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Estivador

28/11/2012

Amor pelo trabalho

Pode-se dizer que o trabalho em si nem sempre é prazeroso. Aliás, em todos meus anos de vida, raras - muito raras - foram as pessoas que encontrei que diziam estar plenamente felizes com seus empregos. A maioria segue a linha de Wesley Gibson, em "O Procurado", enfrentando cada leão diário apenas para chegar no fim do dia e pensar, desconsoladas, que o dia de trabalho amanhã será igualmente sem vida. Afinal, qual o segredo para misturar trabalho e felicidade? É possível encontrar o emprego perfeito? Pensando nisso, trago essa canção de trabalhador, do Skank, lançada no seu maravilhoso disco "Calango", de 1994. Segue a letra:




Estivador
(Rosa/Amaral)

Açúcar no cais do porto
É na estiva, é na estiva
Ás vezes me sinto morto
A alma morta, a carne viva

Podiam me esquecer
É tudo igual, é todo dia

Disputas na estivagem
Viver de amor, calor e briga
Capo é um bom selvagem
Empurra o fardo com a barriga

Podiam reconhecer
Alguém mais fraco sucumbia
Mas eu aguento a carga do vapor
Sou calejado, sou estivador

As putas do porto partem
Na convulsão dos dias quentes
Que voltem, que se fartem
Com meu coraçãozinho ardente

Podiam lembrar de mim
Alguém sincero lembraria
Mas eu seguro a carga do vapor
Sou calejado, sou estivador

Vamos à andança...

Na minha relativamente curta carreira no maravilhoso mundo da comunicação nunca encontrei o emprego perfeito. Quando encontrei um emprego com colegas de equipe sensacionais, tive uma chefe insuportável. Quando encontrei um gerente legal, o ritmo adotado pela empresa era um inferno. Quando atuei com um serviço sossegado, a companhia não oferecia benefícios. Demorei, mas aprendi ainda novo que não há emprego perfeito. Talvez essas duas palavras sejam antíteses. Mesmo que você trabalhe no Google ou na Microsoft - empresas famosas pelas inúmeras regalias que seus funcionários têm direito - muito provavelmente algo ainda estará fora do eixo. A verdade é que trabalhar é um saco. Ver os outros enriquecendo graças ao seu suor, pouco inspirador. Mas se passarmos a olhar nossos empregos com outra ótica, talvez a coisa mude de figura. Seja você um diretor ou um estivador, seu trabalho pode ser visto como uma forma de servir ao próximo. Como diria o Caminho do Guerreiro Pacífico: "não importa o que você faz, mas como faz". E se você fizer com amor, tudo passará a fazer mais sentido. Repare. Se você escaneia jornais, preenche tabelas, lava banheiros, então que tal escanear jornais com amor, preencher tabelas com amor, lavar banheiros com amor? Lembre-se de que cada momento é único, por mais banal que ele possa parecer. Observe que cada jornal escaneado, cada tabela preenchida, cada banheiro lavado tem algo a ensinar. Além disso, cada minuto trabalhado é um minuto que não volta mais e mesmo que seu emprego daqui há alguns anos seja de Vigia de uma Ilha Paradisíaca você certamente vai lembrar da lições que aprendeu outrora com uma saudade boa na mente. É de se pensar que você provavelmente só estará nesse Emprego dos Sonhos graças aos duros trabalhos anteriores. Isso por quê tudo é uma servidão coletiva. Cada jornal, tabela e banheiro está interligado à milhões de outras pessoas - cada qual vivendo suas vidas especiais, com seu trabalho especial. Santo Agostinho disse: "Ame e então faça o que quiser". Pois bem, ame e faça seu trabalho. Nessa canção, Skank retrata com doçura e emoção o que é o trabalho de um estivador. Com um ritmo delicioso, firmado no Ska que a banda tanto caprichava em suas origens, Samuel Rosa solta versos icônicos na pele de um trabalhador braçal do porto. Ele diz: "Às vezes me sinto morto: a alma morta, a carne viva. Podiam me esquecer, é tudo igual, é todo dia". A repetição e a dor são uma constante no dia-a-dia desses guerreiros da vida. Mais a frente, ele parece reconhecer sua força quase sobre-humana: "Podiam reconhecer, alguém mais fraco sucumbia. Mas eu aguento a carga do vapor. Sou calejado, sou estivador". Esse último verso é orgulhoso. Não no sentido ruim, não no pecado capital. É o orgulho bom, que vive no fundo do coração daquele que ama o que faz. Mesmo vivendo de amor, calor e briga; mesmo com a saudade das putas do porto que nunca mais retornam, mesmo sem ser reconhecido, esse estivador ama o que faz. Como um Lutador, ele sabe que está ali, por que precisa fazê-lo. Por que nasceu para fazê-lo. Sem ele ali, outro provavelmente faria seu trabalho, mas não com o mesmo afinco, nem com o mesmo orgulho. Quando sentir que seu emprego não te merece, que seu trabalho é fútil ou que sua empresa é medíocre, lembre-se do orgulho do estivador, e trabalhe com amor, seja no que for ;)

Nunca ouviu?

Segure essa carga. Escute:

4 comentários:

Marcia Martins disse...

Vir trabalhar num dia como hoje, sanduíche de feriados, faz a gente pensar: Mas, 'pera lá... Vale a pena?
Espero mesmo que valha. Exatamente como você disse, temos aqui também coisas boas, coisas ótimas e coisas péssimas.
Mas...No final do horário, estou sempre querendo que venha a sensação de que cumpri o combinado.

Diego - Placenta disse...

Ótimo texto amigo!!! Uma reflexão importante é inspiradora!!!

Sonhei com o Samuel Rosa cantando essa música hoje...
Grande abraço!!!

Diego - Placenta disse...

Ótimo texto amigo!!! Uma reflexão importante é inspiradora!!!

Sonhei com o Samuel Rosa cantando essa música hoje...
Grande abraço!!!

Felipe Perazza disse...

Nossa, sonhar com música boa é sensacional!! Obrigado pela visita Diego. Abraços!!

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