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Jardim do polvo

12/02/2013

Eram quatro mestres e não três

Engraçado como mudamos nossos gostos ao longo do tempo. John Lennon quase sempre foi meu beatles mais querido. George Harrison já ocupou o posto em alguns períodos. Com o passar dos anos, Paul McCartney caminha cada vez mais pra ocupar a posição. Mas algo que não muda é minha admiração por Ringo Starr. Não apenas como músico, mas também como pessoa - afinal Ringo sempre foi o mais correto e bondoso Beatle, sempre mantendo uma boa relação com todos após o término da banda e evitando falar mal dos amigos, artimanha vergonhosa que muitos deles não resistiram fazer. Desde que comecei a ouvir Beatles, tantos anos atrás, sempre tive um respeito enorme pelo baterista do quarteto. Esse texto de hoje é em homenagem ao maior e mais subestimado baterista do mundo. A canção faz parte do disco "Abbey Road" de 1969. Peço licença ao mestre para chama-lo por seu nome artístico. Embora ele não goste, há a força do hábito e o carinho de um beatlemaníaco em jogo. Segue a letra:




Octopus's Garden
(Starkey)

I'd like to be under the sea
In an octopus' garden in the shade
He'd let us in, knows where we've been
In his octopus' garden in the shade

I'd ask my friends to come and see
An octopus' garden with me
I'd like to be under the sea
In an octopus' garden in the shade.

We would be warm below the storm
In our little hideaway beneath the waves
Resting our head on the sea bed
In an octopus' garden near a cave

We would sing and dance around
because we know we can't be found
I'd like to be under the sea
In an octopus' garden in the shade

We would shout and swim about
The coral that lies beneath the waves
(Lies beneath the ocean waves)
Oh what joy for every girl and boy
Knowing they're happy and they're safe
(Happy and they're safe)

We would be so happy you and me
No one there to tell us what to do
I'd like to be under the sea
In an octopus' garden with you.

Vamos à andança...

Beatles era uma banda perfeccionista ao extremo. Em termos musicais (já que não podemos incluir nesse quesito todos os filmes) o grupo jamais trabalhou em canções que fossem "mais ou menos". Embora John Lennon vez ou outra tenha falado mal das próprias obras primas como Hey Bulldog e Eight Days a Week, todos sabemos que o músico jamais as teria lançado se não acreditasse nelas como canções realmente incríveis. Parte do sucesso dos Beatles ocorreu devido à exigência que eles tinham consigo próprios. Cada música do quarteto era gravada dezenas de vezes e cabia ao mestre George Martin - esse sim um legítimo candidato ao título de Quinto Beatle - trabalhar como formiguinha na montagem de cada trecho que saiu melhor em cada take, num delicado quebra-cabeça, lapidado com esmero por quem realmente amava o que fazia e amava aquela banda. Graças à esse conceito de devoção à música a banda sempre saiu do estúdio com o melhor material possível. Mas esse tipo de mixagem só era possível por que o grupo tinha na bateria um tal de Ringo Starr. O baterista dos Beatles, segundo afirmam os engenheiros de som que tiveram a honra de trabalhar com a banda, era um metrônomo vivo. A bateria é o relógio da banda e o músico conseguia manter o timing exato em cada take, sem acelerar ou desacelerar um décimo de segundo sequer. Graças à essa habilidade quase única de Ringo, Martin podia fazer a montagem final sem que a canção distoasse em seu ritmo. A proeza do baterista pode ser observada na canção The End, na qual o único solo de bateria da história dos Beatles registra precisas 126 batidas por minuto, segundo medições de um metrônomo qualquer. Para quem não acha esse solo tão virtuoso assim, podemos escutar canções como Rain e Helter Skelter e ver o quão poderosa eram as pancadas do mestre. Ringo também foi o primeiro baterista a usar baquetas como conhecemos hoje. Antes dele os bateristas usavam baquetas em posição transversal, como talheres, mas Ringo sabia que para fazer um Rock N'Roll de verdade era preciso colocar mais energia nas mãos, posicionando suas baquetas como martelos. Ou seja, se a sua banda favorita tem um baterista que usa baquetas assim (praticamente todas as bandas da atualidade), é mérito de Ringo Starr. Ouso ir ainda mais longe e dizer que se não fossem por Ringo os Beatles não teriam ido tão longe e o Rock seria muito diferente do que conhecemos hoje. Provavelmente seria bem menos emocionante. Quando algumas pessoas criticam o baterista por sua incapacidade como compositor há duas réplicas louváveis. A primeira é que o grupo já tinha em sua linha de compositores nada menos que John Lennon, Paul McCartney e logo atrás George Harrison. Numa banda com quatro integrantes existirem três compositores já é algo digno de nota. Muitas bandas famosas tiveram apenas um compositor em sua formação - e isso quando não faziam apenas regravações de outros artistas. Chega a ser irrelevante saber que Starr não compunha, tamanho era o material original que circulava ali. A segunda réplica, ainda mais acertiva é Octopus's Garden. A obra é uma das duas únicas composições de Ringo na banda de Liverpool, sendo a outra Don't Pass Me By do Álbum Branco. Diferente da anterior entretanto, Octopus's Garden pode ser considerada uma obra-prima, digna de figurar entre as melhores canções dos Beatles. Sua posição no lendário disco "Abbey Road" é prova disso. A música tem um balanço delirante que claramente remete ao oceano. A guitarra de Harrison soltando cordas agudas e o piano com seu riff suave logo nos conduz à uma viagem ao fundo do mar, pelos coloridos corais e pedras em uma dança harmoniosa entre as algas e peixes, felizes por viverem usas vidas em perfeito equilíbrio, longe da destruição dos homens. Em alguns momentos os backing vocals aparecem ao fundo conferindo ainda mais delicadeza à peça. A letra conta o convite de um narrador à sua amada para viverem no fundo do mar, num Jardim do Polvo onde "poderíamos cantar e dançar à vontade por que sabemos que não podemos ser encontrados". Quando Starr diz "the coral lies beneath the waves" os backing complementar com perfeição: "Lies beneath the ocean waaaaaaves" ("corais que se deitam entre as ondas"). Temos ainda os efeitos de bolhas e água enfeitando a peça, mais um detalhe decisivo de George Martin em sua pós-produção magistral. O vocal de Ringo, com sua voz grave e caricata, sempre traz boas sensações a quem ouve. Sua voz reflete o que representa não só essa obra, mas sua própria importância na banda. Sua voz é única, como é ele próprio ;)

Nunca ouviu?

Adentre o jardim do polvo. Escute:

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