Mais um livro do Andarilho

50 anos de Sgt. Peppers no mundo e 15 na minha vida

19/06/2017

No final de maio o disco dos Beatles, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, completou 50 anos de vida.

Lançado em 26 de maio de 1967, o álbum é considerado um dos mais importantes da história da música e um dos melhores discos de Rock já produzidos.

Mas será que é pra tanto? Sgt. Peppers é assim tão bom? Sou fã de Beatles há tempo suficiente para realizar uma análise fria da obra e abaixo você vai entender o motivo de tantos títulos honoríficos.

Vamos à andança...


Eram os Beatles

Tratavam-se dos Beatles. Tudo que esses caras faziam era permeado por um hype tremendo. Não era por menos. Eles estavam no auge de suas carreiras. Eles já tinham dominado a América e a Ásia. Já tinham feito 2 filmes e a beatlemania havia se espalhado para literalmente todo canto do mundo. Para piorar (ou melhorar) no ano anterior eles haviam lançado nada menos que Rubber Soul (melhor disco deles na minha opinião) seguido por Revolver. Não era de se estranhar que o público esperasse mais uma obra-prima. Eu é que não queria estar na pele deles naquele tempo. A pressão devia ser imensa. Ou eles surpreendiam o público com mais um disco formidável ou seria criticados até a alma.

Leia também: Rubber Soul, um disco para a vida adulta

O Conceito


A grande genialidade do disco - muito mais do que suas músicas - foi seu conceito. Por mais que Cleiton Heylin em seu bom livro "Sgt. Peppers - Um ano na vida dos Beatles e amigos" tente desqualificar este aspecto da obra, usando inclusive palavras da própria banda, é inegável que Sgt. Peppers inaugurou um estilo de álbum pensado como um todo. Até então discos eram basicamente as canções da banda em uma ordem pré-definida. Em Sgt. Peppers, tudo segue um conceito, ou caso você não concorde com o termo, pelo menos uma direção artística encabeçada por Paul McCartney. A capa do disco, seu encarte, o marketing promocional e viral, as roupas que a banda usava e algumas canções do disco... Enfim, tudo girava em torno dessa mística figura do Sargento Pimenta e sua banda de Corações Solitários. Afinal, quem eram esses caras? De onde eles vinham? Tudo era uma viagem sensorial maravilhosa sem o menor sentido. Isso foi o mais legal do conceito: nada precisava de explicação.

A Capa


Sem dúvida a capa do álbum é um de seus pontos mais fortes. Ideia, mais uma vez, de McCartney, a capa reúne dezenas de figuras famosas que, de certa forma, chamavam a atenção da banda. Numa colagem meio dadaísta a multidão de papel se reúne atrás dos Beatles (devidamente trajados como uma banda itinerante). Completam o quadro muitas flores, cores e até mesmo uma boneca de criança com a camisa estampando um recado para a banda concorrente / amiga: "Bem-vindos de volta Rolling Stones". O resultado é uma explosão visual maravilhosamente confusa, mas que consegue trazer um quê de ordem à composição. O resultado foi tão poderoso que inspirou dezenas de capas de outros artistas, incluindo uma do nosso Zé Ramalho no disco Nação Nordestina.

As Inovações


Nem só de músicas boas foi feito o disco. Sgt. Peppers ainda trouxe uma série de amenidades que só contribuíram para o marketing em cima do disco. A novidade mais importante foi a inserção das letras no encarte. Foi o primeiro álbum a fazer essa prática que é usada até hoje pela maioria das bandas. Além disso o encarte trazia uma parte recortável com um bigode e listras de uniforme militar em tamanho real para que o ouvinte pudesse usar e se sentir ainda mais parte daquela festa bizarra.

Músicas


Talvez o ponto menos importante nessa análise. Não que Sgt. Peppers seja um disco ruim. Muito pelo contrário. É um álbum excepcional. Mas se você ouvir todos os discos dos Beatles e ranqueá-los do melhor para o pior é muito provável que Sgt. Peppers acabe exatamente no meio. De forma alguma isso quer dizer que o álbum é mediano. Estamos falando de Beatles, lembra? Tudo em que eles colocaram a mão acabou de uma forma ou de outra minimamente boa. Mas quando você compete com Rubber Soul, Revolver, Abbey Road e até mesmo o inaugural Please Please Me, é muito fácil acabar para trás.



Sgt. Peppers é um disco muito bom, mas que carrega algumas canções bem mais ou menos. A canção-título que abre o disco é fenomenal e sua reprise no final ainda melhor. With a Little Help From My Friends e A Day in the Life são duas obras-primas por si só. Lucy In The Sky é hipnoticamente boa. Getting Better é um gostoso hino ao otimismo. Lovely Rita é um Rockão viajante dos bons.

She's Leaving Home, Being for the Benefit From Mr. Kite!, When I'm Sixty-Four e Good Morning, Good Morning são canções médias numa escala Beatle (ou seja, ainda infinitamente melhores que a maioria das músicas do mercado). São boas, você raramente pula quando ouve o disco, mas não são aquelas que você quer repetir ou que quer ouvir isoladamente num dia ensolarado com seus fones de ouvido numa caminhada pela vida.



