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Deep Purple e Lynyrd Skynyrd, talvez a última chance de ver essas duas gigantes do Rock

21/08/2017

O Rock não morreu e nem vai morrer. Como tudo ele segue se transformando e se adaptando ao momento do mundo.

Existem diversas bandas atuais criando sons sensacionais. Muitas delas são brasileiras. A diferença é que o Rock não é mais sinônimo de Pop, como já foi há algumas décadas atrás. Bandas que surfaram naquela onda e somaram talento à oportunidade, atingiram o status de gigantes do Rock, fato que dificilmente se repetirá - pelo menos tão cedo. Hoje, tais bandas são classificadas como Classic Rock, justamente por terem deixado marcas profundas na história da música e por terem atingido milhões de pessoas, e não apenas um nicho específico como hoje.

Para quem ainda aprecia o sentimento saudosista da época em o Rock era parte da vida da maioria das pessoas do mundo ocidental - época em que bandas do mundo todo enchiam estádios e rock bares - essa talvez seja a última chance de ver duas gigantes do Rock juntas: Deep Purple e Lynyrd Skynyrd.

As duas bandas vem ao Brasil em dezembro para se apresentarem em Curitiba (12/12), São Paulo (13/12) e Rio de Janeiro (15/12).

Ambas são bandas clássicas, para dizer o mínimo. São grupos que explodiram nos anos 70, lançaram milhares de álbuns e até hoje possuem hits na ponta da língua de todo mundo que se considere um bom ouvinte de Rock.

Deep Purple em formação atual. Foto: divulgação
Deep Purple é sem dúvida uma das maiores bandas da história. Considero-os mais importantes até mesmo do que Led Zeppelin e Pink Floyd, dado o calibre de músicos que passou por ali e o tanto de canções incríveis que o grupo produziu em mais de 40 anos de vida. Não é para qualquer grupo ter tido nos vocais Ian Gillan, David Coverdale e Glen Hughes. Ou nas guitarras Ritchie Blackmore e Steve Morse. Até um maestro já passou por lá: Jon Lord, falecido em 2012. Apesar da constante troca de músicos o entrosamento ali era inegável e o grupo sempre produziu Hard Rock de peso e qualidade além de ter um carinho especial por apresentações ao vivo. A banda tem, inclusive, uma discografia dedicada às apresentações ao vivo, muitas delas foram acompanhadas por orquestras. Coisa fina, de quem entende de música.

Sempre ativo em suas 4 décadas de vida, a banda vem para apresentar seu último disco, InFinite, lançado este ano.

É difícil selecionar as melhores canções dos caras, mas gosto especialmente de Perfect Strangers:



Maybe I'm Leo:



E Sometimes i Feel Like Screaming:



Caso você tenha a oportunidade, ouça o disco InFinite, disponível em Spotify, Deezer, etc. É um dos melhores trabalhos dos últimos anos do Purple.

Lynyrd Skynyrd. Gigantes do Country Rock. Foto: Divulgação
Lynyrd Skynyrd é da mesma época do Purple, porém enquanto o grupo de Ritchie Blackmore explodiu na terra da rainha, Skynyrd é deste lado do Atlântico, mais precisamente do sul dos EUA, região conhecida pelo apreço à música Country.

Tal influência é fundamental na sonoridade do Lynyrd Skynyrd que conseguiu mesclar o som local com o bom Hard Rock que vinha pulsando no mundo. O resultado são músicas que encontraram um raro equilíbrio entre o peso do Rock e a sutileza do Country. Há guitarras pesadas e baterias afiadas, mas há também o jeito tranquilo de ver a vida onde a maioria dos problemas não são páreo para uma tarde no bar com os amigos. Uma grandeza maior que a vida que só quem vive longe dos grandes centros metropolitanos consegue ter.

Resultado são peças do calibre de Gimme Back My Bulltes:



I Ain't the One:



E a obra-prima Simple Man:



Ao longo da vida, a banda passou por diversos percalços, incluindo a morte de boa parte dos integrantes, o que faz a formação atual do ser apenas um reflexo fraco do que um dia foi. Ainda assim vale uma olhada nos caras.

