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A música deve sempre refletir os tempos?

01/11/2017

A cena parece tristemente comum. Um deputado conivente com um Governo corrupto comemora a salvação do Presidente. Para isso ele entoa os versos:
Tudo está no seu lugar. Graças a Deus. Graças a Deus.
A música a que esses versos pertencem foi composta por Benito di Paula, um cantor e compositor consagrado da música brasileira. Desgostoso com o contexto ao qual sua canção foi associada, o músico reclamou, dizendo que a canção tinha sido composta para sua mãe, não para o cenário de sujeira e lambança que ilustra nosso Parlamento.

Benito di Paula não gostou (com razão) da comemoração do deputado ao som de sua música. Foto: Reprodução

Leigo que sou, decido pesquisar sobre Benito de Paula.

Encontro que o músico foi duramente criticado no passado justamente pela composição dos versos acima que, mais de 40 anos depois, ajudariam o deputado a dançar.

O motivo das críticas na época do lançamento da canção, mais precisamente em 1976, foi que alguns ouvintes entenderam na canção uma posição de comodismo com relação à ditadura. Para eles, com um Governo ditador no comando, ninguém poderia jamais dizer que tudo estava no seu lugar. Pelo visto, estas pessoas não sabiam ou ignoraram que, como disse o compositor, a música era para sua mãe. Só isso. Nada de contexto social nesse caso. Nada de problemas, de politicagem. Era só uma homenagem à mãe. E qual o mal nisso?

No documentário da Netflix sobre a vida de Nina Simone, a poderosa cantora de Jazz questiona:
Como você pode ser um artista e não refletir os tempos?
Ativista ao extremo, Nina Simone é um dos exemplos de vozes que, assim como Bob Dylan, Midnight Oil, O Rappa e Gabriel, o Pensador, vivem para cantar sobre as mazelas do mundo. São artistas que se inspiram no contexto social de seus países e do mundo e daí retiram suas rimas, melodias e ritmos. Mais do que isso, são vozes que cantam por quem não pode cantar.

Nina Simone, uma das vozes mais fervorosas do mundo. Foto: Divulgação

É um ato nobre. Sem dúvidas que sim.

São artistas que usam o poder e o dom que lhes foi dado para algo maior do que o simples entretenimento.

Ainda assim, será que todo artista deve obrigatoriamente, como sugere Simone e os críticos de Di Paula, refletir os tempos?

Penso que mundo chato seria esse em que toda e qualquer canção tenha um cunho político e, consequentemente, uma carga energética pesada.

Música é uma forma de extravasar uma emoção. Seja ela o ódio pelo preconceito, seja a alegria por encontrar um amor. Seja o desprezo contra a política corrupta, seja a tranquilidade de, digamos, apreciar uma gravata de um desconhecido na rua.

O artista que reflete seu tempo é, sem dúvida um grande artista e será devidamente reconhecido pela coragem que faz pulsar nas pessoas que os ouvem. É um artista essencial para o mundo. Assim como aquele artista que celebra a vida, em qualquer detalhe ou ponto de vista. Há música para qualquer momento e tudo que é demais, cansa ou faz mal. Fã que sou do Gabriel, o Pensador, tenho que assumir que não consigo escutá-lo por tempo demais. Simplesmente porque não consigo me desligar de suas rimas. Quando o ouço, tenho que prestar atenção na letra. Tenho que compartilhar com ele minha indignação. Tenho que ficar chateado e raivoso com o meu País de merda. Não consigo ouvir Brasa ou Até Quando? e não ficar mal. Na bad, mesmo.

O Pensador, capaz de nos fazer refletir sempre, em cada verso. Foto: Divulgação

O mesmo acontece quando ouço Beatles, a banda da minha vida. É tanta romantismo que, uma hora sinto que preciso de algo mais abstrato, menos compreensível. Quem sabe até instrumental, assim eu não cismo de cantar e interpretar junto.

Há espaço para tudo na cabeça de um ouvinte médio.

