gerentes. Sai de lá por causa dela, mas olhando para trás percebo que devo à ela toda minha gratidão, afinal, eu não estaria exatamente onde estou se não a tivesse conhecido. E estou exatamente onde eu queria estar. Antes de chegar aqui, porém, passei por uma editora de livros onde conheci um grande amigo e, com ele, bandas incríveis como Bon Jovi, Ugly Kid Joe e John Norum. Claro, eu também trabalhava, não apenas escutava música e logo subi de nível na cadeia alimentar e fui, pela primeira vez, trabalhar numa empresa de grande porte. Tive boas conversas com meus colegas de lá, especialmente com meu supervisor que apreciava tanto uma boa cerveja quanto o som dos Red Hot Chili Peppers. Subitamente e meio sem querer, subi de nível outra vez. Dessa vez fui parar na primeira multi-nacional da minha vida. Com o grande número de colaboradores vieram novas amizades e mais e mais boas canções. Cada emprego trouxe consigo toda uma uma nova sonoridade à minha vida. Achei que com a gigantesca virada na minha vida ao vir para a Austrália esse costume iria mudar. Não só eu estava enganado, como meu emprego aqui me mostrou como era incrível algo que eu sempre tive tão perto. Não sei se foi mais uma artimanha do destino ou pura coincidência, mas arrumei um emprego num café inspirado na Espanha. Com a língua latina vieram também as músicas do nosso lado do globo e como trilha sonora dos meus dias de garçom ouço maravilhosas salsas, inspiradores mambos e, mais incrível de tudo, música brasileira. Sim, o café australiano para o qual eu trabalho é ambientado na Espanha e toca MPB, samba e hip hop. Isso só prova mais uma vez para mim mesmo como tudo está conectado e como eu sou ignorante. Precisei vir até aqui para entender o quanto nossa música é boa e valiosa. Mas finalmente compreendi e valeu a pena. Várias músicas do Brasil fazem parte do meu dia e, foi ali, há milhares de quilômetros de casa que passei a apreciar ainda mais o trabalho do Seu Jorge. Se em toda essa viagem descrevi um pouco da minha vida profissional em busca, não tanto de aprendizado, mas muito mais de dinheiro, nessa canção Seu Jorge faz exatamente o mesmo. Dono de uma voz malandra e um swing contagiante, o sambista encarna um bom brasileiro e descreve como é suada sua batalha para conseguir o troco de cada dia. Mesmo com o atraso de pagamento na empresa e as contas batendo na porta, o cantor não perde a fé e a alegria. É com essa energia que ele canta o refrão, agradabilíssimo: "Ai dim dim. Que falta que me faz, eu corro tanto atrás e você nunca vem pra mim. Ai dom dom segura mais um mês que agora eu vou dançar um samba rock que é bom". A realidade é dura, mas é parte do dia a dia da grande maioria de guerreiros pacíficos do mundo. Nada vem fácil, os leões são bravos e a recompensa é curta. Mesmo assim, devemos aprender com Seu Jorge e não deixar de dançar um samba rock, mesmo sem dinheiro para pagar o judô do filho ou o aluguel que vai vencer em breve. Especialmente se essa samba rock vem com um ritmo maravilhoso no cavaco, uma cuíca empolgante e uma batida que não te deixa ficar parado. Devo reconhecer que é impossível não trabalhar feliz quando essa canção começa. Minha vontade e a de entregar os cafés dançando, mas enquanto minha habilidade não for boa o bastante para manter os pratos intactos é melhor eu apenas sorrir e cantar baixinho, afinal eu também preciso do emprego e do dim dim no final do mês ;)

2 comentários:

Cláudia C. Silva disse...

Felipe, adorei o seu texto descrevendo o seu "link" com a música, de alguma forma sempre presente durante a sua experiência profissional. A música do Seu Jorge é ótima, não a conhecia. Muito legal!

Felipe Andarilho disse...

Oi tia!! Fiquei muito feliz com seu comentário!! Essa do seu Jorge é muiti bacana, dá vontade de sambar, mesmo sem saber, hahahah.. Beijos!! Saudades

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...