Como eu disse acima, o Rock está em constante movimento, sempre se adaptando ao mundo moderno, sempre se encaixando no formato que as pessoas precisam.

Bandas gigantes não irão mais existir e caras do nível de Deep Purple e Lynyrd Skynyrd serão exceções, e não regra como antes. Portanto, se você nunca viu nenhuma dessas bandas ao vivo, aproveite a chance. Talvez seja a última oportunidade de conferir esses 2 gigantes do Rock ;)

Serviço

CURITIBA
12/12/2017
PEDREIRA PAULO LEMINSKI

SÃO PAULO
13/12/2017
ALLIANZ PARQUE

RIO DE JANEIRO
15/12/2017

JEUNESSE ARENA

Ingressos no site da T4F

De repente 30 e fã de Offspring

27/07/2017

Como 30 CDs excelentes vieram parar no meu colo e me descobri, aos 30, fanático por Offspring


The Offspring. Banda do coração de muitos que curtiram os anos 90. Foto: Divulgação

Algumas pessoas tocam um instrumento tão bem que todos passam a se lembrar dela como referência naquela arte.

O mesmo acontece com quem entende muito de cozinha. Seus amigos e familiares normalmente lembram da pessoa sempre que vêem um filme sobre cheffs começando do zero ou uma receita interessante no Youtube.

Nenhum dos dois é o meu caso. Não cozinho tão bem nem faço mais que arranhar o violão.

Mas eu falo bastante de música. E já algum tempo registro algumas reflexões aqui no blog.

Talvez por isso algumas pessoas lembrem de mim quando veem algo interessante sobre música - mais em especial sobre o Rock. Isso é ótimo. Sem essa gentileza eu certamente perderia um bom punhado de novidades e vídeos divertidos.

Recentemente fui lembrado em mais uma dessas atividades. Uma colega estava se mudando para a Irlanda em poucos dias. Logo um amigo em comum me passou um recado no Zap com aqueles toques de urgência:

- Dá uma olhada no Facebook rápido!


Cair na estrada requer uma boa dose de desapego. Foto: Google.
Olhei e me deparei com uma atitude que equilibrava uma imensidão de tristeza e de coragem.

Ela e o marido estavam se desfazendo de seus CDs.

A vida de quem vai morar fora é assim. Eu sei porque eu fui e até que sinto saudades da época em que todos os meus pertences cabiam um duas malas de 23 kg cada, sem contar o excesso de bagagem.

Eu fui para a Austrália sem saber se ia voltar. Mesmo assim não me desfiz de meus preciosos CDs. Não, pois eu ainda morava com meus pais. E acho que eu não tinha tanta coragem quanto essa amiga.

Ela ia e postou que estava doando os CDs. Pilhas e mais pilha de CDs para quem quisesse pegar. Com a gentileza de nosso amigo em comum fui logo comentando que eu queria dar uma garimpada naquela coleção, talvez tão boa quanto a minha.

Pelas fotos vi nomes que me chamaram a atenção de cara. Alice in Chains, Garbage, Foo Fighters, Nirvana, Pearl Jam, Green Day. Enfim, um paraíso para quem nasceu antes dos anos 90 e viu as últimas décadas de glória do Rock.

Uma das joias que eu não tinha na coleção. Foto: Divulgação.

E vários deles eu não tinha.

Perguntei quando ela ia. Em três dias. Perguntei onde ela morava. Do lado da minha casa. Obrigado, destino.

Fui lá no dia seguinte.

Malas semi empacotadas eram os últimos resquícios de uma casa que já não tinha móveis. Tudo tinha sido vendido ou doado, segundo ela. Tristeza e coragem. E admiração, é claro. A vida na estrada pede uma série de sacrifícios e sorri ao perceber que minha amiga já estava aprendendo aquela lição antes mesmo de cair no mundo.

Vasculhei então a coleção.

