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Veja-me, sinta-me

08/07/2013

Viaje comigo, eu sou Tommy

Dando continuidade às mudanças que os 500 textos me permitiram, hoje vou falar de um disco inteiro - e não apenas uma canção como sempre fiz. Mas isso não é audácia nem inovação de minha parte. É simplesmente por que é impossível falar de apenas uma canção do disco "Tommy" do The Who, lançado em 1969. Para ilustrar a viagem vou colocar a letra de See Me Feel Me, que é o ponto máximo dessa viagem sonora. Segue a letra:




See Me Feel Me
(Townshend)

See me
Feel me
Touch me
Heal me

See me
Feel me
Touch me
Heal me

Listening to you
I get the music
Casing at you
I get the heat
Following you
I climb the mountain
I get excitement at your feet

Right behind you
I see the millions
On you
I see the glory
From you
I get opinions
From you
I get the story

Vamos à andança...


Quando se trata de Rock and Roll muito se fala em "Álbum Conceitual". Essa ideia, para variar, começou com Beatles em seu excepcional "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", em 1967. No livro de Clinton Heylin sobre o disco do quarteto de Liverpool uma questão paira no ar: seria esse disco mesmo tão conceitual quanto seu marketing vendeu? Eu diria que sim, mas minha opinião é inválida. Afinal, sou beatlemaníaco. Mas como amante de Rock em geral percebi que discos conceituais nada mais são do que álbuns que trazem em toda sua concepção - desde as faixas até o encarte - uma mesma ideia. É o caso de "The Wall" do Pink Floyd ou "Thick as a Brick" do Jethro Tull. Comparado à estes, o disco beatle do Sargento Pimenta de fato perde um pouco do seu ar conceitual. Mas damos um desconto, pois foi o primeiro e o disco é maravilhoso de qualquer forma. Porém quando esses discos - ou qualquer outro considerado conceitual - são colocados ao lado de "Tommy" do The Who percebemos que a coisa é mais séria do que parece. Na verdade não há comparação. "Tommy" está num patamar acima de qualquer conceito. O principal motivo que me permite afirmar isso é a própria impossibilidade de eu escolher uma única canção dele para analisar. E não digo isso como um elogio exagerado como se todas canções fossem tão boas que seria difícil escolher apenas uma. Digo isso por ser metafisicamente impossível. As canções de "Tommy" são costuradas de alguma forma mística inexplicável que não permite sua separação. "Tommy" é como um cachecol e as faixas são os fios de lã. Se você separar as linhas, não há mais cachecol. Isso é um legítimo álbum conceito. Explicarei melhor. Escolhi falar sobre a obra See Me, Feel Me mas ela nem sequer consta na lista de faixas do disco! Conheci essa canção numa coletânea do Who, chamada "Then and Now". Meu sábio pai logo reconheceu que a obra fazia parte do disco de 1969. Nas primeiras vezes que o escutei, realmente ouvi ali minha tão cara canção. Mas espera aí, havia algo diferente nela. E ela era tocada duas vezes! Ou talvez três? Mas ela nem sequer consta na lista de faixas! Após ouvir o disco inteiro algumas centenas de vezes, percebi que a magia do Pinball Wizard é sua própria consistência. Não há como separar Tommy em faixas. Embora ele contenha 24, ignore os títulos, pois as canções de mesclam e vez ou outra parte de uma canção de repete ou é transformada numa viagem absolutamente deliciosa. O disco abre com Overture, uma apresentação instrumental que emana um pouco da glória que tem o disco. Outro trecho instrumental aparece no meio da saga. Underture tem 10 minutos, mas soam como segundos, tamanha a beleza da composição orquestrada pela banda. Aliás, para ser mais preciso, Underture dura 1 hora e 15 minutos, que é o tempo total do disco, pois como eu disse não há nada que separe a pista das demais. Numa cena épica do filme "Quase Famosos" a irmã mais velha diz para o caçula "Ouça Tommy com uma vela acessa e você poderá ver o futuro". É exatamente essa sensação ao escutar o disco. Enquanto faixas majestosas como Amazing Journey, Acid Queen e Pinball Wizard transcorrem é possível sentir o poder do futuro - cheio de cores e mistérios, tentador e incontrolável. Os trabalhos vocais de Roger Daltrey são destaque em praticamente todas as faixas. Cada vez que o vocalista grita "Tommy can you hear me?" ("Tommy, você pode me ouvir?") podemos sentir a tensão e paixão do narrador. Em Fiddle About há outro ponto chave que o Who sempre dominou: os backing vocals. Nesse trecho o balanço da canção é todo comandado pelo jogo entre os vocais, sensacional. Christmas é uma faixa de ritmo empolgante e evolução rápida. É nessa pista que See Me, Feel Me aparece pela primeira vez, mas aqui só temos uma estrofe dela. Parece que eles sabiam que esse é o ponto máximo do disco e então nos deram apenas uma degustação. Genial. Em termos instrumentais o disco é inteiro impecável. Peter Townshend, principal compositor do disco, solta riffs ótimos e viajantes à todo instante, quanto Keith Moon comanda a bateria com sua costumeira competência. Se há algo para dizer da música em si é que a guitarra e bateria, somadas ao baixo de John Entwistle são uma coisa só. Assim como as faixas não podem ser descoladas ou perderão sua essência, o mesmo pode-se dizer da instrumentação. Não há ninguém se sobressaindo ou ficando para trás. Não há solos frenéticos ou momentos de silêncio. Há apenas um fluxo musical poderoso e longo o suficiente para servir de pano de fundo para todos os atos. Na última canção do disco, We're not Gonna Take It, após um trecho acelerado e enérgico a obra cai para algo mais lento e finalmente podemos ouvir See Me, Feel Me na íntegra. Após dizer "Veja-me, sinta-me, toque-me, cure-me" com delicadeza, a bateria acelera e a obra ganha mais peso com os backing vocals angelicais cantando junto com Daltrey os versos mais bonitos dessa epopeia. Se é com eles que o Who fecha o maior disco que já lançaram e o maior disco conceitual que existe, não posso encerrar o texto de outra forma que não recitando sua beleza e contemplação na íntegra ;)

"Ouvindo você
Eu sinto a música
Protegendo você
Eu sinto o calor
Seguindo você
Eu subo a montanha
Eu sinto excitação à seus pés

Bem atrás de você
Eu vejo milhões
Em você
Eu vejo à glória
De você
Eu tenho opiniões
De você
Eu tenho a história"


Nunca ouviu?

Ouça com uma vela acessa e você poderá ver o futuro. Escute:

Opção 1 - Escute o disco inteiro.



Opção 2 - Escute See Me, Feel Me.

2 comentários:

Fabio CS disse...

Eu costumo dizer que é a maior e única no sentido de inigualavel do The Who.. irrepetitivel, original. ..e depois seguida na concepção de algum ópera por varias bandas como Pink Floyd, etc. Parabéns pela análise mestre Felipe. Grande abraço.

Fabio CS disse...

Eu costumo dizer que é o maior e único sucesso do The Who no sentido de inigualavel, irrepetitivel, original, precursor da chamada Ópera-Rock, depois seguida po várias bandas como Pink Floyd com Tehe Wall, Final Cut, etc. Parabéns pela análise mestre Felipe. Grande abraço.

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