Na Minha Vida

Tenho um lugar especial para o Sgt. Peppers no meu coração. Ganhei o CD de aniversário em 2003, quando eu completei 16 anos. Uma idade emblemática. Tímido e nerd eu era o garoto com poucos (porém fiéis) amigos que preferia o silêncio à festa. Acho que eu estava começando a ficar adulto e não gostava tanto daquilo. Frequentava o colegial, meus últimos anos de escola. O final da minha infância inocente. Eu começava a sair pelo mundo. Gostava de andar pela cidade com meu discman e meu Sgt. Peppers me acompanhou muito nessas caminhadas solitárias, porém felizes. Era na estrada onde eu me sentia realizado. Livre das preocupações e pressões. Livre das desilusões amorosas e dos simulados para o vestibular. Com Getting Better e A Little Help tocando eu sabia que nada tinha a temer. Eu andava, sorria e o quarteto me dizia: fica tranquilo, vai dar tudo certo com uma pequena ajuda dos seus amigos. E tudo realmente deu certo. Mesmo sem saber isso na época, eu respondia: tenho que admitir, está melhorando toda hora.



Respondendo a questão que abre esse texto: Sgt Peppers, o conceito completo, e não só o disco, é realmente um trabalho sensacional. Merece todos os créditos ainda que, movidos pelo hype marqueteiro, alguns soem bastante exagerados.

E que venham mais 50 anos como um ícone da cultura.

[CONHEÇA] Os Absurdamente Bons Metal Covers de Leo Moracchioli

06/06/2017

Norueguês virtuoso usa talento para divertir no Youtube

Leo Moracchioli em ação. Foto: Divulgação

Não sou aquele grande fã de Metal Pesado. Gosto sim de muitas bandas do gênero, mas quando a coisa chega num nível muito extremo não consigo me deixar levar. Talvez seja o vocal gutural ou agudo demais, talvez a guitarra tão acelerada que acaba parecendo um MIDI do Mega Drive. Enfim, há algo nos Trash, Doom e Death Metals da vida que eu não consigo gostar.

Apesar disso acabei outro dia ouvindo canções do gênero por horas a fio. Fiquei aqui, no computador, trabalhando e sacudindo a cabeça. E o pior: eu estava rindo.

Rindo. Isso aí.

Trash é lixo. Doom é sofrimento. Death é morte. Da onde afinal podem sair risadas?

De um cara que não leva nada disso a sério, mas tem muita moral para falar. E a moral vem de uma habilidade absurda com a guitarra, bateria e vários outros instrumentos.

Estou falando de Leo Moracchioli.



Talvez você nunca tenha ouvido falar. Eu também não tinha. Mas logo que o conheci, passei aquelas várias horas escutando suas músicas.

E assistindo seus vídeos. Ah, que vídeos bons...

Agora você me pergunta: o que tem de tão especial nesse tal de Moracchioli que me fez não apenas desfrutar um estilo de Rock que não costuma me agradar, mas também viajar nele por horas e o pior: rindo?

Acontece que Moracchioli é um gênio dos instrumentos de Rock. Além disso o cara é talentoso para criar vídeos. Todos seus clipes são  inteligentemente produzidos e bem editados.

E tudo isso por que o cara tem um talento ainda maior do que tudo isso: o humor.

Bom humor.

O Metal é cheio de caras feias, xingamentos e invocações do mal tão batidas quanto exageradas. Ver um cara musicalmente fenomenal, mas muito bem humorado é um alívio para a alma. Você curte o som e sorri dos Metal Covers de clássicos do Rock como Wonderwall do Oasis, Californication do Red Hot e Black Hole Sun do Soundgarden.

Confira a versão Metal de Wonderwall:



Mas talvez as melhores versões sejam das canções Pop que o cara faz. Essas músicas citadas são boas de qualquer jeito e não deixa de ser interessante conferir versões pesadíssimas desses clássicos. Mas ouvir coisas como Shape of You de Ed Sheeran, Don't Speak de No Doubt e Get Lucky do Daft Punk numa versão extremamente pesada e suja é algo espetacular.

Tudo isso só fica ainda melhor com os vídeos.

Neles, o multi-instrumentista encarna seus personagens e faz piada deles e do próprio metal. Uma trança viking na barba em contraste com o óculos de nerd só servem para ajudar a levar tudo ainda mais na risada.

Com uma edição afiadíssima que acompanha de perto cada nota pesada e vocal gutural, o cara aparece tocando instrumentos de criança, vestindo perucas, fazendo paródias (Wonderwall é sensacional) enfim, se deixando levar pela energia da própria música que ele constrói.

Confira a versão Metal de Shape of You (Minha preferida):



Tiro meu chapéu para o cara.

O mundo está cheio de gente que fala demais e faz de menos. Gente que se sente superior por saber um pouco mais ou, pior ainda, por achar que sabe mais.

Ver um cara que toca tão bem quanto grandes guitarristas do mundo usando o que sabe com a única finalidade de divertir é, como dito acima, um alívio para a alma ;)

Confira a versão Metal de Get Lucky:


Só Diga Sim!

01/06/2017

Banda acostumada a falar de tristeza ensina com maestria o poder da resiliência

The Cure trazendo mais lições para a vida. Foto: Divulgação

The Cure é uma banda que, na maioria das vezes, enxerga o copo mais vazio do que cheio, se é que me entende. Eles são daquela linha alternativa dos anos 80 que encontrava na música uma forma de colocar pra fora toda sua mágoa, arrependimento, medo e desilusões da vida. Nada de ruim até aí. Afinal, quem não costuma, volta e meia, colocar um som mais melancólico para afinar os sentimentos?