Timidamente, peguei selecionei uns 10 discos. A maioria do Garbage e Alice in Chains. Ela me encorajou a levar mais:

- Achei que você ia levar tudo. Pega mais uns, ajuda a gente.

Com esse aval, decidi então pegar mais uns 20. No bolo acabei levando até alguns do Raul Seixas e todos os discos do Alice in Chains e do Offspring, bandas que eu sempre gostei, mas nada além disso. Por enquanto.

Mais uma pérola que não resisti a levar. Foto: Divulgação.

Agradeci imensamente e me despedi dela e do marido. Desejei-lhes sucesso por onde fossem. Tudo ia dar certo na estrada. Eu sabia, pois já a tinha percorrido algumas vezes. Até hoje, confesso, ainda ouço ela me chamando em determinadas noites e covardemente finjo que não é comigo. Vai haver um dia, eu espero no fundo do coração, em que eu não vou mais conseguir me fazer de surdo. Não vou mais conseguir fingir. Mas até lá vou ouvindo minhas músicas por aqui mesmo.

E quantas músicas novas-velhas para ouvir.

30 novos CDs. A maioria praticamente zerados. Passei os dias seguintes escutando-os um a um. Saboreando cada novo álbum que eu não conhecia ou nunca tinha ouvido inteiro.

Então chegou a leva do Offspring.

Para aquecer coloquei o primeiro, Smash, um disco que eu já tinha em formato digital e que adoro. Excelente como sempre, ainda melhor no CD do que no computador. Gotta Get Away e Self-Esteem nunca soaram tão vivas nos meus ouvidos.



Depois que o disco acabou, coloquei um dos últimos deles, Rise and Fall, Rage and Grace, que eu nunca tinha ouvido sequer uma canção. Me surpreendi com pauladas boas e rápidas e duas ou três canções no estilo mais rock-grudento que eles aprenderam a fazer tão bem. Ótimo.

Em terceiro lugar veio The Offspring, primeiro álbum deles, de 1989. Explosivo e bastante cru resultou numa audição boa, mas nada excepcional. O mesmo aconteceu com Ignition, o segundo álbum deles cheio de energia e boa vontade. Sem dúvida uma repetição de cada disco me faria descobrir novas camadas de percepção, mas ainda haviam outros discos para ouvir então continuei na sequência.

Foi aí que a coisa começou a ferver. Coloquei Ixnay on the Hombre, o disco que sucedeu Smash, até então meu preferido. O resultado não podia ser outro. Explosões e mais cacetadas na orelha com sonzeiras boas, suculentas. Coisas finas e bem feitas. Deliciosas de ouvir. Que disco! Ouvi três vezes seguidas e passei para o próximo.



Veio então o Fatality.

Sem misericórdia.

O belo golpe na minha pobre mente ainda não tão cansada de novas sonoridades veio com Conspiracy of One.

Logo no começo relembrei tempos de adolescente com Original Prankster. Não resisti a repetir a pérola e enviar um trecho ao meu irmão que também era fã da canção. Aliás se eu gostava um pouco de Offspring foi por causa dele de quem herdei (para não dizer surrupiei os discos Americana e Splinter que tenho até hoje). O mínimo que eu podia fazer era embalar e enviar à ele aquela pequena pérola de juventude eterna e rebelde. O cara gostou.

O disco seguiu com Want You Bad, outra pedrada boa que eu gostava e não lembrava, e explodiu minha cabeça de vez com Million Miles Away, uma música que eu tinha enterrado na memória há muito tempo. Estava lá, semi-esquecida, mas foram necessários apenas 3 segundos para que ela se redescobrisse inteira. Eu sabia a letra. Sabia o ritmo e não consegui me conter. Ouvi várias e várias vezes sempre gritando entre os versos do refrão.



Percebi que aquilo era uma das coisas que eu mais gostava no Offspring. Os gritos. Urros de guerra, bem colocados e que duelavam com a guitarra pesada ou com o vocal principal.

