Mais um livro do Andarilho

Confissões à meia noite

26/02/2013

A música que remove medos e superstições

Quando apresento Robin Trower a alguem as pessoas normalmente desconhecem a banda e me pedem referências. Isso é normal no mundo do rock. Delatar o som de uma banda por alguma outra mais famosa com a qual ela parece ou pelas suas influências é uma das melhores formas de explicação musical. Para justificar Robin Trower, costumo dizer: "É tipo um Jimi Hendrix, só que com mais balanço". Antes de você, fã devoto de Hendrix, pegar essa faca próxima e endereçá-la à minha jugular, por favor leia a análise dessa canção do disco "For Earth Below" de 1975. Segue a letra:




Confessin' Midnight
(Trower)

Midnight and the jailer's watching
Thin dime can buy a soul
Midnight come and get me
In time you will start to know

Justified in satisfying
Your every sweet desire
Justified in satisfying
Your every sweet desire

Midnight black cat creeping
Headlights straight up ahead
While I watch the shadows
Sleep tight my sleepy-head

Midnight steam is rising
Got no self-control
Midnight beast is raging
In time you will start to know

You're justified in satisfying
Your every sweet desire
But don't you ever wonder
If there could be something higher?

Vamos à andança...

A proximidade entre Robin Trower e Jimi Hendrix pode soar como uma blasfêmia para quem cultua o lendário guitarrista negro como um dos deuses do rock. "Ora como assim alguém pode ser comparado ao Hendrix?" é a frase mais óbvia que vem a mente da maioria dos ouvintes. Eles tem razão em enaltecer o mestre. O cara é digno de todos os títulos e se o próprio Eric Clapton se assustou quando viu o bicho tocando, não sou eu quem vai dizer que o cara é mais ou menos. Pelo contrário, considero Hendrix como um verdadeiro monstro da guitarra. Mas ele tinha fortes concorrentes, dentre eles o próprio Slowhand e esse Robin Trower. Desprovido da fama do companheiro de atividade Trower foi mais para o lado underground do Blues Rock Psicodélico. Porém, enquanto Jimi transpunha as próprias loucuras e viagens alucinógenas nas suas obras - com efeitos sonoros, solos destorcidos e baforadas no microfone, Trower investia mais no ritmo e no balanço de suas composições. Não há ninguém melhor ou pior. É apenas uma constatação. Ouça Shame the Devil por exemplo. Percebe o ritmo? Agora ouça essa Confessin' Midnight. O negócio do cara é te fazer se sacudir numa dança inconsciente programada pelo riff potente de sua guitarra emaranhada ao baixo furioso de James Dewar. Esse último aliás era um dos grandes trunfos da banda de Trower, afinal o rapaz não só conduzia suas cordas com a mesma intensidade do exímio guitarrista líder como é dono de uma das melhores vozes do universo do Rock and Roll - sem exagero. Dewar não é um cantor virtuoso como Ronnie James Dio, nem rasgava tanto os vocais quanto David Coverdale, mas sua voz é grave e rouca na medida que um bom blues pede e tão enérgica e carismática quanto o balanço composto por Trower solicita. Enquanto o riff de Robin destrói numa vibração forte, subindo e descendo com a maestria de um arquiteto de pirâmides do Egito, Dewar solta os versos alongados sobra as confissões feitas na calada da noite. "Meia noite e o carcereiro observando, um centavo pode comprar uma alma. Meia noite vem me buscar" é apenas o começo. Mais à frente o tom macabro da letra continua: "Meia noite, um gato preto rastejando. Enquanto vejo sombras, minha cabeça pesa, sonolenta" e "Não há auto-controle. A besta da meia noite está furiosa" são outros versos que deixam tudo ainda mais sombrio e tenso. De certa forma não combina com o balanço, sempre rápido e viajante, com uma energia boa emanando das ondas e das cordas, mas casa com perfeição com a estrofe-chave que serve de refrão: "Justificada a satisfação de cada um de seus desejos" pois não há outra coisa que desejemos à não ser que o riff continue e a obra não acabe. Curiosamente na última estrofe ele muda o verso final para uma pergunta: "Mas você nunca imaginou se poderia haver algo ainda mais alto?" Se ele se referia à satisfação em ouvir tão excepcional canção, a resposta vem com a própria banda, quando a base mantida por James Dewar no baixo e Bill Lordan na bateria se tornam um papel de parede para a arte de Trower. O Guitarrista usa o trecho final da peça pra servir um banquete com sua guitarra. Ele cria um solo tão poderoso e viajante que passa a clarear qualquer vestígio de terror que possa ter permanecido com a letra. O solo é comprido e o riff vai seguindo, martelando, enquanto ele solta suas notas agudas e afiadas. Depois de alguns momentos, de cada final do riff passa a sair um efeito agudo em Talkbox que serve pra te levar ainda mais longe na noite. Em meio às pancadas fortes e as cordas rapidamente dedilhadas sua mente irá pelos cantos mais obscuros e inexplorados enquanto o sol está do outro lado do globo. Vai dos becos escuros aos postos de gasolina fechados - da luz solitária de um poste à um portão semiaberto de uma casa sombria com todas luzes apagadas. Não há vida visível, talvez você seja a única alma viva ali. Mas misteriosamente não há medo. Você está fundido na noite, fluindo com a brisa suave e emaranhado nas notas de Trower como se você e a música fossem uma coisa só. Robin Trower e sua banda te levam pras confissões da noite, só pra te lembrar que na boa música não há com o que se preocupar ;)

Nunca ouviu?

A rua é escura, mas você, ouvinte, nada tem a temer. Escute:

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