É por isso que é tão interessante ouvir uma música do The Cure que seja exatamente o oposto do que estamos acostumados a ouvir. É o caso de Just Say Yes, canção lançada como single em 2001.

Vamos à andança



Você provavelmente já sentiu isso antes. Talvez você esteja até familiarizado com essa sensação. Ou pior: você até gosta dela. Aquela insegurança, aquele medo que parece bobo. Nada demais, você diz a si mesmo e arranja uma desculpa para não tentar. Estou cansado. Não estou com a roupa adequada. Esqueci de passar um perfume.

Você sabe que é tudo mentira. No fundo sabe. Tudo isso é uma encenação que cai como uma luva para você não se sentir mal ao encarar a verdade. A verdade é que você é um covarde. Você tem medo de não dar conta. Pensa que vão te achar um babaca. Acha que é pior do que o cargo que estão oferecendo. Ou que não vai conseguir segurar as pontas sozinho, naquela viagem.

Você é um bom ator. Age normalmente na frente dos outros. Consegue convencê-los de que te tudo sob controle.

Nenhum deles imagina o quanto você sofre quando ninguém está olhando.

E aí você coloca um The Cure, pois eles sabem, como nenhuma outra banda, como é se sentir pra baixo. Se sentir perdido, sozinho e angustiado.

Mas sem perceber você colocou Just Say Yes. E sentiu, ali, logo de cara, um ritmo diferente. Gritos femininos dando uma energizada no balanço que já era legal.

E eles, sim eles, afinal, trata-se de um dueto: Roberth Smith e Saffron, cantam juntos. Coisas bacanas. Coisas para cima. Coisas que você não estava preparado para ouvir, mas que despertam seu espírito como um bom e velho tapa na cara. A dor passa e o zumbido não fica. No lugar dele está o ritmo excepcional da música.

E você se pega acreditando, mais uma vez em si mesmo.

Se percebe capaz de qualquer coisa.

Se te pedissem agora para atravessar o oceano atlântico num barco a remo você iria. Se te desafiassem a cavar um túnel com uma colher, você tiraria de letra. Tudo isso por que a música fala coisas como:

Não diga talvez
Não diga não
Não diga espere
Não diga devagar
Não diga da próxima vez
Não diga quando
Não diga mais tarde
Não diga então
Não seja cauteloso
Não pense duas vezes
Não banque o seguro
Não o ponha no gelo
Não fique remoendo
Não chute prá lá e pra cá
Não espere e veja
Não tente resolver

Então não me diga
Que tudo podia estar errado
Não, não me diga
Que tudo podia estar confuso
Oh não me diga
Tudo podia ser uma perda de tempo

Apenas diga sim! Diga agora!
Se deixe levar!
Apenas salte! Não olhe!
Ou você nunca vai saber
Se você ama
Então venha e ame!

Apenas diga sim!

Essa é a força dessa música.

Você escuta é ela serve como aquela poção do Asterix. Você se torna poderoso. Maior e mais forte. Todo o medo e a mágoa ficam parecendo insetos pequenos e você nem mesmo tem vontade de esmagá-los por pura dó. Você sabe que tem domínio sobre eles. Não precisa da violência. Prefere lidar com eles do que simplesmente removê-los, como se isso fosse possível.

Então siga o conselho do Cure.

Pare de adiar. Pare de inventar desculpas. Pare de se reprimir. Pare de se preocupar.

Simplesmente tome uma atitude. Respire fundo, acredite em Deus e "salte sem olhar".

Aconteça o que acontecer, nada vai te tirar a adrenalina da "queda" e a glória de ter enfrentado o momento ;)

Meditando no Banheiro, meu novo livro será lançado no final do mês

18/05/2017

Isso aí, você leu direito!



No final deste mês será o lançamento do meu segundo livro.

MEDITANDO NO BANHEIRO chega exatamente 2 anos após o lançamento do meu primeiro livro, Heróis e Anônimos que, modéstia à parte, recebeu boas críticas dos leitores.

E foi justamente por eles, meus leitores, ou em outras palavras, amigos e familiares, que decidi continuar escrevendo de forma independente. Meditando no Banheiro será lançado no dia 27/5, sábado, e você, leitor do blog Músicas de Andarilho é, mais uma vez, convidado à participar desse momento.

Decidi continuar na escrita porque, além de gostar da atividade, fui convencido por bons amigos a manter o ritmo. Não viso fama nem viver como escritor, mas se um hobbie pode se sustentar e levar alguma mensagem positiva para as pessoas, então por que não?



Sobre a obra

O destino gosta de jogar com as pessoas. É preciso saber lidar com ele. Não se pode ignorá-lo, nem lamber as bolas dele. É preciso ser frio. O sábio reconhece a força do destino. Não luta contra ela, mas não espera nada realmente. Às vezes ele te leva para o outro lado do mundo para te mostrar algo que estava embaixo do seu nariz. Às vezes vira sua vida do avesso sem ter nada para dizer de concreto.

Quando era garoto, Roberto escapou até a praia e passou algumas horas em contemplação olhando o mar. Naquele dia qualquer, era só ele, o sol e o som do vento sobre as ondas. E o Faísca, é claro. O cão vira-lata e sujo chegou do nada e deitou no pé do menino. Por um momento que poderia ser uma vida, os dois ficaram ali em silêncio. Um lapso de entendimento numa vida enigmática. Da mesma forma que chegou, o cachorro se foi. Simplesmente levantou e foi embora. O bastardinho nem olhou para trás. O garoto cresceu e nunca parou de procurar pelo cão. Talvez seja pura infantilidade. Ou talvez, Roberto saiba, de algum modo, que o Faísca está por aí, em algum lugar. Ele só precisa encontrá-lo.