Percebi que gostava muito de Offspring. Gostava das pedradas, do ritmo acelerado e do Punk-Rock moderno que permeou minha adolescência junto com Green Day e Rancid. Onde eu estava naqueles dias que não ouvia Offspring, salvo quando meu irmão colocava o bom e velho Americana para tocar?

Me descobri, enfim e há 1 mês de fazer 30 anos que eu era um grande fã de Offspring.

Foram só uns 15 anos de atraso.

Mas antes tarde do que nunca, é o que dizem os sábios.

Se a banda durar mais 15 com certeza terá aqui um novo-velho fã ;)

---

Obrigado Talita e Bruno pelos CDs. Vou cuidar bem deles. Vida próspera e música boa em qualquer estrada que vocês pegarem!

Obrigado Newton pelo aviso no Zapzap.

O Rock vive. Gasoline Special e Sheena-Ye esquentam quarta friorenta

20/07/2017

Duas bandas independentes e autorais - uma de Jundiaí, outra de Goiânia - mostram em pleno inverno impiedoso que o Rock brasileiro ainda tem lenha para queimar

Não deixa de ser curioso notar que foi com um texto sobre a decadência do Rock que conheci a excepcional banda Gasoline Special.


No artigo, tentei rascunhar o cenário atual da música e do Rock no Brasil, chamando o roqueiro para conhecer bandas novas e compartilhar o som que ele apreciasse para que tais bandas se destacassem e atraíssem a atenção da mídia e mantivessem o Rock, senão de volta ao topo das paradas, pelo menos vivo e saudável.

Isso foi em 2015.

Nesses dois anos pouco mudou no cenário musical. Com exceção de que agora temos um par de canções pop latinas bombando (coisa que não acontecia desde que o Maná tocava em novelas e a Shakira cantava em espanhol), o Rock permanece relegado à um nicho cada vez menor de pessoas. Velhas bandas continuam mandando seus clássicos hits ou se aposentando e bandas novas parecem destinadas às calçadas da cidade ou rock bares que insistem em manter a programação.

Em meio à tudo isso não deixa de ser bonito perceber a audácia de quem ainda tenta fazer música boa.

É caso dessas duas bandas: Gasoline Special e Sheena-Ye.

Logo que ouvi, me tornei fã da Gasoline. Seu som é rápido, explosivo e instigante. Coisa que pede para ser ouvida ao vivo. Fiquei então de olho na agenda dos caras. Oriundos de Jundiaí, a banda toca mais para aqueles lados do que para cá, mas a paciência é uma virtude, dizem os sábios. Logo a hora chegaria. E chegou.

Foi no Pico do Macaco. Confesso que não conhecia o lugar que, inclusive, fica próximo da minha casa. De estrutura simples, mais com estilo de estúdio de ensaio do que casa de show, o lugar foi suficiente para abrigar um punhado de roqueiros que vieram curtir o bom e novo Rock numa noite congelante. Gente tão ousada quanto a própria banda, é preciso dizer.

Sheena-Ye abrindo começando a esquentar a noite. Foto: Felipe Andarilho / Divulgação.
Sheena-Ye começou. Conheci o som deles no mesmo dia, pelo Youtube. Curti logo de cara. Guitarra afiada e vocal rasgado é, às vezes, tudo o que um ser humano precisa. O som é rápido, batido forte na bateria. Hard Rock dos bons. E de longe. Veio lá de Goiânia. Quando penso que o cenário de quem vive de música (e de arte em geral) é difícil numa cidade como São Paulo, fico pensando no quão mais complicado deve ser em cidades ainda mais conservadoras como a capital do Goiás, praticamente o berço do Sertanejo clássico.

Isso só torna ainda mais poética a vitória da banda. Afinal, é sim uma vitória realizar um show em cidade estranha sendo uma banda completamente autoral. Tiro meu chapéu para os caras e não resisti agradecer ao guitarrista no final. Se não fosse por caras como eles, estaríamos hoje reduzidos à CDs de Led Zeppelins e AC/DCs. Sem nada novo. Nada diferente para para fazer o sangue acelerar e o coração se sobressaltar, pego de surpresa por algo realmente bom que nunca tinha passado por ali.

