Mais um livro do Andarilho

O homem da gravata florida

01/03/2013

Uma peça de vestuário que pode alterar sua percepção do universo

Em breve vou deixar minha casa por um período ainda incerto. Certo de que vou sentir falta de algumas sonoridades da terra tupiniquim, vou aproveitar o dia de hoje para falar daquele cara que é um dos grandes responsáveis por colocar a boa música brasileira entre as melhores do mundo. Estou falando de Jorge Ben, oriundo da terra do Rio, outro local que também me fará muita falta, mas que tenho como consolo a certeza de que um dia ali irei habitar. Essa canção é do lendário disco "A Tábua de Esmeraldas" de 1974. Segue a letra:




O Homem da Gravata Florida
(Ben)

Lá vem o homem da gravata florida
Meu deus do céu... que gravata mais linda
Que gravata sensacional
Olha os detalhes da gravata...
Que combinação de côres
Que perfeição tropical
Olha que rosa lindo
Azul turquesa se desfolhando
Sob os singelos cravos

E as margaridas, margaridas
De amores com jasmim
Isso não é só uma gravata
Essa gravata é o relatório
De harmonia de coisas belas
É um jardim suspenso
Dependurado no pescoço
De um homem simpático e feliz
Feliz, feliz porque... com aquela gravata

Qualquer homem feio, qualquer homem feio
Vira príncipe, simpático, simpático, simpático
Porque... com aquela gravata
Êle é esperado e bem chegado
É adorado em qualquer lugar
Por onde ele passa nascem flores e amores
Com uma gravata florida singela
Como essa, linda de viver
Até eu, até eu, até eu, até eu, até eu

Vamos à andança...

Há certos momentos na vida em que me encontro em tal estado de percepção na qual tudo à minha volta subitamente parece fazer sentido. Nesses raros momentos, minha consciência percebe que ainda que não haja letras pra compreender o universo, ele é completamente legível. É um paradoxo. Justamente no reconhecimento de não entender está o entendimento. É como se as peças de um quebra-cabeça, antes embaralhadas, passassem a se encaixar perfeitamente, mostrando não uma esperada figura ou mapa, mas uma pintura abstrata. Daí você se pergunta o que é mais abstrato: as peças misturadas ou totalmente encaixadas? Todas fazem sentido, tudo é perfeito. É nessas horas que você aprende pequenas lições em momentos aparentemente banais. Você vê uma formiga trabalhando na parede e entende o propósito da vida. Você vê um vendedor da loja da esquina trabalhando sorridente e percebe a importância da servidão. Você divaga esperando um trem na plataforma e se dá conta do quanto gosta do seu pai. Você vê um homem portando uma gravata florida e se sente capaz de descrever o universo. E é exatamente isso que Jorge Ben faz aqui. Dotado de sua característica ímpar de criar obras homéricas a partir de situações cotidianas, Ben descreve com o dom de um poeta parnasiano e a paixão de um trovador, a experiência magnífica que é olhar pra essa gravata. Indo nos mais minuciosos detalhes dessa peça indumentária, Jorge coloca em música seu fascínio e adoração sentidas, dizendo versos como: "Olha que rosa lindo azul turquesa se desfolhando sob os singelos cravos e as margaridas com amores com jasmim". Um dos trechos mais interessantes e por quê não divertidos é quando ele diz: "Isso não é só uma gravata. Essa gravata é o relatório de harmonia, de coisas belas". Usando do seu talentoso exagero, ele diz: "É um jardim suspenso dependurado no pescoço de um homem simpático e feliz". Pensando bem talvez não seja exagero. A gravata pode muito bem se assemelhar à um jardim suspenso. Só por ela ter o poder de inspirar uma música como essa, talvez sua beleza até ultrapasse à dos jardins da babilônia, por exemplo. Essa comparação soa ainda mais interessante quando pensamos no tal paradoxo universal. De um lado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Do outro uma simples gravata. Existem tantas gravatas, produzidas em série, vendidas em baciadas... Mas é aí que percebemos que o que é aparentemente simples é relativo. Houve ali, naquela singela gravata, não só o trabalho de centenas de pessoas na ilustração, confecção, produção e venda da peça, como foi necessária a percepção distinta de um artista como Jorge Ben para atestar sua verdadeira beleza. Nenhuma gravata é só uma gravata. Nenhuma pessoa é só uma pessoa. Nenhuma conversa é só uma conversa. Nenhuma música é só uma música. Ben diz: "Com essa gravata qualquer homem feio vira príncipe". Seguindo sua linha de raciocínio, com uma percepção diferenciada das coisas à nossa volta qualquer homem pobre vira rico. Qualquer homem triste vira um exemplo de contagiante e explosiva alegria ;)

Nunca ouviu?

Vista agora a gravata da percepção. Escute:

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