Mais um livro do Andarilho

Muçulmano

28/01/2012

Fé, amor, saudade e uma música incrível

Conheci essa canção do Skank quando comprei o disco "Maquinarama" lançado em 2000. Desde então é por ela que eu espero quando coloco o disco pra tocar, sendo um dos pontos mais altos do mesmo, ao lado, é claro, de Ali e Ela Desapareceu. Como sempre, um dos méritos fica por conta da poesia. Segue a letra:



Muçulmano
(Rosa/Leão)

No quarto de hotel
Eu, devoto, me ajoelho
Na beira da cama encosto
Bem de frente pro espelho
E teu cheiro me vem de repente
Como uma assombração
Faz ranger o assoalho
E esquenta o meu colchão

Do muçulmano a Meca
Do santo a compaixão
Você é meu descaminho
É minha direção
Agora eu sei
Agora eu sei

A velha fotografia Amarela na carteira
Minhas longas costeletas
Seu cabelo de hospital
Quando tudo era engraçado
Quando em braços esticados
Conseguia te pegar
Quando tudo era legal

Do muçulmano a Meca
Do santo a compaixão
Você é meu descaminho
É minha direção
Agora eu sei
Agora eu sei

Tudo engraçado
Tudo é legal
O nosso começo
Não tem final

Parado, congelado
Tenho medo de andar
Se eu for pro lado errado
Posso me distanciar
Do ponto imaginário
Onde você deve estar
Que é pra onde eu me viro
Quando é hora de deitar

Do muçulmano a Meca
Do santo a compaixão
Você é meu descaminho
É minha direção

Do muçulmano a Meca
Do santo a compaixão
Você é meu descaminho
É minha direção
Agora eu sei, you know

Tudo engraçado
Tudo é legal
O nosso começo
Não tem final

Vamos à andança...

Muçulmano abre com um trabalho excepcional das cordas de Samuel Rosa e da bateria de Haroldo Ferretti. Ambos constróem um clima agradável, levemente agitado, mas com um quê hipnótico. O Baixo de Lelo Zaneti mantém a presença firme junto com as batidas, preparando o campo pra voz de Samuel. Ele começa a poesia, encarnando o personagem que está num quarto de hotel, ajoelhado à beira da cama e, repentinamente, é assolado pela lembrança de sua amada. O excelente paralelo com o religioso do título segue novamente quando a música entra no refrão. Uma virada maravilhosa cria um novo clima místico, ajudado pelos teclados de Henrique Portugal. Nisso, Rosa declama emocionante: "Do muçulmano a Meca, do santo a compaixão, você é meu descaminho. É minha direção". O desabafo contido perante à saudade sentida pela ausência de uma pessoa em questão é sensacional. Místico como a canção toda, sútil em todos os versos. O islã é uma religião muito bonita. A fé de seus devotos que peregrinam à cidade sagrada de Meca é algo, no mínimo, fantástico. Sentimento parecido com o que observamos nesse personagem, devoto e fiel ao seu amor, mas que por motivos desconhecidos, não pode estar com ela. Assim como crença tão bela de um Muçulmano, virado à Meca para orar, o narrador diz na estrofe mais bonita da obra: "Parado, congelado, tenho medo de andar. Se eu for pro lado errado posso me distanciar do ponto imaginário onde você deve estar. Que é pra onde eu me viro quando é hora de deitar". Em mais uma virada excepcional, Samuel Rosa canta com misto de tristeza e resignação: "Tudo engraçado, tudo é legal. O nosso começo não tem final". A instrumentação fenomenal segue sua viagem até sumir aos poucos, o que certamente não acontecerá com a do muçulmano - seja em Deus ou no amor em questão - nem com nosso amor por essa canção ;)

Nunca ouviu?

Vire-se em direção ao que você ama. Escute:

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