Mais um livro do Andarilho

De repente 30 e fã de Offspring

27/07/2017

Como 30 CDs excelentes vieram parar no meu colo e me descobri, aos 30, fanático por Offspring


The Offspring. Banda do coração de muitos que curtiram os anos 90. Foto: Divulgação

Algumas pessoas tocam um instrumento tão bem que todos passam a se lembrar dela como referência naquela arte.

O mesmo acontece com quem entende muito de cozinha. Seus amigos e familiares normalmente lembram da pessoa sempre que vêem um filme sobre cheffs começando do zero ou uma receita interessante no Youtube.

Nenhum dos dois é o meu caso. Não cozinho tão bem nem faço mais que arranhar o violão.

Mas eu falo bastante de música. E já algum tempo registro algumas reflexões aqui no blog.

Talvez por isso algumas pessoas lembrem de mim quando veem algo interessante sobre música - mais em especial sobre o Rock. Isso é ótimo. Sem essa gentileza eu certamente perderia um bom punhado de novidades e vídeos divertidos.

Recentemente fui lembrado em mais uma dessas atividades. Uma colega estava se mudando para a Irlanda em poucos dias. Logo um amigo em comum me passou um recado no Zap com aqueles toques de urgência:

- Dá uma olhada no Facebook rápido!


Cair na estrada requer uma boa dose de desapego. Foto: Google.
Olhei e me deparei com uma atitude que equilibrava uma imensidão de tristeza e de coragem.

Ela e o marido estavam se desfazendo de seus CDs.

A vida de quem vai morar fora é assim. Eu sei porque eu fui e até que sinto saudades da época em que todos os meus pertences cabiam um duas malas de 23 kg cada, sem contar o excesso de bagagem.

Eu fui para a Austrália sem saber se ia voltar. Mesmo assim não me desfiz de meus preciosos CDs. Não, pois eu ainda morava com meus pais. E acho que eu não tinha tanta coragem quanto essa amiga.

Ela ia e postou que estava doando os CDs. Pilhas e mais pilha de CDs para quem quisesse pegar. Com a gentileza de nosso amigo em comum fui logo comentando que eu queria dar uma garimpada naquela coleção, talvez tão boa quanto a minha.

Pelas fotos vi nomes que me chamaram a atenção de cara. Alice in Chains, Garbage, Foo Fighters, Nirvana, Pearl Jam, Green Day. Enfim, um paraíso para quem nasceu antes dos anos 90 e viu as últimas décadas de glória do Rock.

Uma das joias que eu não tinha na coleção. Foto: Divulgação.

E vários deles eu não tinha.

Perguntei quando ela ia. Em três dias. Perguntei onde ela morava. Do lado da minha casa. Obrigado, destino.

Fui lá no dia seguinte.

Malas semi empacotadas eram os últimos resquícios de uma casa que já não tinha móveis. Tudo tinha sido vendido ou doado, segundo ela. Tristeza e coragem. E admiração, é claro. A vida na estrada pede uma série de sacrifícios e sorri ao perceber que minha amiga já estava aprendendo aquela lição antes mesmo de cair no mundo.

Vasculhei então a coleção.

Timidamente, peguei selecionei uns 10 discos. A maioria do Garbage e Alice in Chains. Ela me encorajou a levar mais:

- Achei que você ia levar tudo. Pega mais uns, ajuda a gente.

Com esse aval, decidi então pegar mais uns 20. No bolo acabei levando até alguns do Raul Seixas e todos os discos do Alice in Chains e do Offspring, bandas que eu sempre gostei, mas nada além disso. Por enquanto.

Mais uma pérola que não resisti a levar. Foto: Divulgação.

Agradeci imensamente e me despedi dela e do marido. Desejei-lhes sucesso por onde fossem. Tudo ia dar certo na estrada. Eu sabia, pois já a tinha percorrido algumas vezes. Até hoje, confesso, ainda ouço ela me chamando em determinadas noites e covardemente finjo que não é comigo. Vai haver um dia, eu espero no fundo do coração, em que eu não vou mais conseguir me fazer de surdo. Não vou mais conseguir fingir. Mas até lá vou ouvindo minhas músicas por aqui mesmo.

E quantas músicas novas-velhas para ouvir.

30 novos CDs. A maioria praticamente zerados. Passei os dias seguintes escutando-os um a um. Saboreando cada novo álbum que eu não conhecia ou nunca tinha ouvido inteiro.

Então chegou a leva do Offspring.

Para aquecer coloquei o primeiro, Smash, um disco que eu já tinha em formato digital e que adoro. Excelente como sempre, ainda melhor no CD do que no computador. Gotta Get Away e Self-Esteem nunca soaram tão vivas nos meus ouvidos.



Depois que o disco acabou, coloquei um dos últimos deles, Rise and Fall, Rage and Grace, que eu nunca tinha ouvido sequer uma canção. Me surpreendi com pauladas boas e rápidas e duas ou três canções no estilo mais rock-grudento que eles aprenderam a fazer tão bem. Ótimo.

Em terceiro lugar veio The Offspring, primeiro álbum deles, de 1989. Explosivo e bastante cru resultou numa audição boa, mas nada excepcional. O mesmo aconteceu com Ignition, o segundo álbum deles cheio de energia e boa vontade. Sem dúvida uma repetição de cada disco me faria descobrir novas camadas de percepção, mas ainda haviam outros discos para ouvir então continuei na sequência.

Foi aí que a coisa começou a ferver. Coloquei Ixnay on the Hombre, o disco que sucedeu Smash, até então meu preferido. O resultado não podia ser outro. Explosões e mais cacetadas na orelha com sonzeiras boas, suculentas. Coisas finas e bem feitas. Deliciosas de ouvir. Que disco! Ouvi três vezes seguidas e passei para o próximo.



