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Tumulto!

23/07/2012

Um som tumultuado e incrível

Coloquei um disco do Rappa no meu celular esses dias. Era o segundo álbum deles, o "Rappa Mundi", de 1996, o qual eu nunca tinha escutado inteiro. Com o avançar de cada faixa fui logo percebendo que precisava comprar aquele CD. Quando chegou a antepenúltima faixa do disco - a canção abaixo - eu tinha certeza que devia passar numa das muitas lojas do Centro, onde encontrei meu alvo por 19 reais. A canção em questão agora não sai mais do meu aparelho de som. Segue a letra:




Tumulto
(Yuka)

Eu sempre penso duas vezes
Antes de entrar
Mas tem certos momentos
Que atingem o inconsciente popular
Inconsciente popular

Tumulto, corra que o tumulto está formado
Vem cá, vem vê, vem cá, vem vê-ê
Que dentro do tumulto pode estar você

Panela batendo, toca fogo no pneu, põe barricada
Velhos, senhoras e crianças
A mulecada pula, debocha e dá risada
Parece brincadeira, mas não é

A comunidade não aguenta tanto tempo sem água

Tudo bem ele era o bicho
Mas saiu daqui inteiro
Até chegar no hospital
Levou três tiros no peito
E a galera daqui
Fez igual fizeram em Vigário Geral
Todo mundo pra rua aumentar o som
Pra causar algum tipo de repercussão

Quando o monstro vem chegando
Chegando, chegando, chegando
E ameaçando invadir o seu lar
(Parado ae no memo lugar se não se corrê eu atiro)

Vamos à andança...

Sim, quando escutei Tumulto pela primeira vez, foi o famoso caso de amor à primeira ouvida. É um balanço tão excelente com viradas explosivas na voz de Falcão que é difícil não ser fisgado por essa obra. Falcão alterna os momentos de cantoria mais tranquila - se é que podemos chamar assim - com as aceleradas agressivas numa perfeita afinada na voz à lá Chico Science. Obviamente pra dar o ritmo pra esse balanço tumultuado fenomenal, Marcelo Yuka, ainda o baterista do grupo na época, não perdoa um pedaço sequer de seu instrumento, martelando os pratos e caixas como quem enfrenta demônios causadores de discórdia. Falando no músico, ele também ajudou a fundar a identidade poética do grupo com suas composições de cunho social e críticas fervorosas ao sistema e às autoridades (como é o caso da obra-prima O Que Sobrou do Céu). Tumulto não foge à regra com uma descrição poderosa dos conhecidos embates entre polícia e bandidos nas cidades - sobretudo em bairros mais pobres. O refrão excelente frisa: "Corra que o tumulto está formado. Vem cá, vem ver, que dentro do tumulto pode estar você". Tal constatação serve como reflexão sobre quem é a verdadeira vítima nesses casos de violência? Lembre-se que você não está de um lado ou de outro. Na verdade você está em todas as pessoas, afinal somos todos um conjunto de vidas interligadas e destinadas a compartilhar esse mundo. Você é o policial, você é ladrão que "levou três tiros no peito". Você é a galera que foi "pra rua aumentar o som pra causar algum tipo de repercussão". Esse é o caso em que todos saem perdendo. Em meio à versos tão bem escritos, podemos sentir a guitarra de Xandão destilando ao fundo e ajudando o balanço a se manter tão viajante. Há ainda no final uma frase de um jovem já devidamente iniciado no mundo do crime: "Parado no mesmo lugar senão se correr eu atiro". Em contraste com a voz assustada e os erros gramaticais, Falcão manda vocalizações afinadíssimas pra te fazer acordar e pensar a respeito dos Tumultos do dia a dia. Afinal, como eles mesmos dizem, parece brincadeira, mas não é ;)

Nunca ouiviu?

Vem cá vem ver, que nesse tumulto pode estar você. Escute:

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