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[SHOW] Hóstia

01/10/2012

Show dO Rappa em São Paulo, dia 28/09/2012

Pode-se dizer que, nesse ano, uma das bandas na qual mergulhei foi O Rappa. Eu já tinha alguns CDs dos caras, mas depois que comprei o excepcional "Rappa Mundi" (1996), no começo do ano, a banda dominou meus ouvidos e subconsciente como poucas outras conseguiram. Há alguns meses meu Mestre Renato observou que o grupo carioca viria à São Paulo fazer um show em setembro. Adquirimos os ingressos rapidamente e então aguardamos por um longo tempo até chegar o dia. Viagem pesada. Confira ao som de uma canção do último disco deles, "7 Vezes", lançado em 2009. Segue a letra:




Hóstia
(Falcão/Xandão)

Os que sobravam encostados no balcão
Ali permaneciam nos trabalhos
Em meio ao ar parado
Não se ouve tiros não há estardalhaço
Bicho-gente, bicho-grilo, quero que se dane
Olhos de injeção

Gatos humanos espreitam
Choram mimados meu rango
Gatos humanos espreitam
Choram mimados meu rango

Não dividiria com qualquer animal
Meu prato de domingo a carne assada é o principal
Mesmo um mendigo elegante da rua
Prato bonito ou feio minha cabana na minha angústia

Meu escudo meu escudo é minha hóstia
Meu escudo meu escudo é minha hóstia
Meu escudo meu escudo é minha hóstia
Meu escudo meu escudo é minha hóstia

Sentia proteção infantil
Mas permanecia assustado
Acuado em situação-hiena
Não sou carne barata
Varejo imaginando pedaço do atacado
Que pena...

Vamos à andança...


Quando contei a um amigo da empresa que iria no show dO Rappa, o cara olhou pro horizonte e disse com ar pomposo: "O Rappa... O show deles foi o melhor show que já fui na vida..." Na hora eu soube que ele não estava mentindo. Dá pra perceber quando alguém tem uma veneração sincera por uma boa banda ou boa música. E O Rappa é digno de tal constatação. Descobri isso na última sexta feira, no Credicard Hall. Não foi o melhor show da minha vida, afinal já tive a honra de presenciar alguns espetáculos de bandas que me são mais caras como Fernando Noronha, Paul McCartney e Jack Johnson. Mas pude constatar no show dO Rappa que, para quem tem na banda carioca sua música preferida, não há evento que se equipare. Mesmo com uma hora de atraso, logo nos primeiros segundos em que a banda surgiu já não havia ninguém parado. Quem não queria pular acabou sendo levado por osmose a bons centímetros acima do chão numa energia coletiva que poucas vezes pude presenciar num espetáculo. O próprio show dos Scorpions apenas uma semana antes era totalmente contrastado na minha memória. Enquanto os ouvintes da banda alemã permaneciam, em geral, tímidos, mas se soltavam gradualmente durante os números mais clássicos, no show dO Rappa poucos foram os momentos em que o público parou no lugar ou deixou de cantar junto com a banda. E já que estamos comparando, nem tudo são rosas na apresentação da banda brasileira. Se em eventos de rock internacional o público é mais preocupado com os vizinhos e com as drogas que consome, na apresentação do grupo de Marcelo Falcão não foram poucas as cotoveladas que recebi nos rins, no pescoço e em outras partes igualmente doloridas. Também não foram raras as baforadas de maconha de todos os lados, provenientes de pessoas que ainda não perceberam que são capazes de viajar apenas com a música. Mas tirando esses poucos fatores, sobre os quais uma boa dose de paciência pode sobrepujar facilmente, o evento foi completamente memorável. E falando das partes boas (que são muitas) da pra começar com a presença de palco de Falcão. O vocalista explode em carisma, enaltecendo a cidade de São Paulo, o público e seus colegas de banda como ninguém. Prova de que cariocas e paulistas podem se dar bem quando há uma boa música rolando. O público interagia e aplaudia a cada número, respondendo em alto volume canções clássicas da banda como O Que Sobrou do Céu, Pescador de Ilusões e Tribunal de Rua. Em momentos explosivos como Tumulto e Me Deixa a voz da platéia quase tornava inaudível o som da banda que por sua vez estava plugado na potência máxima, aquela de deixar todos com apito gostoso no ouvido após o show. Mas o ponto forte estava além do público e da banda. O que mais marcou a apresentação foi, na verdade, o jogo de imagens nos telões. Elaborado por uma equipe altamente competente cada canção vinha com um pacote de lindas fotos, ilustrações e colagens que serviam não só pra embelezar o palco, mas também para complementar a apresentação da banda numa sincronia absurda com o som. No caso de Cristo e Oxalá, por exemplo, foram usadas inúmeros signos referentes à várias crenças e religiões que se alternavam com imagens religiosas enquanto a letra conduzia os ouvintes por uma viagem que unifica todas as filosofias espirituais em uma só. E como a temática da banda muitas vezes vai pro lado espiritual, um dos momentos mais épicos do evento foi a canção Hóstia. Nela, fotos de Santos em saturação estourada permeavam grafites que exibiam a palavra Hóstia junto com a letra profunda entoada por Falcão. Com um ritmo suave, porém apreensivo ele apresenta a poesia sobre miséria e fome, descrevendo uma situação triste e real de muitas pessoas ignoradas pelo resto da sociedade. Ele declama num ritmo ótimo: "Não dividiria com qualquer animal. Meu prato de domingo a carne assada é o principal. Mesmo um mendigo elegante da rua, prato bonito ou feio minha cabana, minha angústia". Nesse ponto ele emenda o refrão belíssimo: "Meu escudo é minha hóstia", repetido incessantemente pelo público em uma só voz. O poder desse verso está em revelar uma hipocrisia cotidiana daqueles que vão à igreja, se entregam à Deus e à comunhão na Hóstia, mas são incapazes de olhar pelo pobre, aleijado e doente que os espera na porta de saída do templo. Nesse caso, como dito por Falcão, a hóstia se torna um escudo, onde o fiel pode se proteger dos gatos humanos, afinal, sua comunhão já foi feita. Essas pessoas esquecem que a verdadeira "Obra de Deus" é mais caridade e menos ritual ;)

Nunca ouviu?

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2 comentários:

Renato disse...

Foi um show muito bom, com um som de qualidade.
Banda de musicalidade sensacional, tem o peso e floreios da guitarra, marteladas nervosas da bateria, as firulas do DJ no início das músicas, as viagens dos teclados, e a força do vocal.
Com a sonoridade e o visual criado no palco, a banda consegue dar uma sensação de imersão na música, nos levando pra outro mundo.
Recomendo o show dos caras.
Os pontos fracos foram o atraso de uma hora e vinte minutos, e o som da casa estava muito alto. Alguns instrumentos ficavam abafados por outros. Se o som estivesse um pouco mais baixa daria para ouvir melhor os caras.

Andarilho disse...

Faaaala Mestre!! Com certeza! Estava alto demais o som, e quando isso acontece quase sempre não dá pra ouvir o vocal direito, fora os outros instrumentos que se sobressaem menos. Mas fora isso foi tudo Top! Um dos melhores shows que já vi, graças a Energia da banda e da galera que tava em nível alto. Abração, valeu pelo comentário!

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