Veio então o Fatality.

Sem misericórdia.

O belo golpe na minha pobre mente ainda não tão cansada de novas sonoridades veio com Conspiracy of One.

Logo no começo relembrei tempos de adolescente com Original Prankster. Não resisti a repetir a pérola e enviar um trecho ao meu irmão que também era fã da canção. Aliás se eu gostava um pouco de Offspring foi por causa dele de quem herdei (para não dizer surrupiei os discos Americana e Splinter que tenho até hoje). O mínimo que eu podia fazer era embalar e enviar à ele aquela pequena pérola de juventude eterna e rebelde. O cara gostou.

O disco seguiu com Want You Bad, outra pedrada boa que eu gostava e não lembrava, e explodiu minha cabeça de vez com Million Miles Away, uma música que eu tinha enterrado na memória há muito tempo. Estava lá, semi-esquecida, mas foram necessários apenas 3 segundos para que ela se redescobrisse inteira. Eu sabia a letra. Sabia o ritmo e não consegui me conter. Ouvi várias e várias vezes sempre gritando entre os versos do refrão.



Percebi que aquilo era uma das coisas que eu mais gostava no Offspring. Os gritos. Urros de guerra, bem colocados e que duelavam com a guitarra pesada ou com o vocal principal.

Percebi que gostava muito de Offspring. Gostava das pedradas, do ritmo acelerado e do Punk-Rock moderno que permeou minha adolescência junto com Green Day e Rancid. Onde eu estava naqueles dias que não ouvia Offspring, salvo quando meu irmão colocava o bom e velho Americana para tocar?

Me descobri, enfim e há 1 mês de fazer 30 anos que eu era um grande fã de Offspring.

Foram só uns 15 anos de atraso.

Mas antes tarde do que nunca, é o que dizem os sábios.

Se a banda durar mais 15 com certeza terá aqui um novo-velho fã ;)

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Obrigado Talita e Bruno pelos CDs. Vou cuidar bem deles. Vida próspera e música boa em qualquer estrada que vocês pegarem!

Obrigado Newton pelo aviso no Zapzap.

O Rock vive. Gasoline Special e Sheena-Ye esquentam quarta friorenta

20/07/2017

Duas bandas independentes e autorais - uma de Jundiaí, outra de Goiânia - mostram em pleno inverno impiedoso que o Rock brasileiro ainda tem lenha para queimar

Não deixa de ser curioso notar que foi com um texto sobre a decadência do Rock que conheci a excepcional banda Gasoline Special.


No artigo, tentei rascunhar o cenário atual da música e do Rock no Brasil, chamando o roqueiro para conhecer bandas novas e compartilhar o som que ele apreciasse para que tais bandas se destacassem e atraíssem a atenção da mídia e mantivessem o Rock, senão de volta ao topo das paradas, pelo menos vivo e saudável.

Isso foi em 2015.

Nesses dois anos pouco mudou no cenário musical. Com exceção de que agora temos um par de canções pop latinas bombando (coisa que não acontecia desde que o Maná tocava em novelas e a Shakira cantava em espanhol), o Rock permanece relegado à um nicho cada vez menor de pessoas. Velhas bandas continuam mandando seus clássicos hits ou se aposentando e bandas novas parecem destinadas às calçadas da cidade ou rock bares que insistem em manter a programação.

Em meio à tudo isso não deixa de ser bonito perceber a audácia de quem ainda tenta fazer música boa.

É caso dessas duas bandas: Gasoline Special e Sheena-Ye.

Logo que ouvi, me tornei fã da Gasoline. Seu som é rápido, explosivo e instigante. Coisa que pede para ser ouvida ao vivo. Fiquei então de olho na agenda dos caras. Oriundos de Jundiaí, a banda toca mais para aqueles lados do que para cá, mas a paciência é uma virtude, dizem os sábios. Logo a hora chegaria. E chegou.

Foi no Pico do Macaco. Confesso que não conhecia o lugar que, inclusive, fica próximo da minha casa. De estrutura simples, mais com estilo de estúdio de ensaio do que casa de show, o lugar foi suficiente para abrigar um punhado de roqueiros que vieram curtir o bom e novo Rock numa noite congelante. Gente tão ousada quanto a própria banda, é preciso dizer.

Sheena-Ye abrindo começando a esquentar a noite. Foto: Felipe Andarilho / Divulgação.
Sheena-Ye começou. Conheci o som deles no mesmo dia, pelo Youtube. Curti logo de cara. Guitarra afiada e vocal rasgado é, às vezes, tudo o que um ser humano precisa. O som é rápido, batido forte na bateria. Hard Rock dos bons. E de longe. Veio lá de Goiânia. Quando penso que o cenário de quem vive de música (e de arte em geral) é difícil numa cidade como São Paulo, fico pensando no quão mais complicado deve ser em cidades ainda mais conservadoras como a capital do Goiás, praticamente o berço do Sertanejo clássico.

Isso só torna ainda mais poética a vitória da banda. Afinal, é sim uma vitória realizar um show em cidade estranha sendo uma banda completamente autoral. Tiro meu chapéu para os caras e não resisti agradecer ao guitarrista no final. Se não fosse por caras como eles, estaríamos hoje reduzidos à CDs de Led Zeppelins e AC/DCs. Sem nada novo. Nada diferente para para fazer o sangue acelerar e o coração se sobressaltar, pego de surpresa por algo realmente bom que nunca tinha passado por ali.

Gasoline Special. Paulada atrás de paulada. Foto: Felipe Andarilho / Divulgação.
Logo na sequência entrou a Gasoline Special, hoje um Power Trio violento, capaz de fazer qualquer um estremecer com a guitarra pesada, um baixo avassalador e pancadas certeiras na bateria. Cada riff, cada solo foi enlouquecedor. Rock pesado de qualidade liderado pelo carismático Reverendo André Bode.