Gasoline Special. Paulada atrás de paulada. Foto: Felipe Andarilho / Divulgação.
Logo na sequência entrou a Gasoline Special, hoje um Power Trio violento, capaz de fazer qualquer um estremecer com a guitarra pesada, um baixo avassalador e pancadas certeiras na bateria. Cada riff, cada solo foi enlouquecedor. Rock pesado de qualidade liderado pelo carismático Reverendo André Bode.

Gosto de pensar que, em outras épocas e países, grandes bandas como Guns N Roses e Aerosmith também tocaram em locais pequenos e fechados como aquele, preenchido por um público restrito, mas fiel fã da banda. Hoje essas bandas são lendárias, mas tudo começou ali, naquele porão frio e úmido. Há uma beleza nisso tudo. O Gasoline não começou ali. Já estão na estrada há 10 anos, mas ali estava mais um show. Mais um capítulo da história da banda.

Mais uma vitória.

Pois era quarta-feira. Era frio. Eram bandas autorais.

Sim, foram várias vitórias.

E que venham muitas outras. Pois o Rock não pode parar ;)

Conheça o som das bandas:

Sheena-Ye - Seu Tempo Acabou



Gasoline Special - Rck N Rll

Fernando Noronha, Um Mestre na Minha Casa

04/07/2017

Já imaginou como seria receber um dos artistas que você mais admira na sua casa? Veja aqui como o Fernando Noronha, um dos maiores músicos do Brasil, foi parar na minha casa


Esse cartaz que você vê acima se refere à um show que não existiu.

Pelo menos não oficialmente.

Se fosse gravado e lançado, seria um bootleg, um daqueles discos extra-oficiais (forma polida de dizer "pirata"). Mas seria o melhor de todos os bootlegs, pelo menos na minha opinião e, tenho certeza, na das outras 14 pessoas que estavam na Lil' Wilson's Hall.

Wilsinho, o Lil' Wilson e dono do Hall, é meu primo e o show, acredite você ou não, foi na casa dele.

Essa é mais uma daqueles peculiares histórias que acontecem na minha vida e que, aos poucos, eu vou juntando e colocando em livros.

Vamos à ela então.

Há exatos 10 anos conheci o som do Fernando Noronha & Black Soul. Foi com o disco Bring It que levou a outro, depois a outro. Tenho quase todos os álbuns dos caras e, se não tenho algum é por que nunca encontrei pra comprar. São poucos os artistas que conheço que me fizeram chegar nesse ponto de fazer questão de acompanhar tudo que eles constroem. É o caso de nomes como Beatles, Red Hot Chili Peppers e Jack Johnson e a admiração que tenho por esse pessoal é a mesma que tenho pelo Noronha e sua Black Soul. Sem exagero.

(Se você leu Heróis e Anônimos sabe do que estou falando. Se não leu dá uma olhada nesse link para conhecer a obra ;)

Passei esses 10 anos acompanhando a carreira do Fernando Noronha & Black Soul, um grupo de blues lá do sul do Brasil. Os caras eram discretos, mas sempre muito atarefados. Percorriam o mundo levando blues do bom para os quatro cantos. Eu sorria cada vez que ficava sabendo que Noronha e sua trupe estavam na Europa, na Austrália, nos EUA, enfim, qualquer lugar em que houvesse gente afim de ouvir música de qualidade.

Fernando Noronha no evento de junho. Foto: Felipe Andarilho
E eu aguardava, é claro, o grande momento em que eles estariam em São Paulo.

Não é surpresa para ninguém que nosso país não valoriza a cultura. Com exceção do Carnaval e de grande shows patrocinados por empresas midiáticas, pouco espaço sobra para os milhares de artistas que fazem um trabalho sério em diversas áreas.

Em suma, quem curte música do naipe do blues e do jazz por aqui tem que garimpar bem e ir atrás de festivais pouco divulgados em grandes cidades ou bares que resistem aos tempos e mantém uma programação decente.