Não preciso nem dizer que essa jornada vem regada à muito Rock and Roll, né?


Te espero lá!

Se interessou por essa épica odisseia da vida cotidiana escrita em formato de crônica etílica? Então nos vemos no lançamento!

Data: 27/5
Hora: A partir das 17h
Local: Bar Jacaré Grill, Rua Harmonia 305, Vila Madalena, São Paulo
Não paga para entrar. Paga-se apenas o que consumir no bar.
Preço do livro: R$39,00
Pagamento em dinheiro, cheque ou transferência online.

Saiba mais

Meditando no Banheiro já está à venda no site da Editora Multifoco. Então se você não pode ir no lançamento, mas quer ler, pode comprar online clicando aqui.

Caso queira comprar meu primeiro livro, Heróis e Anônimos, clique aqui.

Assim falou Santo Tomaz de Aquino

12/05/2017

Desabafo do autor:

Caramba! Nunca consegui me dedicar tão pouco ao meu bom e velho Músicas de Andarilho. Mas a falta de tempo para essa atividade revela que estou ocupado com outros projetos, o que é um bom sinal. Em breve vocês ficarão sabendo de mais uma novidade bacana!

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Vamos à andança...

Mestre Jorge Ben traz mais uma canção elucidativa

Faz muito tempo que quero falar sobre essa canção.

Ela é do mesmo disco do Jorge Ben onde está a pérola sagrada Velhos, Flores, Criancinhas e Cachorros, uma das minhas músicas preferidas da vida, a qual uso como oração quase todos os dias. Mais precisamente, ela antecede essa obra, o que é ótimo, pois vai preparando o terreno para o papo mais intimista e religioso com ninguém menos que Deus do Céu.

Assim Falou Santo Tomaz de Aquino é, como muitas canções dessa fase de Jorge Ben um tanto quanto mística. Mas, diferente do mantra que segue ou da clássica Jorge da Capadócia, essa canção não é bem uma oração. É mais um exercício de filosofia. Se no disco Á Tábua de Esmeralda ele usa a filosofia para analisar a Alquimia e os Astros, aqui ele usa a ferramenta dos sábios para nos ajudar a entender nada menos que Deus do Céu.




Aliás, "ajudar a entender", pode soar um tanto contraditório. O que ele faz na verdade é nos ajudar a entender que Deus é inintendível. Conforme a canção avança, Ben explica, com as palavras de Santo Tomaz de Aquino - grande pensador e teólogo que, apesar de Santo, não se prendia à amarras da Igreja. Ele começa:

A semelhança da criatura com Deus é tão imperfeita
que não chega a ser um gênero comum, comum

Pode soar complicado, ainda mais com os versos que seguem, mas parando para a analisar fica fácil.

Deus é um ser Supremo. Todo Poderoso. Onipresente e Onisciente. Certo? Já nós, pobres humanos somos exatamente isso: humanos. Temos uma série de qualidade que, tenho certeza, deve fazer Deus se orgulhar, sendo a principal delas a razão. Mas mesmo usando todo nosso poder de raciocínio, algo que jamais vamos entender por completo é essa tal Onisciência e Onipresença. A final, como é saber tudo e estar em todo lugar ao mesmo tempo? Podemos ter uma ideia do conceito, mas jamais (pelo menos não enquanto não atingirmos a iluminação) saberemos como é a sensação de onipresença e onipotência.

Capa do disco Solta o Pavão, de 1975. Foto: Reprodução

Outros versos da obra dizem:

Deus não é uma medida proporcionada ou medido
Por isso não é necessário que esteja contido
No mesmo gênero da criatura

Esse é o ponto.

Deus é Deus. Homem é Homem. Temos limitações intelectuais que não nos permitem compreender diversos mistérios. O universo. A beleza da vida. O número Pi. É por isso que jamais poderemos dizer com certeza qualquer coisa sobre Deus. Tudo que podemos fazer são, como ensina a filosofia, conjecturas e hipóteses, mas nada é 100% concreto nessa vida.

Ilustração de Gustavo Dore sobre a Divina Comédia. Momento em que Dante visualiza Deus. Ótima forma de ilustrar a magnitude e complexidade do Pai. Foto: Reprodução

Dessa forma cai por terra qualquer definição que fazemos sobre Deus. Podemos dizer que Ele é homem velho de barba branca. Que Ele mora num castelo no céu cercado de anjos. Que Ele tem um globo onde vê todas nossas ações e depois nos julgará com base nelas. Parando para pensar um pouco esses conceitos se revelam um tanto infantis. Não temos culpa, porém. Diante da magnitude e complexidade do Pai, é isso que somos. Um bando de crianças inocentes que ainda não sabe nada da vida.

Você deve ficar chateado com isso?

Claro que não. Primeiro por que estamos aqui para aprender. E reconhecer a própria ignorância é o primeiro passo para um aprendizado sincero e eficiente.

Segundo porque parte da beleza Divina é a Fé. É aquela relação de confiança que você tem com Deus que, como muita coisa no mundo, não tem uma explicação final. Você simplesmente confia. E as coisas dão certo de um jeito ou de outro. Você não precisa entender Deus como uma equação matemática. Você talvez não entenda sobre ondas de calor e raios UV, mas sente o sol e confia nele para secar suas roupas ou para energizar seu corpo. Você não necessariamente entende de botânica e células, mas quando as flores bonitas nascem no seu jardim você acredita que há algo por trás daquilo.