Gosto de pensar que, em outras épocas e países, grandes bandas como Guns N Roses e Aerosmith também tocaram em locais pequenos e fechados como aquele, preenchido por um público restrito, mas fiel fã da banda. Hoje essas bandas são lendárias, mas tudo começou ali, naquele porão frio e úmido. Há uma beleza nisso tudo. O Gasoline não começou ali. Já estão na estrada há 10 anos, mas ali estava mais um show. Mais um capítulo da história da banda.

Mais uma vitória.

Pois era quarta-feira. Era frio. Eram bandas autorais.

Sim, foram várias vitórias.

E que venham muitas outras. Pois o Rock não pode parar ;)

Conheça o som das bandas:

Sheena-Ye - Seu Tempo Acabou



Gasoline Special - Rck N Rll

Fernando Noronha, Um Mestre na Minha Casa

04/07/2017

Já imaginou como seria receber um dos artistas que você mais admira na sua casa? Veja aqui como o Fernando Noronha, um dos maiores músicos do Brasil, foi parar na minha casa


Esse cartaz que você vê acima se refere à um show que não existiu.

Pelo menos não oficialmente.

Se fosse gravado e lançado, seria um bootleg, um daqueles discos extra-oficiais (forma polida de dizer "pirata"). Mas seria o melhor de todos os bootlegs, pelo menos na minha opinião e, tenho certeza, na das outras 14 pessoas que estavam na Lil' Wilson's Hall.

Wilsinho, o Lil' Wilson e dono do Hall, é meu primo e o show, acredite você ou não, foi na casa dele.

Essa é mais uma daqueles peculiares histórias que acontecem na minha vida e que, aos poucos, eu vou juntando e colocando em livros.

Vamos à ela então.

Há exatos 10 anos conheci o som do Fernando Noronha & Black Soul. Foi com o disco Bring It que levou a outro, depois a outro. Tenho quase todos os álbuns dos caras e, se não tenho algum é por que nunca encontrei pra comprar. São poucos os artistas que conheço que me fizeram chegar nesse ponto de fazer questão de acompanhar tudo que eles constroem. É o caso de nomes como Beatles, Red Hot Chili Peppers e Jack Johnson e a admiração que tenho por esse pessoal é a mesma que tenho pelo Noronha e sua Black Soul. Sem exagero.

(Se você leu Heróis e Anônimos sabe do que estou falando. Se não leu dá uma olhada nesse link para conhecer a obra ;)

Passei esses 10 anos acompanhando a carreira do Fernando Noronha & Black Soul, um grupo de blues lá do sul do Brasil. Os caras eram discretos, mas sempre muito atarefados. Percorriam o mundo levando blues do bom para os quatro cantos. Eu sorria cada vez que ficava sabendo que Noronha e sua trupe estavam na Europa, na Austrália, nos EUA, enfim, qualquer lugar em que houvesse gente afim de ouvir música de qualidade.

Fernando Noronha no evento de junho. Foto: Felipe Andarilho
E eu aguardava, é claro, o grande momento em que eles estariam em São Paulo.

Não é surpresa para ninguém que nosso país não valoriza a cultura. Com exceção do Carnaval e de grande shows patrocinados por empresas midiáticas, pouco espaço sobra para os milhares de artistas que fazem um trabalho sério em diversas áreas.

Em suma, quem curte música do naipe do blues e do jazz por aqui tem que garimpar bem e ir atrás de festivais pouco divulgados em grandes cidades ou bares que resistem aos tempos e mantém uma programação decente.

Assim, esperei alguns anos até finalmente ter a oportunidade de ver Fernando Noronha & Black Soul em São Paulo. Na ocasião o evento tomou lugar no Sesc Ipiranga e aconteceu em 2011. Você pode ter uma ideia de como foi aquela noite nesse texto.

O show do Sesc foi bom, mas nem de longe suficiente. Impossibilitado de ficar em pé ou de consumir cerveja tive que me conter na poltrona para curtir a rápida 1 hora e pouco de show em que o grupo mandou dezenas de canções excelentes, as principais de seu então recém-lançado disco, o excepcional Meet Yourself.



Passaram-se então mais 6 anos até que eu vi no Facebook algo que me chamou atenção.

Fernando Noronha estava em uma viagem pela terra do Blues, o sul dos EUA. Excursionando com seu colega de banda, o tecladista Luciano Leães, a dupla tocou em diversos bares clássicos e visitou cidades lendárias de onde saíram grandes mestres do blues, alguns dos quais hoje seriam esquecidos, não fosse pelo esforço de caras com o próprio Noronha que fazem questão de manter a antiga magia viva.

Noronha pedia no Face, como muitos artistas hoje fazem, um patrocínio para transformar a viagem em documentário. No estilo crowdfunding a campanha prometia algumas recompensas para quem colaborasse com o projeto.

Foi então que vi que a maior das recompensas incluía além do DVD do documentário e alguns outros mimos, um Pocket Show do próprio Noronha.

Seria verdade aquilo? Por um tempo duvidei, mas depois percebi que a coisa era séria. Se você colaborasse com R$1.000 um dos melhores guitarristas do mundo, líder de uma das melhores bandas do Brasil faria um show para você e seus amigos.

O valor era alto, mas nem de longe caro diante da oportunidade que se apresentava. Chamei meu primo, Renato, velho parceiro de aventuras e amante incondicional do bom e velho blues para ver o que ele achava da empreitada.

Estávamos num bar, levemente alegres, quando ele disse o que eu já imaginava:

- É o Fernando Noronha. Vamos nessa!



