Mais um livro do Andarilho

Esquecemos de devolver

26/04/2010

Hoje é um dia histórico para o blog. Será a primeira vez que eu postarei sobre um beatle em carreira solo. Quando eu ainda não conhecia tudo dos Beatles, eu evitava um pouco pensar neles separados, mas não sei porque eu dizia a mim mesmo: "quando eu completar a discografia dos Beatles, vou ouvir o trabalho solo de George Harrison". Acho que foi por causa do cunho religioso que ele adotou em suas canções, além da simpatia que sempre tive pelo guitarrista. Sempre considerei ele "o mais gente boa dos Beatles". Mais até que Ringo Starr, veja só você. Bom, então comecei a ouvir bastante o antológico disco dele chamado "All Things Must Pass", de 1970, que só pelo título (e sua respectiva faixa) já daria uma viagem enorme. Mas a real lição de vida vem nessa música. Segue a letra:





Isn't It a Pity?
(Harrison)

Isn't it a pity?
Now, isn't it a shame?
How we break each other's hearts
And cause each other pain
How we take each other's love
Without thinking anymore
Forgetting to give back
Isn't it a pity

Some things take so long
But how do I explain
When not too many people
Can see we're all the same
And because of all their tears
Their eyes can't hope to see
The beauty that surrounds them
Isn't it a pity

Isn't it a pity
Isn't is a shame
How we break each other's hearts
And cause each other pain
How we take each other's love
Without thinking anymore
Forgetting to give back
Isn't it a pity

Forgetting to give back
Isn't it a pity
Forgetting to give back
Now, isn't it a pity

What a pity
What a pity, pity, pity
What a pity

Vamos à andança...

Essa música me chamou a atenção desde a primeiríssima vez que apertei o play no "All Things Must Pass". Foi uma das menos famosas na época, eclipsada pelo hino de amor à Deus My Sweet Lord, e a lindíssima What Is Life. Difícil competir, mas ao ouvir essa canção mais algumas vezes percebi ali, em meio à bonita melodia e a leve dramatização uma mensagem muito bacana. O riff de piano delicado apresenta a graciosa voz de George dizendo quase num sussuro: "Não é uma pena? Agora, não é uma vergonha? Como nós quebramos o coração dos outros, e os causamos tanta dor? Como nós tomamos o amor dos outros. Sem parar pra pensar, esquecemos de devolver. Não é uma pena?" Aqui Goerge solta esse leve "Isn't it a pity?" com uma profunda dor na voz, embora tão calma e marcante como sempre fora nos anos anteriores nos Beatles. Mesmo antes de ouvir qualquer trabalho solo dos quatro mestres fabulosos, sempre achei Harrison o melhor letrista deles. Isso se reflete aqui, numa poesia tão bonita e ao mesmo tempo triste; tão questinadora e ao mesmo tempo delicada. Além disso, a guitarra (um dos mais de 15 instrumentos que o cara dominava) também não deixa a desejar, e entra com um solinho suave que segue de perto as repetidas perguntas: "isn't it a pity?" ("não é uma pena?") num coro bastante bonito de ouvir. Nos minutos finais esse coro vai cantando a mesma frase, despreocupado - como se tivessem todo o tempo do mundo para divagar sobre a resposta. Essa instrumentação cria uma viagem sem igual, e, acompanhado da guitarra aguda já citada nos faz pensar mesmo sobre a resposta. Não é uma pena isso tudo? Não é uma pena tomarmos o amor dos outros e esquecer de devolve-lo? Não é uma pena "que poucas pessoas podem ver que somos todos iguais? E que por todas as lágrimas que carregam em seus olhos, não podem ver a beleza que os cerca?". Uma das minhas partes preferidas é um momento em que George se sobressai entre as vozes e pergunta quase num grito de lamentação: "Forgetting to give baaaaaaaaaaack..." - nem preciso dizer que é de causar arrepios. E se a intenção dele era fazer algum ouvinte realmente prestar atenção nessa lição e se questionar, posso dizer que ele conseguiu. Eu ouvi seu grito, e faço aqui a minha pequena contribuição à essa causa tão nobre: que prestemos um pouco mais de atenção aos que estão à nossa volta. Que sejamos um pouco mais pacientes e respeitosos. Pra finalizar deixo um diálogo que eu li há muitos anos no livro "Operação Cavalo de Tróia Vol. 1" que ilustra um pouco do que quero dizer, mas não consigo. Acho que Goerge Harrison aprovaria:

- O que é amar?
- Dar.
- Dar? Como assim, mestre?
- Simplesmente dar... Desde um olhar, até sua própria vida.
(Diálogo fictício entre Jasão e Jesus)

Nunca ouviu?

Isso sim é uma pena. Escute:

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