Com Deus é o mesmo. Não tenha pretensão de entendê-lo como um livro. Não acredite em quem diz que recebe Dele instruções exatas como um e-mail no computador. Ele está muito acima disso. Você pode senti-lo e talvez até ouvi-lo. Mas provavelmente não será com palavras que Ele irá lhe falar.

Ben completa:

Por isso dobro os meus joelhos
Diante do pai de nosso Senhor Jesus Cristo
Do qual toda sua sábia paternidade
Tomou nome nos céus e na terra
Assim falou Santo Tomaz de Aquino


Fé. A graça de acreditar em Deus mesmo sem entendê-lo.

E o melhor de tudo. Toda essa poesia belíssima vem com um ritmo gostoso, suave e animado. Como tudo o que Ben faz é uma arte de mestre, ele usa o violão para criar o ritmo bonito que conduz a obra. Ele encerra ainda com um refrão maravilhoso:

Senhor Tu tens tido feito o nosso refúgio

E deixa a lição para nós refletirmos. Mesmo que você não entenda por completo Deus, confie Nele. Viva com Ele. Inspire-se Nele e seja feliz ;)

Abundância e Impaciência: o que 3 meses de Spotify me mostraram

08/04/2017

É legal perceber como as pessoas estão atualmente dispostas à pagarem por serviços que consideram bons e acessíveis.

Dei uma chance ao Spotify. Veja como foi a experiência

Talvez seja devido ao aumento do poder de compra. Ou talvez seja o aumento da consciência. Ou ainda talvez o motivo seja que não havia esse tipo de produto no mercado naquela época. Gosto de pensar que é um pouco de cada. Vivemos e aprendemos. A internet ainda é uma criança e, como tal, não cansa de nos surpreender com sua constante evolução e madurez.

Lembro quando eu era garoto do Napster. Era o sonho que todo adolescente (e adulto, acredito) tinha: um local para ouvir qualquer música do mundo de graça. Você não precisava mais ir à uma loja e gastar um bom punhado de reais num CD nem esperar dias e mais dias para ouvir aquela canção especial no rádio e torcer para gravá-la numa fita K7 sem que o locutor falasse o nome da emissora no meio do solo.

Napster. Mesmo ilegal, fez a alegria de muita gente nos anos 90.

O Napster foi, sem dúvida, uma revolução. Foi ilegal, é claro. Nada tão bom quanto aquilo poderia ser de graça. Mas ainda assim fez sua parte na contribuição para que muita gente pudesse ter acesso às músicas que apreciava. Durou pouco, mas abriu caminho para o Kazaa, Morpheus, Emule e dezenas de outros softwares voltados para compartilhamento de arquivos.

Querendo ou não a porteira havia sido aberta. A partir daí passou a tornar-se cada vez mais difícil parar a pirataria. À cada dia novos arquivos, discos, filmes, livros e softwares eram disponibilizados. Com a criação de sites específicos para upload e download de arquivos como Mediafire, Megaupload e Rapidshare a coisa ficou ainda mais prática. Não era preciso mais um software, apenas um link possível de ser aberto em qualquer navegador.

Netflix. Barato e simples, deu um drible na pirataria.

Demorou uns 15 anos, mas as grandes corporações da mídia finalmente aprenderam a contornar a situação. A resposta, na verdade, estava mais próxima do que eles podiam imaginar: por que elas mesmas não disponibilizavam o conteúdo por um preço mais aceitável? Assim fizeram. E não é que a coisa deu certo? Enquanto quase ninguém mais estava disposto à pagar R$20 em um CD ou R$8 num aluguel de filme, a solução foi cobrar um valor quase simbólico e deixar à cargo do consumidor a escolha sobre o que ele queria de verdade.

Assim nasceu o Netflix. Pelo preço de 2 filmes alugados no mês, o cliente tem à disposição mais de 1.000 títulos.

Assim nasceu o Spotify. Pelo preço de 1 CD no mês, o cliente tem à disposição milhões de músicas.

O sucesso dessas plataformas só mostra que o público estava sim disposto à abrir mão da pirataria, desde que o preço fosse honesto.

Demorei para aderir ao Spotify, principalmente por eu ter em casa uma coleção de CDs suficiente para meses de audição sem repetir. Talvez eu nunca tivesse assinado o programa se não fosse uma promoção que eles fizeram. 3 meses de Spotify por R$2 ao mês. Como perder? Resolvi então testar a plataforma.

Como Sam Tarly do Game of Thrones na Biblioteca da Cidadela. Foi assim que me senti nesses 3 meses de Spotify.

A primeira coisa que percebi foi que o acesso às músicas é praticamente ilimitado. Há abundância de canções é realmente estonteante. Com exceção de 2 ou 3 bandas que não encontrei, todas as outras tinham lá sua página com informações e discografia quase completa. Para quem gosta de descobrir bandas o Spotify é um prato cheio. Servindo como ferramenta para divulgação de bandas menores, o programa torna-se um porto seguro para que essas bandas tenham seu material publicado e que os interessados os encontrem e sigam suas atividades. XYZ e Big Cock são exemplos de bandas das quais antes eu achava canções com certa
dificuldade, mas, graças ao Spotify, pude conferir não só os discos que já conhecia, mas outros pedaços maravilhosos de suas discografias.