Assim, fechamos o patrocínio. R$500 para cada era ainda mais fácil de cobrir. Pode ainda parecer caro, mas quando sabemos que é o mesmo valor para um dia de Rock In Rio ou Lollapalooza e que, nestes eventos, você vai conferir show de grandes bandas a pelo menos 1 quilômetro do palco e pagando 10 reais numa lata de Budweiser, o preço está até que bem barato.

Ainda mais quando se trata de um cara que você admira e tem consideração. Bandas do Rock In Rio são, sem dúvida, muito boas. Elas me fazem sacudir a cabeça. Fernando Noronha me faz sentir alegria em viver.

Trata-se de um cara que é bom no que faz e o que ele faz é justamente te colocar para cima quando você o ouve. Um cara que consegue, por meio de um virtuosismo impressionante com a guitarra, transmitir a mais pura graça da vida.

Pois então estava tudo certo.

Fechamos o patrocínio.

E aí começaram as questões logísticas.

Afinal, Noronha é do Rio Grande do Sul e o show seria em São Paulo. Foi preciso encontrar um dia na agenda do músico em que ele estivesse na região para que seu Pocket Show permanecesse financeiramente viável. Surgiu a opção de fazer o evento no dia 25 de junho. Era um dia após um festival de blues em Ilhabela, então já tínhamos o principal, Noronha na área.

Wilsinho, o dono do Hall e Noronha. Foto: Felipe Andarilho
Era preciso então encontrar um lugar, convidar o pessoal e, como eu viria a descobrir depois, correr atrás de uma estrutura minimamente necessária para o evento e também providenciar o transporte do artista. Normalmente essas questões costumam ser um pé no saco. Sei disso porque trabalho com Marketing e, em 10 anos de carreira, nunca vi alguém dizer que o evento saiu 100% conforme planejado e sem stress. O diabo mora nos detalhes e um evento é cheio deles. Aprendi algumas manhas na profissão, mas ainda assim não consigo evitar todas as surpresas.

Mas, já diziam os Beatles, quando se tem amigos a gente consegue as coisas. Meu primo ofereceu sua casa, ou melhor, o salão do seu prédio. Eu tinha um amplificador velhinho, meu primo tinha outro. Um amigo conseguiu um microfone. Outro teve a gentileza de emprestar um pedestal. Fui buscar o mestre em Guarulhos. Cada um levou sua cerveja e, voilá, nosso evento estava pronto.

Se por um minuto senti um mínimo daquele nervoso frio na barriga que aflige qualquer coitado que esteja em cargo de organizar qualquer evento, isso logo se revelou mais uma suave brincadeira da vida quando o show efetivamente começou.

Foram dezenas de pérolas do blues. Hábil músico Fernando usava um pedal de gravação para fazer o som de duas guitarras. Com uma fazia a base, com outra solava como quem nasceu para aquilo. A voz tipicamente grave harmonizava em perfeição com o ritmo envolvente de saloom que o cara fazia. Era difícil assistir e acreditar que toda aquela massa sonora vinha de um cara só. Mas era assim. Como ele fazia? Não sei e nem ouso tentar entender.

Em meio à vários clássicos, algumas da própria carreira. Blues From Hell foi uma delas. Também saíram Changes, Blues for the World e, um dos pontos altos da noite, Ain't no Angel na qual meu primo e eu cantamos como fizemos em poucos shows da vida. Faltaram várias, sim. Mas nada que prejudicasse as mais de 2 horas de apresentação.

(Essa é uma que fez falta:)



Mais à frente, quando vi o Fernando Noronha mandando um som incrível com aquele meu velho amplificador e toda a pequena estrutura que conseguimos, tenho que admitir que fiquei emocionado. O cara estava ali, afinal. Na nossa casa. Tocando um blues para os nossos amigos.

E o melhor de tudo: ele era um dos nossos amigos.

Dono de um hábito que só os melhores bluesman têm, Noronha gosta da prosa. Assim como eu vi B.B. King e Buddy Guy fazendo, lá estava nosso mestre em sua inata humildade, trocando uma ideia. Simplesmente falando. Conversando sobre como descobriu tal canção. Sobre quem era a lenda humana que ninguém conhecia, mas que tinha escrito aquela pérola que ele tinha acabado de tocar.

A cada canção ele falava um pouco. Nos dava pequenas lições de música e a grande lição de que um gênio nunca para de estudar. Noronha é reconhecidamente um dos maiores músicos do Brasil e, mesmo assim, age com uma fome voraz de conhecimento. Está sempre indo atrás de sonoridades, assistindo documentários e, enfim, vendo o mundo por meio da música.

Seu documentário Highway 61: From Chicago to New Orleans é prova disso. Lá estava um cara que curtia música fazendo nada menos que pesquisar, curtir e tocar. Em breve poderemos conferir como foi a viagem pelo berço do blues, afinal, com a ajuda de outros entusiastas como eu e meu primo, Noronha conseguiu atingir a meta de financiamento do filme.

Fico feliz em ter feito uma pequena parte nessa contribuição, mas minha recompensa foi muito maior do que eu esperava.

- É sempre bom o fã distinguir o artista da obra - disse Noronha naquela noite no Lil Wilson's Hall.

Eu concordo.

Mas é muito bom perceber que o cara de quem você é fã pela obra é também um puta de um cara gente boa.

Obrigado Fernando Noronha.

Que venham mais e melhores blues para todos ;)

E para provar que essa história toda é real, esta aí a foto. Eu (esq), meu primo Renato (dir) e o grande Fernando Noronha. Foto: Alexandra Alzate

Agradecimentos especiais à Alexandra Alzate, Clarice Savastano, Wilson Soares, Renato Perazza, Tales Gremen e Luci Lazzaris pela força na organização desse pequeno-mega evento.