Assim, esperei alguns anos até finalmente ter a oportunidade de ver Fernando Noronha & Black Soul em São Paulo. Na ocasião o evento tomou lugar no Sesc Ipiranga e aconteceu em 2011. Você pode ter uma ideia de como foi aquela noite nesse texto.

O show do Sesc foi bom, mas nem de longe suficiente. Impossibilitado de ficar em pé ou de consumir cerveja tive que me conter na poltrona para curtir a rápida 1 hora e pouco de show em que o grupo mandou dezenas de canções excelentes, as principais de seu então recém-lançado disco, o excepcional Meet Yourself.



Passaram-se então mais 6 anos até que eu vi no Facebook algo que me chamou atenção.

Fernando Noronha estava em uma viagem pela terra do Blues, o sul dos EUA. Excursionando com seu colega de banda, o tecladista Luciano Leães, a dupla tocou em diversos bares clássicos e visitou cidades lendárias de onde saíram grandes mestres do blues, alguns dos quais hoje seriam esquecidos, não fosse pelo esforço de caras com o próprio Noronha que fazem questão de manter a antiga magia viva.

Noronha pedia no Face, como muitos artistas hoje fazem, um patrocínio para transformar a viagem em documentário. No estilo crowdfunding a campanha prometia algumas recompensas para quem colaborasse com o projeto.

Foi então que vi que a maior das recompensas incluía além do DVD do documentário e alguns outros mimos, um Pocket Show do próprio Noronha.

Seria verdade aquilo? Por um tempo duvidei, mas depois percebi que a coisa era séria. Se você colaborasse com R$1.000 um dos melhores guitarristas do mundo, líder de uma das melhores bandas do Brasil faria um show para você e seus amigos.

O valor era alto, mas nem de longe caro diante da oportunidade que se apresentava. Chamei meu primo, Renato, velho parceiro de aventuras e amante incondicional do bom e velho blues para ver o que ele achava da empreitada.

Estávamos num bar, levemente alegres, quando ele disse o que eu já imaginava:

- É o Fernando Noronha. Vamos nessa!



Assim, fechamos o patrocínio. R$500 para cada era ainda mais fácil de cobrir. Pode ainda parecer caro, mas quando sabemos que é o mesmo valor para um dia de Rock In Rio ou Lollapalooza e que, nestes eventos, você vai conferir show de grandes bandas a pelo menos 1 quilômetro do palco e pagando 10 reais numa lata de Budweiser, o preço está até que bem barato.

Ainda mais quando se trata de um cara que você admira e tem consideração. Bandas do Rock In Rio são, sem dúvida, muito boas. Elas me fazem sacudir a cabeça. Fernando Noronha me faz sentir alegria em viver.

Trata-se de um cara que é bom no que faz e o que ele faz é justamente te colocar para cima quando você o ouve. Um cara que consegue, por meio de um virtuosismo impressionante com a guitarra, transmitir a mais pura graça da vida.

Pois então estava tudo certo.

Fechamos o patrocínio.

E aí começaram as questões logísticas.

Afinal, Noronha é do Rio Grande do Sul e o show seria em São Paulo. Foi preciso encontrar um dia na agenda do músico em que ele estivesse na região para que seu Pocket Show permanecesse financeiramente viável. Surgiu a opção de fazer o evento no dia 25 de junho. Era um dia após um festival de blues em Ilhabela, então já tínhamos o principal, Noronha na área.

Wilsinho, o dono do Hall e Noronha. Foto: Felipe Andarilho
Era preciso então encontrar um lugar, convidar o pessoal e, como eu viria a descobrir depois, correr atrás de uma estrutura minimamente necessária para o evento e também providenciar o transporte do artista. Normalmente essas questões costumam ser um pé no saco. Sei disso porque trabalho com Marketing e, em 10 anos de carreira, nunca vi alguém dizer que o evento saiu 100% conforme planejado e sem stress. O diabo mora nos detalhes e um evento é cheio deles. Aprendi algumas manhas na profissão, mas ainda assim não consigo evitar todas as surpresas.

