Mais um livro do Andarilho

Até quando?

19/10/2012

A piada que já não tem mais graça

Em votação simbólica, os deputados brasileiros decidiram ontem que seus finais de semana mereciam ser engordados em dois dias. Indo contra toda e qualquer lógica universal, que prega 5 ou 6 dias de trabalho para cada 2 de descanso, nossos exemplares políticos resolveram mostrar mais uma vez que não podem ser enquadrados num grupo de cidadãos normais. Não basta um salário 33 vezes maior do que o mínimo nacional. Não basta dezenas de benefícios que permitem que esse salário possa ir integralmente para a poupança ou negócios próprios. Não basta não ter chefe, nem ter que prestar contas pra ninguém. Não basta uma aposentadoria vitalícia por alguns poucos anos de trabalho - se é que podemos chamar de trabalho uma atividade com as qualidades descritas acima. Não bastasse tudo isso, nossos Homens da Lei agora presentearam-se com um final de semana de dar inveja à reis: não trabalham mais nas segundas e sextas. É isso mesmo, enquanto a população acorda cedo para matar seus furiosos leões, os políticos brasileiros recebem cada vez mais regalias. Até Quando? Para refletir sobre esses fatos, uma canção cai bem. É do Gabriel, o Pensador e faz parte de seu disco de 2001, "Seja Você Mesmo (mas não Seja sempre o Mesmo)". Segue a letra:




Até quando?
(Gabriel, o Pensador)

Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer!
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Rindo da própria tragédia
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Pobre, rico ou classe média
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
muda que o medo é um modo de fazer censura

Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
O seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!!

A polícia
Matou o estudante
Falou que era bandido
Chamou de traficante!
A justiça
Prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado
E absolveu os PMs de Vigário!

A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que é pra você não ver que o programado é você!
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar!
Escola! Esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda! Não! Não!!

Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!

Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada

Vamos à andança...


Nunca fui muito fã do Brasil. Apesar de termos sido premiados com um dos mais belos cenários e uma das mais agradáveis condições climáticas, parece que a proporção inversa dessa equação se deu com as pessoas que controlam essa nação. Desde pequeno fui acostumado a viver num país onde tudo é difícil, onde é preciso aprender a desconfiar de todas as pessoas. Um país onde é preciso saber por onde andar. Um país no qual a malandragem é mais valorizada do que a sinceridade. Estranho. "No país do futebol eu nunca joguei bem", como diria O Rappa. Como eles, eu também não sei mentir direito. Não sei enganar os outros. Minha abençoada mãe me ensinou que roubar 5 centavos ainda é roubo. Meu querido pai me ensinou que trabalhar honestamente vale mais a pena do que passar a perna no colega pra subir de cargo. Heróis de livros e filmes me ensinaram que a maior dádiva que um homem pode atingir, é morrer tendo sido bom para o mundo. Alguns amigos me ensinaram que correr atrás de dinheiro é menos gratificante do que correr atrás de pessoas especiais. Apesar de tudo, acho que eu tive sorte. Descobri, ao longo dos anos, que nesse país existem pessoas muito boas. Descobri que amo o Brasil. E por amá-lo, sofro por ele. O Brasil é vítma de um câncer. Nossa doença são os políticos. Desde sempre, a corrupção ocupa o lugar de quem deveria conduzir o país pro sucesso, numa capital estrategicamente afastada da grande massa. Interesses pessoais imperam sobre as vidas das pessoas. Enquanto políticos roubam, para terem ainda mais do que já recebem por lei, famílias morrem. No filme "O Preço do Amanhã", um político corrupto diz: "Para que uns vivam para sempre, muitos precisam morrer". A analogia serve ao nosso país como uma luva. Deputados almejam vida eterna. Em troca, algum sacrifício é necessário. Que morram os que estiverem lá embaixo, certo? Não! O que os políticos esqueceram é que o poder é do povo. Eles só vivem por quê nós permitimos. Eles é que deveriam nos servir e não o contrário. Na maioria dos países civilizados, políticos trabalham de graça, por amor à sua cidade ou país. Aqui, além de salários extratosféricos, roubam ou criam leis que os favorecem - o que na prática é a mesma coisa. Até quando? Indignado com esse cenário Gabriel, o Pensador escreveu aquela que seria sua maior obra-prima. Até Quando? é uma música de protesto. Daquelas que definem uma geração. Se por algum milagre um dia o Brasil for consertado, se um dia as pessoas derrubarem o governo corrupto, se um dia forem instauradas leis dignas que ajudem os menos favorecidos, cuidem dos doentes e empreguem quem precisa trabalhar; se isso um dia acontecer, a história será contada ao som de Até Quando? Nessa obra o Pensador coloca um panorama completo da nossa triste realidade. Ao som da bateria poderosa de Memê que abre a canção com um batuque promissor, ele provoca: "Até quando você vai ficar usando rédea?" e "Até quando você vai levar cascudo mudo?". Eis que um grito apresenta uma virada que inicia, de fato, a música: "Muda que o medo é um modo de fazer censura!" O balanço então passa a ser conduzido furiosamente pelo baixo. A guitarra também cria um show à parte ao fundo, duelando com o baixo e resultando num ritmo feroz. Um sentimento que a música inteira pede e desenvolve com maestria. A violência que serve pra acordar, pra despertar. A agressividade que o Faith No More já instigou em Be Aggressive. Aquele murro na cara que você precisa receber, para agir. Gabriel, o Pensador solta a voz em versos cada vez mais rápidos que passam pela péssima divisão de renda brasileira ("Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente: seu filho sem escola e seu velho tá sem dente"), pelo corrompido sistema de justiça ("a justiça prendeu o pé rapado, soltou o deputado e absolveu os PMs de Vigário"), pela polícia bandida ("a polícia só existe pra manter você na lei: lei do silêncio, lei do mais fraco, ou aceita ser um saco de pancadas ou vai pro saco"). Em meio à esses problemas pornograficamente graves do nosso país, a questão que fica é refletida no refrão: "Até quando você vai levando porrada? Até quando vai ser saco de pancada? Até quando vai ficar sem fazer nada?" Musicalmente o refrão é forte, traz gritos vigorosos a cada repetição de "porrada, porrada", juntamente com o instrumental em ebulição ao fundo. A obra evolui num ápice, após uma acelerada perfeita de Gabriel, até culminar em palavras-chave: "Escola! Esmola! Favela, cadeia! Sem terra, enterra! Sem renda, se renda! Não!" Esse "não" é o nosso "não". É o nosso "basta". Chega de palhaçada. Chega de porrada. Chega de suar a camisa e não receber nada em troca. Chega de ser um brinquedo na mão do governo. É um chamado ao protesto, um chamado às ruas. Um apelo pela mudança! Vamos mudar nosso modo de pensar, nosso modo de viver. Não vamos mais só aceitar, vamos lutar. Só se indigna com algo quem ama algo. Gabriel, o Pensador certamente ama o Brasil. Se você também ama, mude esse país. É difícil, mas o poder está em nossas mãos e começa com nós. Então, "muda essa postura" ;)

Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!


Nunca ouviu?

Até quando você vai ficar sem ouvir? Escute:

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