50 anos de Sgt. Peppers no mundo e 15 na minha vida

19/06/2017

No final de maio o disco dos Beatles, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, completou 50 anos de vida.

Lançado em 26 de maio de 1967, o álbum é considerado um dos mais importantes da história da música e um dos melhores discos de Rock já produzidos.

Mas será que é pra tanto? Sgt. Peppers é assim tão bom? Sou fã de Beatles há tempo suficiente para realizar uma análise fria da obra e abaixo você vai entender o motivo de tantos títulos honoríficos.

Vamos à andança...


Eram os Beatles

Tratavam-se dos Beatles. Tudo que esses caras faziam era permeado por um hype tremendo. Não era por menos. Eles estavam no auge de suas carreiras. Eles já tinham dominado a América e a Ásia. Já tinham feito 2 filmes e a beatlemania havia se espalhado para literalmente todo canto do mundo. Para piorar (ou melhorar) no ano anterior eles haviam lançado nada menos que Rubber Soul (melhor disco deles na minha opinião) seguido por Revolver. Não era de se estranhar que o público esperasse mais uma obra-prima. Eu é que não queria estar na pele deles naquele tempo. A pressão devia ser imensa. Ou eles surpreendiam o público com mais um disco formidável ou seria criticados até a alma.

Leia também: Rubber Soul, um disco para a vida adulta

O Conceito


A grande genialidade do disco - muito mais do que suas músicas - foi seu conceito. Por mais que Cleiton Heylin em seu bom livro "Sgt. Peppers - Um ano na vida dos Beatles e amigos" tente desqualificar este aspecto da obra, usando inclusive palavras da própria banda, é inegável que Sgt. Peppers inaugurou um estilo de álbum pensado como um todo. Até então discos eram basicamente as canções da banda em uma ordem pré-definida. Em Sgt. Peppers, tudo segue um conceito, ou caso você não concorde com o termo, pelo menos uma direção artística encabeçada por Paul McCartney. A capa do disco, seu encarte, o marketing promocional e viral, as roupas que a banda usava e algumas canções do disco... Enfim, tudo girava em torno dessa mística figura do Sargento Pimenta e sua banda de Corações Solitários. Afinal, quem eram esses caras? De onde eles vinham? Tudo era uma viagem sensorial maravilhosa sem o menor sentido. Isso foi o mais legal do conceito: nada precisava de explicação.

A Capa


Sem dúvida a capa do álbum é um de seus pontos mais fortes. Ideia, mais uma vez, de McCartney, a capa reúne dezenas de figuras famosas que, de certa forma, chamavam a atenção da banda. Numa colagem meio dadaísta a multidão de papel se reúne atrás dos Beatles (devidamente trajados como uma banda itinerante). Completam o quadro muitas flores, cores e até mesmo uma boneca de criança com a camisa estampando um recado para a banda concorrente / amiga: "Bem-vindos de volta Rolling Stones". O resultado é uma explosão visual maravilhosamente confusa, mas que consegue trazer um quê de ordem à composição. O resultado foi tão poderoso que inspirou dezenas de capas de outros artistas, incluindo uma do nosso Zé Ramalho no disco Nação Nordestina.

As Inovações


Nem só de músicas boas foi feito o disco. Sgt. Peppers ainda trouxe uma série de amenidades que só contribuíram para o marketing em cima do disco. A novidade mais importante foi a inserção das letras no encarte. Foi o primeiro álbum a fazer essa prática que é usada até hoje pela maioria das bandas. Além disso o encarte trazia uma parte recortável com um bigode e listras de uniforme militar em tamanho real para que o ouvinte pudesse usar e se sentir ainda mais parte daquela festa bizarra.

Músicas


Talvez o ponto menos importante nessa análise. Não que Sgt. Peppers seja um disco ruim. Muito pelo contrário. É um álbum excepcional. Mas se você ouvir todos os discos dos Beatles e ranqueá-los do melhor para o pior é muito provável que Sgt. Peppers acabe exatamente no meio. De forma alguma isso quer dizer que o álbum é mediano. Estamos falando de Beatles, lembra? Tudo em que eles colocaram a mão acabou de uma forma ou de outra minimamente boa. Mas quando você compete com Rubber Soul, Revolver, Abbey Road e até mesmo o inaugural Please Please Me, é muito fácil acabar para trás.



Sgt. Peppers é um disco muito bom, mas que carrega algumas canções bem mais ou menos. A canção-título que abre o disco é fenomenal e sua reprise no final ainda melhor. With a Little Help From My Friends e A Day in the Life são duas obras-primas por si só. Lucy In The Sky é hipnoticamente boa. Getting Better é um gostoso hino ao otimismo. Lovely Rita é um Rockão viajante dos bons.

She's Leaving Home, Being for the Benefit From Mr. Kite!, When I'm Sixty-Four e Good Morning, Good Morning são canções médias numa escala Beatle (ou seja, ainda infinitamente melhores que a maioria das músicas do mercado). São boas, você raramente pula quando ouve o disco, mas não são aquelas que você quer repetir ou que quer ouvir isoladamente num dia ensolarado com seus fones de ouvido numa caminhada pela vida.



Na Minha Vida

Tenho um lugar especial para o Sgt. Peppers no meu coração. Ganhei o CD de aniversário em 2003, quando eu completei 16 anos. Uma idade emblemática. Tímido e nerd eu era o garoto com poucos (porém fiéis) amigos que preferia o silêncio à festa. Acho que eu estava começando a ficar adulto e não gostava tanto daquilo. Frequentava o colegial, meus últimos anos de escola. O final da minha infância inocente. Eu começava a sair pelo mundo. Gostava de andar pela cidade com meu discman e meu Sgt. Peppers me acompanhou muito nessas caminhadas solitárias, porém felizes. Era na estrada onde eu me sentia realizado. Livre das preocupações e pressões. Livre das desilusões amorosas e dos simulados para o vestibular. Com Getting Better e A Little Help tocando eu sabia que nada tinha a temer. Eu andava, sorria e o quarteto me dizia: fica tranquilo, vai dar tudo certo com uma pequena ajuda dos seus amigos. E tudo realmente deu certo. Mesmo sem saber isso na época, eu respondia: tenho que admitir, está melhorando toda hora.



