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Desafinando minhas cordas

11/01/2013

Amor comparado à música

Sinto orgulho quando paro pra pensar no primeiro disco que eu comprei na vida. Um dos meus primeiros salários me rendeu um dos CDs que até hoje escuto com o maior apreço. O disco do Deep Purple, "Purpendicular", lançado em 1996, trazia ainda na formação da banda, o recentemente falecido mestre Jon Lord, num momento de entrosação máxima do grupo. Essa canção de hoje faz parte desse disco. Segue a letra:




Loosen my strings
(Gillan/Morse/Paice/Lord/Glover)

Wake up in the morning
Get into bed
closing my eyes
I rest my head

There is no arrangement
No time no place
It's gone in the wind
and left no trace

Who can say,
maybe or whatever.
It's up to you
You know you can
trust me
I'll make it up to you

You move with the action
You loosen my strings
Your fingers
can smooth out my jangles
and all those things

Grease on the handle
and the tangles
in my hair
They always seem
to go together
I don't care

Vamos à andança...

Essa música é do tipo que prende a atenção logo nos primeiros segundos. Não sei por existe, mas existe umas função em alguns players que faz com que toquem apenas os primeiros 15 segundos da música. Essa função poderia ser chamada de "assassinar uma boa música". Apesar dessa tentativa de homicídio doloso musical, Loosen My Strings sobreviveria, pois você se sente tentado a ouvi-la por inteiro, preso sob seu feitiço. A canção inicia-se com uma pequena apresentação nas notas singelas de Steve Morse. O Guitarrista aquece com tranquilidade até que é surpreendido - junto com nós, ouvintes - pela bateria forte de Ian Paice e pelo baixo de Roger Glover, num momento inspirado que faz questão de roubar a cena. O riff do baixo - um dos melhores da carreira do Purple - prepara o campo pra guitarra que agora decide se tornar mais pesada e mais adequada a letra. Ian Gillan então adentra a obra com sua voz marcante, sempre afinada ao extremo, cantando em versos curtos: "Acordei numa manhã. Deitei na cama, fechei os olhos e descansei minha cabeça". O balanço excelente continua, conduzido pelo baixo implacável: "Não há acordo. Sem tempo, sem espaço. Foi-se com o vento e não deixou rastro". Aqui uma virada transforma o riff da guitarra de Morse em algo muito mais pesado e envolvente. Tal virada é pilotada pelo teclado de mais um mestre, Jon Lord, que faz questão de acelerar a peça, dando mais emoção à canção. Gillan aproveita o embalo e canta, numa puxada fervorosa: "Quem pode dizer 'talvez' ou 'tanto faz'? Isso é com você. Você sabe que pode confiar em mim e eu estarei lá". Um detalhe maravilhoso nesse trecho são as notas do teclado, rápidas sequencias que trazem um clima todo majestoso pra estrofe. É como se ela fosse cantada num local sagrado, em que apenas os versos fossem verdade e toda e qualquer palavra dita além deles não passasse de um mero som inteligível. Na estrofe final, o vocalista diz: "Você se move com a ação. Você desafina minhas cordas. Seus dedos suavemente tiram meu ritmo e todas aquelas coisas". Esse pedaço é cantado com leves backings que logo desaparecem pra virada incrível que retorna à estrofe anterior onde o narrador declama sua admiração pela pessoa em questão. Guarde esse verso: "Você desafina minha cordas". Agora lembre-se: estamos falando de Deep Purple, banda das mais importantes dos anos 70. Observe alguns pontos antes de prosseguir. Esse grupo que criou patrimônios como Perfect Strangers e Smoke on the Water. Banda respondável por lançar David Coverdale, o mesmo que cantou The Gipsy e Soldier of Fortune em sua passagem pelo Purple. Essa banda trata a música como matéria prima. Harmonia e perfeccionismo estão em seu DNA. Ritchie Blackmore e Steve Morse são dois dos guitarristas mais memoráveis da história, sem falar no próprio maestro Jon Lord. Pronto. Se uma banda com esse histórico diz que uma pessoa é capaz de "desafinar suas cordas", essa é, provavelmente, a forma mais inatingível e incomparável de devoção e respeito a alguém. Ouvindo Loosen my Strings, numa viagem transcedental, tal verso pode soar incoerente, dada a perfeição da obra. Mas serve como forma de colocar o amor em um nível platônico, daquele que nada pode abalar. Daquele que faz crer que, se um dia Deep Purple desafinar, então, realmente, tudo pode acontecer ;)

Nunca ouviu?

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