Mais um livro do Andarilho

[SOUNDTRACK] JCVD

25/01/2012

Mas não nos renderemos assim tão facilmente

A ideia inicial desse texto não era para a seção Soundtrack. Mas a conexão entre filme e música é tão boa que vale a pena o esforço. Jean-Cloude Van Damme foi um dos meus grandes ídolos da infância. Sempre apreciei atores especialistas em artes marciais e, ainda hoje, sempre que "O Grande Dragão Branco" ou "Desafio Mortal" aparecem na Tela Quente ou Temperatura Máxima, paro tudo que estou fazendo para curtir pela enésima vez o filme. Embora Van Damme não seja um ator reconhecido com estatuetas douradas de homens semi-nus, um de seus últimos filmes - JCVD - merece destaque pela sua atuação surpreendente, roteiro inteligente e uma canção excepcional. O filme foi responsável por me apresentar Baby Huey, primoroso cantor de Soul, que como seu próprio disco de 1971 afirma: uma lenda viva ("Baby Huey - The Living Legend). Segue a letra:




Hard Times
(Mayfield)

Cold, cold eyes upon me they stare
People all around me and they're all in fear
They don't seem to want me but they won't admit
I must be some kind of creature up here having fits

From my party house, I'm afraid to come outside
Although I'm filled with love I'm afraid they'll hurt my pride
So I play the part I feel they want of me
And I pull the shades so I won't see them seein' me

Havin' hard times in this crazy town
Havin' hard times, there's no love to be found

Havin' hard times, in this crazy town
Havin' hard times, there's no love to be found

From my party house I feel like meetin' others
Familiar faces, creed and race, a brother
But to my surprise I find a man corrupt
Although he be my brother, he wants to hold me up

Havin' hard times in this crazy town
Havin' hard times, there's no love to be found

Havin' hard times, in this crazy town
Havin' hard times, there's no love to be found

So many hard times...

Sleepin' on motel floors
Knockin' on my brother's door
Eatin' Spam and Oreos and drinkin' Thunderbird baby
(Wail) In this crazy town

Havin' hard times, there's no love to be found
Havin' hard times, in this crazy town
Havin' hard times, there's no love to be found

I'm sick and tired
I'm sick and tired of payin' dues baby
And I'm sick and tired of havin' so many hard, hard times baby
And from my party house, from my party house

Vamos à andança...

O filme:


JCVD é um filme diferente. Original e bastante curioso, merece destaque em muitos pontos. Primeiro é importante falar da direção. Mabrouk El Mechri, que assina a peça, claramente bebeu em ótimas fontes do cinema moderno como obras de Quentin Tarantino e Guy Ritchie ao realizar JCVD. Com muito estilo, flash-backs, cortes rápidos e enquadramentos diferentes, o diretor conta uma história deveras interessante. O roteiro, outro ponto excelente do filme, coloca diálogos afiados entre os personagens e mistura de forma inteligentíssima ficção e fatos reais da vida do astro de ação Jean-Claude Van Damme. Este, interpretando a si mesmo, se vê no meio de um assalto à banco, do qual se torna refém. Envolvido em um processo judicial pela guarda da filha e uma baixa na carreira, Van Damme visualiza, com o crime do qual é vitma, uma possível saída para exorcizar todos seus males. O filme é dividido em quatro capítulos e traz em seu recheio um sensacional monólogo de quase 10 minutos do ator. Frente a frente com a câmera e com o público, Jean-Claude coloca tudo pra fora num desabafo que ultrapassa qualquer fronteira cinematográfica e atinge em cheio fãs, críticos e todos que um dia já tiveram contato com a obra do lutador. É uma cena de trazer a famosa "lágrima-teimosa" ao olho esquerdo. Vale a pena ser visto. Sobre a atuação do astro, como não sou crítico de cinema, digo apenas que a Revista Time americana o colocou como a segunda melhor atuação de 2008 e soltou a seguinte frase: "Ele não merecia uma faixa preta, mas sim um Óscar".

Soundtrack:


Embora o monólogo de Van-Damme seja o ponto mais alto do filme, há um pico quase tão bom quanto logo que iniciamos o mesmo. JCVD abre com um take de gravação de uma cena de ação ininterrupta (literalmente) no melhor estilo filmado por Van Damme no ápice de sua carreira. Ironicamente, em meio a explosões, tiros, pancadarias e cenas exageradas, ouvimos ao fundo Hard Times de Baby Huey. A música tem toda uma malemolência e ritmo gostoso de ouvir. Com a voz marcante e afinada de Huey, é o tipo de canção para ouvir e viajar completamente. Não é o tipo de música de um filme de ação. Mas não estamos falando de um filme de ação, é claro. JCVD é um drama, e dos bons. Hard Times, a maior canção da curta obra de Huey, contrasta primorosamente com a cena inicial justamente pela sua letra. É uma poesia de desabafo. Assim como entrega o título, fala sobre os tempos difíceis que vivemos na nossa "cidade louca", do medo que passamos e da correria necessária para sobreviver. Em uma de suas estrofes, Huey diz: "Da minha querida casa, tento conhecer os outros. Rostos familiares, credos e raças, um irmão. Mas pra minha surpresa encontro um homem corrupto. Apesar de ser meu irmão, sei que ele quer me derrubar". Nisso ele já emenda o excelente refrão: "Tendo tempos difíceis nessa cidade maluca". É delicioso de ouvir. Faz viajar, ao menos mentalmente, para longe de qualquer loucura, qualquer maldade. Ao fundo, uma instrumentação impecável nos presenteia com uma batida ótima e trompetes inspirados. Enquanto ouvimos e vemos a cena protagonizada por Van Damme, percebemos que, mesmo enfrentando exércitos inteiros com apenas uma faca, difícil mesmo é viver o dia-a-dia desse mundo. Nosso herói de ação serve de ilustração para nossa própria vida. Ele já derrubou governos, nocauteou os maiores campeões marciais do mundo, destruiu ciborgues do futuro e inspirou uma geração inteira de fãs, mas nem toda energia basta para enfrentar processos judiciais, falta de dinheiro, burocracia e desvalorização profissional. As vezes dá vontade de fugir pra longe. Mas quase sempre temos que enfrentar. Se JCVD tem um propósito, além de mostrar o lado ator de Van Damme, acredito que seja o de nos inspirar a enfrentar a vida como se fossemos heróis. O que, aliás, nós de fato somos ;)

Obrigado, Van Damme.

Nunca ouviu?

Aqui segue a cena de abertura do filme na íntegra ao som de Baby Huey. Veja. Escute:

3 comentários:

Renato disse...

Sensacional

Renato disse...

Sensacional o filme e a música.
Vale a pena ter o CD desse mestre.

Andarilho disse...

Vale! Obrigado, mestre, por me indicar o CD do Huey. Simplesmente sensacional! Abraços

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