Respondendo a questão que abre esse texto: Sgt Peppers, o conceito completo, e não só o disco, é realmente um trabalho sensacional. Merece todos os créditos ainda que, movidos pelo hype marqueteiro, alguns soem bastante exagerados.

E que venham mais 50 anos como um ícone da cultura.

[CONHEÇA] Os Absurdamente Bons Metal Covers de Leo Moracchioli

06/06/2017

Norueguês virtuoso usa talento para divertir no Youtube

Leo Moracchioli em ação. Foto: Divulgação

Não sou aquele grande fã de Metal Pesado. Gosto sim de muitas bandas do gênero, mas quando a coisa chega num nível muito extremo não consigo me deixar levar. Talvez seja o vocal gutural ou agudo demais, talvez a guitarra tão acelerada que acaba parecendo um MIDI do Mega Drive. Enfim, há algo nos Trash, Doom e Death Metals da vida que eu não consigo gostar.

Apesar disso acabei outro dia ouvindo canções do gênero por horas a fio. Fiquei aqui, no computador, trabalhando e sacudindo a cabeça. E o pior: eu estava rindo.

Rindo. Isso aí.

Trash é lixo. Doom é sofrimento. Death é morte. Da onde afinal podem sair risadas?

De um cara que não leva nada disso a sério, mas tem muita moral para falar. E a moral vem de uma habilidade absurda com a guitarra, bateria e vários outros instrumentos.

Estou falando de Leo Moracchioli.



Talvez você nunca tenha ouvido falar. Eu também não tinha. Mas logo que o conheci, passei aquelas várias horas escutando suas músicas.

E assistindo seus vídeos. Ah, que vídeos bons...

Agora você me pergunta: o que tem de tão especial nesse tal de Moracchioli que me fez não apenas desfrutar um estilo de Rock que não costuma me agradar, mas também viajar nele por horas e o pior: rindo?

Acontece que Moracchioli é um gênio dos instrumentos de Rock. Além disso o cara é talentoso para criar vídeos. Todos seus clipes são  inteligentemente produzidos e bem editados.

E tudo isso por que o cara tem um talento ainda maior do que tudo isso: o humor.

Bom humor.

O Metal é cheio de caras feias, xingamentos e invocações do mal tão batidas quanto exageradas. Ver um cara musicalmente fenomenal, mas muito bem humorado é um alívio para a alma. Você curte o som e sorri dos Metal Covers de clássicos do Rock como Wonderwall do Oasis, Californication do Red Hot e Black Hole Sun do Soundgarden.

Confira a versão Metal de Wonderwall:



Mas talvez as melhores versões sejam das canções Pop que o cara faz. Essas músicas citadas são boas de qualquer jeito e não deixa de ser interessante conferir versões pesadíssimas desses clássicos. Mas ouvir coisas como Shape of You de Ed Sheeran, Don't Speak de No Doubt e Get Lucky do Daft Punk numa versão extremamente pesada e suja é algo espetacular.

Tudo isso só fica ainda melhor com os vídeos.

Neles, o multi-instrumentista encarna seus personagens e faz piada deles e do próprio metal. Uma trança viking na barba em contraste com o óculos de nerd só servem para ajudar a levar tudo ainda mais na risada.

Com uma edição afiadíssima que acompanha de perto cada nota pesada e vocal gutural, o cara aparece tocando instrumentos de criança, vestindo perucas, fazendo paródias (Wonderwall é sensacional) enfim, se deixando levar pela energia da própria música que ele constrói.

Confira a versão Metal de Shape of You (Minha preferida):



Tiro meu chapéu para o cara.

O mundo está cheio de gente que fala demais e faz de menos. Gente que se sente superior por saber um pouco mais ou, pior ainda, por achar que sabe mais.

Ver um cara que toca tão bem quanto grandes guitarristas do mundo usando o que sabe com a única finalidade de divertir é, como dito acima, um alívio para a alma ;)

Confira a versão Metal de Get Lucky:


Só Diga Sim!

01/06/2017

Banda acostumada a falar de tristeza ensina com maestria o poder da resiliência

The Cure trazendo mais lições para a vida. Foto: Divulgação

The Cure é uma banda que, na maioria das vezes, enxerga o copo mais vazio do que cheio, se é que me entende. Eles são daquela linha alternativa dos anos 80 que encontrava na música uma forma de colocar pra fora toda sua mágoa, arrependimento, medo e desilusões da vida. Nada de ruim até aí. Afinal, quem não costuma, volta e meia, colocar um som mais melancólico para afinar os sentimentos?

É por isso que é tão interessante ouvir uma música do The Cure que seja exatamente o oposto do que estamos acostumados a ouvir. É o caso de Just Say Yes, canção lançada como single em 2001.

Vamos à andança



Você provavelmente já sentiu isso antes. Talvez você esteja até familiarizado com essa sensação. Ou pior: você até gosta dela. Aquela insegurança, aquele medo que parece bobo. Nada demais, você diz a si mesmo e arranja uma desculpa para não tentar. Estou cansado. Não estou com a roupa adequada. Esqueci de passar um perfume.

Você sabe que é tudo mentira. No fundo sabe. Tudo isso é uma encenação que cai como uma luva para você não se sentir mal ao encarar a verdade. A verdade é que você é um covarde. Você tem medo de não dar conta. Pensa que vão te achar um babaca. Acha que é pior do que o cargo que estão oferecendo. Ou que não vai conseguir segurar as pontas sozinho, naquela viagem.