Até mesmo meu caro Jack Johnson tinha lá alguns trabalhos que eu não tinha conhecido. Nomes brasileiros como Tim Maia, Jorge Ben e Novos Baianos também foram muito explorados pela minha sede de música boa e, por meio da ferramenta, descobri várias canções e álbuns que eu nunca tinha tido a oportunidade de ouvir e talvez nunca tivesse acesso, não fosse por ali.

Nem tudo são flores no Spotify, porém. Nos 3 meses em que degustei o produto não foram raros os casos em que não encontrei uma canção específica. Acredito que eu seja exceção e não regra no público do Spotify. As pessoas o assinam para ter música boa à mão de forma fácil e rápida. Não à toa há dezenas de listas prontas que fazem muito sucesso. Raros são os usuários que buscam uma música em especial. Mas é o meu caso e, vez ou outra, me vi nessa situação de ter que fechar o programa e recorrer ao bom e velho Youtube ou ainda ao meu bom e velho HD para ouvir uma pérola que, por algum motivo, não estava no Spotify.

E foi assim que me senti ouvindo uma música não tão boa no Spotify.

Outra reação curiosa que desenvolvi enquanto mergulhava no oceano musical do programa foi que passei a me tornar mais impaciente.

Por anos fui acostumado à ouvir discos inteiros. Quando quero ouvir uma artista, normalmente quero ouvir um álbum dele e não apenas uma música. É um hábito velho de quem ouve muito CD. Com a abundância do Spotify, porém, me tornei menos paciente, mesmo com as melhores bandas. Enquanto ouvia um disco, bastava uma canção não tão boa para, ao invés de esperá-la terminar ou pulá-la e continuar com o álbum como sempre fiz, eu passava a mudar de artista. Me irritava facilmente com canções mediana e ia da água para o vinho com facilidade. Bastava digitar o nome de uma nova banda e, pronto, a trilha estava renovada.

Isso não torna o Spotify uma experiência melhor ou pior do que ouvir um álbum no aparelho de som. É apenas uma característica da ferramenta. Com tanto à disposição você não quer perder tempo com algo na média. Você só quer o filet mignon. A sempre presente lista de 5 mais tocadas de cada artista ilustra bem o ponto. Oferecer acesso a milhões de músicas é apenas um chamariz. O produto real que o Spotify vende é que lá você vai ouvir as músicas mais populares, as modinhas da vez e as clássicas de todos os tempos. Raros são os que irão mais à fundo do que a primeira camada do Spotify. Uma pena, pois, como relatei acima, há muito ali à ser encontrado e desfrutado.

CDs. Um amor difícil de matar, pelo menos no meu caso.

Ao fim do período promocional pensei muito se devia ou não manter a assinatura, agora pelos padronizados R$19,00 ao mês. O preço de 1 CD por mês. Confesso que fiquei tentado, mas no fim das contas, acho que ainda prefiro 1 CD novo por mês. Pode ser um hábito velho, mas é uma rotina da qual gosto. Ouvir o disco inteiro. De ponta a ponta. Ler seu encarte. Ver as fotos do grupo tão cuidadosamente tiradas. Conhecer cada detalhe do trabalho daquela banda que tanto aprecio. Ouvir as canções que ninguém sequer vai chegar a ouvir, mesmo elas estando lá, disponíveis no Spotify e implorando por uma audição. E quem disse que preciso pular uma faixa ruim? O álbum é um trabalho completo e, mesmo ruim, aquela faixa merece pelo menos uma audição. Talvez eu descubra, umas 5 escutadas depois, que ela não era assim tão ruim. Cansei de constatar isso na vida. Aliás, cansei de constatar como músicas que eu aparentemente não gostava se tornaram minhas preferidas depois de um tempo. É esse o poder do álbum. Como um bom livro ou filme ele não te deixa repetir a história só porque você o assiste pela segunda vez, mas te faz conhecer uma nova história em cada repetição.

Ainda assim, não acredito mais que os álbuns ainda sejam o formato correto para os artistas. Os tempos mudam. Está aí o Netflix e o Spotify para mostrar que a pirataria pode ser amigavelmente substituída pela honestidade. E se o público quer apenas hits, é nos hits que as bandas devem focar. Caso contrário as faixas restantes do álbum estarão fadadas ao desconhecimento eterno num oceano de músicas das quais algumas são certamente boas e outras precisam de uma chance à mais ;)

Tem graça ir no show do Metallica 5 vezes?

28/03/2017

Qual o segredo do Metallica (e outros nomes do Metal) que batem cartão no Brasil?

Outro dia eu estava aqui trabalhando e, como acontece muitas vezes, estava ouvindo a Kiss FM. Na ocasião quem comandava o programa era o locutor Rodrigo Branco. Admiro bastante o trabalho do apresentador e, em geral, gosto de muitas observações que ele faz sobre o Rock e a música em si. Entretanto, um comentário que ele fez me chamou a atenção.

Metallica, o favorito dos festivais mercenários. Foto: Divulgação

Enquanto lia mensagens de ouvintes e falava sobre algumas atrações do Lollapalooza 2017, o locutor fechou com a seguinte frase: "Bom, estarei lá para ver o Metallica. De novo".