Mas, já diziam os Beatles, quando se tem amigos a gente consegue as coisas. Meu primo ofereceu sua casa, ou melhor, o salão do seu prédio. Eu tinha um amplificador velhinho, meu primo tinha outro. Um amigo conseguiu um microfone. Outro teve a gentileza de emprestar um pedestal. Fui buscar o mestre em Guarulhos. Cada um levou sua cerveja e, voilá, nosso evento estava pronto.

Se por um minuto senti um mínimo daquele nervoso frio na barriga que aflige qualquer coitado que esteja em cargo de organizar qualquer evento, isso logo se revelou mais uma suave brincadeira da vida quando o show efetivamente começou.

Foram dezenas de pérolas do blues. Hábil músico Fernando usava um pedal de gravação para fazer o som de duas guitarras. Com uma fazia a base, com outra solava como quem nasceu para aquilo. A voz tipicamente grave harmonizava em perfeição com o ritmo envolvente de saloom que o cara fazia. Era difícil assistir e acreditar que toda aquela massa sonora vinha de um cara só. Mas era assim. Como ele fazia? Não sei e nem ouso tentar entender.

Em meio à vários clássicos, algumas da própria carreira. Blues From Hell foi uma delas. Também saíram Changes, Blues for the World e, um dos pontos altos da noite, Ain't no Angel na qual meu primo e eu cantamos como fizemos em poucos shows da vida. Faltaram várias, sim. Mas nada que prejudicasse as mais de 2 horas de apresentação.

(Essa é uma que fez falta:)



Mais à frente, quando vi o Fernando Noronha mandando um som incrível com aquele meu velho amplificador e toda a pequena estrutura que conseguimos, tenho que admitir que fiquei emocionado. O cara estava ali, afinal. Na nossa casa. Tocando um blues para os nossos amigos.

E o melhor de tudo: ele era um dos nossos amigos.

Dono de um hábito que só os melhores bluesman têm, Noronha gosta da prosa. Assim como eu vi B.B. King e Buddy Guy fazendo, lá estava nosso mestre em sua inata humildade, trocando uma ideia. Simplesmente falando. Conversando sobre como descobriu tal canção. Sobre quem era a lenda humana que ninguém conhecia, mas que tinha escrito aquela pérola que ele tinha acabado de tocar.

A cada canção ele falava um pouco. Nos dava pequenas lições de música e a grande lição de que um gênio nunca para de estudar. Noronha é reconhecidamente um dos maiores músicos do Brasil e, mesmo assim, age com uma fome voraz de conhecimento. Está sempre indo atrás de sonoridades, assistindo documentários e, enfim, vendo o mundo por meio da música.

Seu documentário Highway 61: From Chicago to New Orleans é prova disso. Lá estava um cara que curtia música fazendo nada menos que pesquisar, curtir e tocar. Em breve poderemos conferir como foi a viagem pelo berço do blues, afinal, com a ajuda de outros entusiastas como eu e meu primo, Noronha conseguiu atingir a meta de financiamento do filme.

Fico feliz em ter feito uma pequena parte nessa contribuição, mas minha recompensa foi muito maior do que eu esperava.

- É sempre bom o fã distinguir o artista da obra - disse Noronha naquela noite no Lil Wilson's Hall.

Eu concordo.

Mas é muito bom perceber que o cara de quem você é fã pela obra é também um puta de um cara gente boa.

Obrigado Fernando Noronha.

Que venham mais e melhores blues para todos ;)

E para provar que essa história toda é real, esta aí a foto. Eu (esq), meu primo Renato (dir) e o grande Fernando Noronha. Foto: Alexandra Alzate

Agradecimentos especiais à Alexandra Alzate, Clarice Savastano, Wilson Soares, Renato Perazza, Tales Gremen e Luci Lazzaris pela força na organização desse pequeno-mega evento.

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