Você é um bom ator. Age normalmente na frente dos outros. Consegue convencê-los de que te tudo sob controle.

Nenhum deles imagina o quanto você sofre quando ninguém está olhando.

E aí você coloca um The Cure, pois eles sabem, como nenhuma outra banda, como é se sentir pra baixo. Se sentir perdido, sozinho e angustiado.

Mas sem perceber você colocou Just Say Yes. E sentiu, ali, logo de cara, um ritmo diferente. Gritos femininos dando uma energizada no balanço que já era legal.

E eles, sim eles, afinal, trata-se de um dueto: Roberth Smith e Saffron, cantam juntos. Coisas bacanas. Coisas para cima. Coisas que você não estava preparado para ouvir, mas que despertam seu espírito como um bom e velho tapa na cara. A dor passa e o zumbido não fica. No lugar dele está o ritmo excepcional da música.

E você se pega acreditando, mais uma vez em si mesmo.

Se percebe capaz de qualquer coisa.

Se te pedissem agora para atravessar o oceano atlântico num barco a remo você iria. Se te desafiassem a cavar um túnel com uma colher, você tiraria de letra. Tudo isso por que a música fala coisas como:

Não diga talvez
Não diga não
Não diga espere
Não diga devagar
Não diga da próxima vez
Não diga quando
Não diga mais tarde
Não diga então
Não seja cauteloso
Não pense duas vezes
Não banque o seguro
Não o ponha no gelo
Não fique remoendo
Não chute prá lá e pra cá
Não espere e veja
Não tente resolver

Então não me diga
Que tudo podia estar errado
Não, não me diga
Que tudo podia estar confuso
Oh não me diga
Tudo podia ser uma perda de tempo

Apenas diga sim! Diga agora!
Se deixe levar!
Apenas salte! Não olhe!
Ou você nunca vai saber
Se você ama
Então venha e ame!

Apenas diga sim!

Essa é a força dessa música.

Você escuta é ela serve como aquela poção do Asterix. Você se torna poderoso. Maior e mais forte. Todo o medo e a mágoa ficam parecendo insetos pequenos e você nem mesmo tem vontade de esmagá-los por pura dó. Você sabe que tem domínio sobre eles. Não precisa da violência. Prefere lidar com eles do que simplesmente removê-los, como se isso fosse possível.

Então siga o conselho do Cure.

Pare de adiar. Pare de inventar desculpas. Pare de se reprimir. Pare de se preocupar.

Simplesmente tome uma atitude. Respire fundo, acredite em Deus e "salte sem olhar".

Aconteça o que acontecer, nada vai te tirar a adrenalina da "queda" e a glória de ter enfrentado o momento ;)

Meditando no Banheiro, meu novo livro será lançado no final do mês

18/05/2017

Isso aí, você leu direito!



No final deste mês será o lançamento do meu segundo livro.

MEDITANDO NO BANHEIRO chega exatamente 2 anos após o lançamento do meu primeiro livro, Heróis e Anônimos que, modéstia à parte, recebeu boas críticas dos leitores.

E foi justamente por eles, meus leitores, ou em outras palavras, amigos e familiares, que decidi continuar escrevendo de forma independente. Meditando no Banheiro será lançado no dia 27/5, sábado, e você, leitor do blog Músicas de Andarilho é, mais uma vez, convidado à participar desse momento.

Decidi continuar na escrita porque, além de gostar da atividade, fui convencido por bons amigos a manter o ritmo. Não viso fama nem viver como escritor, mas se um hobbie pode se sustentar e levar alguma mensagem positiva para as pessoas, então por que não?



Sobre a obra

O destino gosta de jogar com as pessoas. É preciso saber lidar com ele. Não se pode ignorá-lo, nem lamber as bolas dele. É preciso ser frio. O sábio reconhece a força do destino. Não luta contra ela, mas não espera nada realmente. Às vezes ele te leva para o outro lado do mundo para te mostrar algo que estava embaixo do seu nariz. Às vezes vira sua vida do avesso sem ter nada para dizer de concreto.

Quando era garoto, Roberto escapou até a praia e passou algumas horas em contemplação olhando o mar. Naquele dia qualquer, era só ele, o sol e o som do vento sobre as ondas. E o Faísca, é claro. O cão vira-lata e sujo chegou do nada e deitou no pé do menino. Por um momento que poderia ser uma vida, os dois ficaram ali em silêncio. Um lapso de entendimento numa vida enigmática. Da mesma forma que chegou, o cachorro se foi. Simplesmente levantou e foi embora. O bastardinho nem olhou para trás. O garoto cresceu e nunca parou de procurar pelo cão. Talvez seja pura infantilidade. Ou talvez, Roberto saiba, de algum modo, que o Faísca está por aí, em algum lugar. Ele só precisa encontrá-lo.

Não preciso nem dizer que essa jornada vem regada à muito Rock and Roll, né?


Te espero lá!

Se interessou por essa épica odisseia da vida cotidiana escrita em formato de crônica etílica? Então nos vemos no lançamento!

Data: 27/5
Hora: A partir das 17h
Local: Bar Jacaré Grill, Rua Harmonia 305, Vila Madalena, São Paulo
Não paga para entrar. Paga-se apenas o que consumir no bar.
Preço do livro: R$39,00
Pagamento em dinheiro, cheque ou transferência online.

Saiba mais

Meditando no Banheiro já está à venda no site da Editora Multifoco. Então se você não pode ir no lançamento, mas quer ler, pode comprar online clicando aqui.

Caso queira comprar meu primeiro livro, Heróis e Anônimos, clique aqui.