Não é novidade que o Metallica é a menina dos olhos dos organizadores de grandes eventos musicais no Brasil. Antes uma pérola do Rock in Rio, o Metallica foi agora "descoberto" pela organização do Lolla. Contando com essa aparição neste ano, o grupo de James Hetfield e companhia já visitaram o Brasil nada menos que 9 vezes. Nos últimos 6 anos a banda esteve no Brasil 5 vezes. Como uma namorada ciumenta, os caras não dão nem tempo da gente sentir saudades.

Chutando que esses 5 últimos shows não foram compostos exclusivamente por pessoas novas, posso concluir que boa parte do público é como o meu caro apresentador Rodrigo Branco, que está vendo seus ídolos de novo. E de novo.

E não vou nem entrar no mérito dos preços dos ingressos. Não ainda.

(Mas você pode ler algo sobre isso aqui)

Hardwired... To Self-Destruct, o último e muito bom disco do Metallica. Foto: Reprodução

Não tenho nada contra o Metallica. Aliás você pode reler esse texto substituindo o nome da banda por Iron Maiden, Slipknot, dentre outros favoritos de eventos que dá no mesmo. Na verdade, até gosto bastante do Metallica. Acho os caras bons, estão sempre na ativa, se preocupam com inovações (nem sempre vistas com bom olhos, infelizmente) e possuem uma presença de palco inegável. O ponto que eu quero chegar é: essas bandas são boas? São. Não tem mais nada para provar? Não. São lucrativas? Sem dúvida. Mas será que eles precisam marcar presença em todo grande evento obrigatoriamente? De acordo com o público, parece que sim. Mas afinal, qual a graça de ver um show do Metallica 5 vezes? Por que não pensar em outros nomes que poderiam trazer não apenas grande público, mas uma novidade de fato. Ok, tudo bem. Bandas que enchem estádio com garantia vitalícia como Red Hot Chili Peppers, Bon Jovi, U2, Roger Waters, Paul McCartney, Aerosmith e Guns'N'Roses já vieram ao Brasil incontáveis vezes. Mas qualquer uma delas veio menos vezes que o Metallica. Seria o bastante para considerarmos uma novidade. Então por quê insistir tanto neles?

Talvez eu me pergunte isso porque não sou aquele fã alucinado pelo Metallica. Na minha coleção de mais de 400 CDs, não tem nenhum deles, mas não troco de rádio quando eles começam a tocar. Na verdade se for uma pedrada das clássicas como One ou Unforgiven a probabilidade maior é que eu até aumente o volume e sacuda a cabeça. Até ouvi o último disco deles, o Hardwired to Self Destruct, e gostei bastante. Respeito os caras, sem dúvida. Mas nunca fui em nenhum show e não iria, exceto talvez se eu ganhasse um ingresso.

Beatles. Será que eu conseguiria ver 5 vezes? Foto: Divulgação

Ainda assim, tento fazer um paralelo com bandas que eu gosto para ver se eu faria o mesmo que os fãs fazem pelo Metallica. Será que eu iria 5 vezes e investiria uma soma de mais ou menos R$2.500 no show de bandas como, por exemplo, Oasis, Red Hot Chili Peppers e ACDC?

Destas, Oasis é a única atualmente impossível de conferir. Tenho vários discos deles e um carinho enorme pela banda graças à sua importância na minha adolescência e dos meus melhores amigos. Já fui num show deles com estes mesmos amigos e me diverti bastante. Se eu iria outra vez caso eles voltassem? Depende muito do preço do ingresso, mas do jeito que as coisas andam a resposta mais óbvia é: não. 5 vezes então? Com as devidas desculpas aos irmãos Gallagher, mas... Uma vez foi suficiente.

Red Hot Chili Peppers. Vieram ao Brasil 6 vezes na vida. Não tanto quanto Metallica e os medalhões do Metal. Infelizmente nunca fui em nenhuma vez. Sinto falta e tenho um compromisso comigo mesmo de vê-los pelo menos uma vez, não importa o preço cretino do ingresso. Trata-se de uma banda da vida e que vem muito pouco para cá, então eu faria, sim, um esforço. 5 vezes? Nem que Flea e Kieds lutassem boxe com cacos de vidro colados na luva.

ACDC. Todos os dias me dou 3 chibatadas nas costas por ter perdido o show deles em 2008, na turnê Black Ice. Estava caro e eu estava duro, mas devia ter ido mesmo assim. Hoje a banda perdeu os mestres Malcolm Young, Brian Johnson e Cliff Williams. Para piorar manchou seu hall de heróis com a presença de Axl Rose nos vocais! Pensando bem, acho que não iria no show deles nem pela primeira vez...

ACDC com Axl Rose. Sério, quem teve essa ideia? Foto: Divulgação

Agora vamos apelar para Beatles. A maior banda da história. Será que nem eles eu veria 5 vezes? Sendo bastante honesto, se fosse para ver o que eu vi em todos os seus shows já registrados em vídeo, com certeza não. Eram todos shows de 30 minutos cheios de gritaria histérica e uma repetição incansável de singles grudentos como She Loves You, Love Me Do e I Want to Hold Your Hand. O melhor dos caras nunca foi tocado num show. Nos dias atuais já vi um show do Paul McCartney. Perdi outros, mas não senti falta. Uma vez foi suficiente até para preservar a magia de ver uma lenda como ele.

E o Metallica lá, enchendo estádios ano após ano. Com fãs vendo seus shows repetidamente. Sério. Qual a graça?

Enquanto matutava sobre o motivo que levaria alguém a ir tantas vezes no show de uma mesma banda, não importa o preço cretino dos ingressos, me perguntava qual o segredo do Metallica. Será que eles não tinham cometido nenhum deslize na carreira? Nunca lançaram um disco ruim? Nunca deram um tempo? Nunca faltou uma verba de marketing?

Talvez seja essa a grandiosidade da banda, afinal. Equilibrar as insondáveis variáveis do mundo da música e da fama. Ao contrário dos Oasis, Red Hot, ACDC e Beatles, os caras não perderam (tantos) integrantes, não pararam de tocar e continuaram com uma qualidade musical minimamente aceitável. Ou talvez os fãs desse tipo de banda sejam menos questionadores. Ou talvez eles não escutem bandas novas e, sendo o Metallica o único dono de seus corações, é também a única razão para eles irem a um show. Ou talvez o marketing do Metallica é que seja muito forte, afinal os caras sempre estiveram associados à lucro, seja em eventos, seja em produtos.



Ou, com certeza mais certo do que todas estas hipóteses, eu é que sou o problema por não gostar tanto do Metallica quanto seus fãs.

Enfim.

Seja qual for o segredo do Metallica, certamente não irá parar por aqui. Com o Lollapalooza - outrora um estandarte da música nova e independente - agora atingindo recorde de público graças à eles, tenho certeza que nos próximos 10 anos teremos pelo menos uns 8 shows dos caras, alternando Rock In Rio e Lollapalooza com outras apresentações solo. E os fãs sempre lá. De novo e de novo.

É a vida.

Um mestre uma vez me disse e eu devia ter entendido... Por mais que tentemos entender, algumas questões permanecerão, invariavelmente, sem explicação ;)

Magic! mostra que Rock vai bem com Reggae

25/03/2017

Bob Marley, se estivesse vivo e num momento de sobriedade (ou mesmo chapado), certamente exibiria um sorriso ao conhecer o som da Magic!

Magic! Foto: Divulgação

A mistura entre Rock e Reggae não é novidade.

Canções do Bob Marley foram regravadas por dezenas de bandas de Rock, ao exemplo de I Shot de Sheriff, que ficou ainda melhor nas mãos de Eric Clapton. Até os Beatles, lá nos anos 60, já flertavam com o ritmo, experiências que resultaram em canções como She's a Woman e Ob-la-di Ob-la-da.

Mas ainda assim não deixa de ser admirável a capacidade de misturar os ritmos de forma bem-feita. Dar uma cara moderna para essa fusão de gêneros torna o ato ainda mais especial. É o que a banda canadense Magic! tem feito.



Em 2014, há apenas 3 anos, o primeiro single dos caras, Rude, já mostrava que a banda dominava não apenas a mistura, mas a mágica - como sugere o nome da banda - de criar canções grudentas. É fácil ouvir uma única vez e já sair cantando "How can you be so rude?" num ritmo gostoso e divertido. Essa canção ficou em primeiro lugar nas paradas de vários países, incluindo nos Países Donos da Verdade (entenda-se EUA e UK), o que não deixa de ser uma pequena honra para o renegado Canadá. Lembro de ter ouvido bastante essa música enquanto vivi na Austrália entre 2013 e 2014. Na época achei que era só mais uma música boa de alguma One-Hit Wonder. Eu, como incontáveis vezes na vida, estava errado. Logo Magic! lançou também Let Your Hair Down, numa levada mais suave e romântica, mas ainda assim revigorante.

Graças ao Spotify tive a oportunidade de conferir o disco inteiro dos caras e, tenho que admitir, que não gostei tanto da obra completa. Salvando-se 3 ou 4 canções, o disco não vale uma aquisição, com várias faixas em que o grupo se perde num pop chato e sem vida. Seria melhor ter se aprofundado cada vez mais no Reggae, pois é daí onde saem as melhores canções da banda. É o caso de uma terceira pérola - esta talvez a mais valiosa de todas. No Way No. Dá uma escutada:



Essa é uma obra das boas. Daquelas músicas raras de achar. Que conseguem encontrar o equilíbrio dificílimo entre arte e comércio. Nada contra Rude, muito pelo contrário. Adoro aquela primeira canção também, mas No Way No consegue ter uma pegada mais autoral. Tem um ritmo mais envolvente, viajante e um solinho delirante, atributos que a impedem de ser excessivamente grudenta. É a obra-prima do disco e se eu acabei de escrever que não vale a pena comprá-lo, eu provavelmente estou, mais uma vez, enganado, graças à No Way No. Essa música vale ouro.

Além de mandar bem na produção dos vídeos promocionais, sempre com uma pegada bem humorada, o Magic! não parou nunca de trabalhar nas músicas.

Em 2016 veio ao mundo o segundo disco, "Primary Colours". Nele, já posso destacar mais uma canção de valor inestimável. Chama-se Lay You Down Easy:



Mais uma vez aqui fica evidente a maestria com que Rock e Reggae brincam numa fusão perfeitamente construída. Ritmo empolgante. Instrumentação impecável. Destaco também a voz do cantor Nasri Atweh que tem uma afinação poderosa e carismática, atributos que só contribuem para a imagem que a banda prega de tranquilidade e bom humor. É o Reggae em sua essência. Bob Marley ficaria certamente orgulhoso.

Magic! é uma banda na qual vale a pena prestar atenção. Está em dúvida? No Way No! Ouça, deixe os problemas de lado e abrace a causa da paz e amor por um mundo em que contas, reuniões e aplicativos poderiam muito bem dar lugar para a uma tarde com amigos, risadas e descontração ;)

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