Assim falou Santo Tomaz de Aquino

12/05/2017

Desabafo do autor:

Caramba! Nunca consegui me dedicar tão pouco ao meu bom e velho Músicas de Andarilho. Mas a falta de tempo para essa atividade revela que estou ocupado com outros projetos, o que é um bom sinal. Em breve vocês ficarão sabendo de mais uma novidade bacana!

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Vamos à andança...

Mestre Jorge Ben traz mais uma canção elucidativa

Faz muito tempo que quero falar sobre essa canção.

Ela é do mesmo disco do Jorge Ben onde está a pérola sagrada Velhos, Flores, Criancinhas e Cachorros, uma das minhas músicas preferidas da vida, a qual uso como oração quase todos os dias. Mais precisamente, ela antecede essa obra, o que é ótimo, pois vai preparando o terreno para o papo mais intimista e religioso com ninguém menos que Deus do Céu.

Assim Falou Santo Tomaz de Aquino é, como muitas canções dessa fase de Jorge Ben um tanto quanto mística. Mas, diferente do mantra que segue ou da clássica Jorge da Capadócia, essa canção não é bem uma oração. É mais um exercício de filosofia. Se no disco Á Tábua de Esmeralda ele usa a filosofia para analisar a Alquimia e os Astros, aqui ele usa a ferramenta dos sábios para nos ajudar a entender nada menos que Deus do Céu.




Aliás, "ajudar a entender", pode soar um tanto contraditório. O que ele faz na verdade é nos ajudar a entender que Deus é inintendível. Conforme a canção avança, Ben explica, com as palavras de Santo Tomaz de Aquino - grande pensador e teólogo que, apesar de Santo, não se prendia à amarras da Igreja. Ele começa:

A semelhança da criatura com Deus é tão imperfeita
que não chega a ser um gênero comum, comum

Pode soar complicado, ainda mais com os versos que seguem, mas parando para a analisar fica fácil.

Deus é um ser Supremo. Todo Poderoso. Onipresente e Onisciente. Certo? Já nós, pobres humanos somos exatamente isso: humanos. Temos uma série de qualidade que, tenho certeza, deve fazer Deus se orgulhar, sendo a principal delas a razão. Mas mesmo usando todo nosso poder de raciocínio, algo que jamais vamos entender por completo é essa tal Onisciência e Onipresença. A final, como é saber tudo e estar em todo lugar ao mesmo tempo? Podemos ter uma ideia do conceito, mas jamais (pelo menos não enquanto não atingirmos a iluminação) saberemos como é a sensação de onipresença e onipotência.

Capa do disco Solta o Pavão, de 1975. Foto: Reprodução

Outros versos da obra dizem:

Deus não é uma medida proporcionada ou medido
Por isso não é necessário que esteja contido
No mesmo gênero da criatura

Esse é o ponto.

Deus é Deus. Homem é Homem. Temos limitações intelectuais que não nos permitem compreender diversos mistérios. O universo. A beleza da vida. O número Pi. É por isso que jamais poderemos dizer com certeza qualquer coisa sobre Deus. Tudo que podemos fazer são, como ensina a filosofia, conjecturas e hipóteses, mas nada é 100% concreto nessa vida.

Ilustração de Gustavo Dore sobre a Divina Comédia. Momento em que Dante visualiza Deus. Ótima forma de ilustrar a magnitude e complexidade do Pai. Foto: Reprodução

Dessa forma cai por terra qualquer definição que fazemos sobre Deus. Podemos dizer que Ele é homem velho de barba branca. Que Ele mora num castelo no céu cercado de anjos. Que Ele tem um globo onde vê todas nossas ações e depois nos julgará com base nelas. Parando para pensar um pouco esses conceitos se revelam um tanto infantis. Não temos culpa, porém. Diante da magnitude e complexidade do Pai, é isso que somos. Um bando de crianças inocentes que ainda não sabe nada da vida.

Você deve ficar chateado com isso?

Claro que não. Primeiro por que estamos aqui para aprender. E reconhecer a própria ignorância é o primeiro passo para um aprendizado sincero e eficiente.

Segundo porque parte da beleza Divina é a Fé. É aquela relação de confiança que você tem com Deus que, como muita coisa no mundo, não tem uma explicação final. Você simplesmente confia. E as coisas dão certo de um jeito ou de outro. Você não precisa entender Deus como uma equação matemática. Você talvez não entenda sobre ondas de calor e raios UV, mas sente o sol e confia nele para secar suas roupas ou para energizar seu corpo. Você não necessariamente entende de botânica e células, mas quando as flores bonitas nascem no seu jardim você acredita que há algo por trás daquilo.

Com Deus é o mesmo. Não tenha pretensão de entendê-lo como um livro. Não acredite em quem diz que recebe Dele instruções exatas como um e-mail no computador. Ele está muito acima disso. Você pode senti-lo e talvez até ouvi-lo. Mas provavelmente não será com palavras que Ele irá lhe falar.

Ben completa:

Por isso dobro os meus joelhos
Diante do pai de nosso Senhor Jesus Cristo
Do qual toda sua sábia paternidade
Tomou nome nos céus e na terra
Assim falou Santo Tomaz de Aquino


Fé. A graça de acreditar em Deus mesmo sem entendê-lo.

E o melhor de tudo. Toda essa poesia belíssima vem com um ritmo gostoso, suave e animado. Como tudo o que Ben faz é uma arte de mestre, ele usa o violão para criar o ritmo bonito que conduz a obra. Ele encerra ainda com um refrão maravilhoso:

Senhor Tu tens tido feito o nosso refúgio

E deixa a lição para nós refletirmos. Mesmo que você não entenda por completo Deus, confie Nele. Viva com Ele. Inspire-se Nele e seja feliz ;)

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