Há lugar para o músico crítico e há lugar para o músico apreciador. Há também lugar para o viajante, aquele que fala do nada e do tudo e ninguém entende direito do que se trata.

Essa é uma das melhores coisas da música. Há música para tudo. Para todos. Para qualquer momento e qualquer emoção.

Aos músicos que refletem os tempos, o meu máximo respeito. Vocês não serão esquecidos. Aos que cantam sobre outras coisas, pequenas ou grandes, mas o fazem com o coração, respeito por vocês também ;)

Para não dizer que não teve música:

Relembrando Chris

06/10/2017



Momento 1

Eu tinha uns 15 anos. Estava na escola. Provavelmente intervalo entre aulas. Eu gostava de Rock, mas era limitado, teimoso e mente fechada. Uma amiga estava cantarolando algum som que eu provavelmente viria a gostar no futuro, mas que fiz questão de dizer como era ruim.

Ela fez uma careta, retrucou qualquer coisa e eu sentei na frente dela. Olhei seu fichário e havia ali em uma das divisórias, escrito com Liquid Paper, a letra de uma canção. Percebendo minha curiosidade ela me emprestou os fones e colocou a música.

- Legal - eu disse com desprezo, levantei e fui embora.

Foi assim que eu conheci Like a Stone.





Momento 2

Eu tinha uns 17 anos. Já era uma prática comum gravar CDs com as músicas que você quisesse, como a gente fazia com as fitas K7 no passado. Apesar disso, ainda era novidade gravar um CD no formato MP3. Era preciso um disc man especial para tocar esse tipo de mídia, mas a vantagem era que, num único disco, você podia colocar umas 100 músicas ou mais.

Eu já gostava de mais bandas além de Beatles e U2, mas ainda conhecia pouco do mundo. Talvez querendo me ajudar a descobrir sonoridades boas, meu primo me gravou um desses discos em MP3. Foi assim que ouvi com calma e mente aberta uma das músicas mais poderosas da vida. Nunca me esqueci. Era uma pedrada. Algo bom e diferente. Algo que eu precisava. Era difícil acreditar que alguém no mundo conseguisse cantar como aquele vocalista.

Foi assim que eu conheci Show Me How to Live




Momento 3

Eu tinha uns 19 anos e arrumei um estágio em um estúdio de design. Lá o rádio vivia ligado na Kiss FM e, dessa forma, conheci várias bandas boas. De vez em quando alguém trazia um CD. Foi assim que ouvi, pela primeira vez, um trabalho solo do Chris Cornell. Eu já era viciado em canções como Show Me How to Live, Like a Stone e Be Yourself, mas eram todas músicas do Audioslave. Nem imaginava que o cara poderia ter discos solo.

Era um disco ao vivo e acústico e, por mais que a palavra "acústico" não tivesse nada a ver com Cornell num primeiro momento, me surpreendi muito ao ver como ele encaixava sua voz absurda em canções acompanhadas só pelo violão. Eu não estava lá, mas podia visualizar Chris cantando de olhos fechados, em outra dimensão, amando o que fazia.

Era certamente um cara que cantava com paixão.

Foi assim que conheci Black Hole Sun.




Momento 4

Eu tinha uns 20 anos. Tinha arrumado um emprego bem legal com vários caras que curtiam Rock compartilhando a mesma sala.

Um deles conhecia mais bandas que a Wikipedia e era fanático pelo que rolou nos anos 90. Ele comentou sobre uma reunião de alguns músicos famosos na época para homenagear um amigo falecido. O grupo chama-se Temple of the Dog e tinha nos vocais nada menos que Eddie Vedder do Pearl Jam e Chris Cornell, do Audioslave e Soundgarden.

Foi assim que conheci Hunger Strike.




Momento 4

Eu tinha uns 21 anos. Trabalhava e estudava que nem um camelo, ganhava pouco, mas ainda conseguia um tempinho para jogar o Playstation 2 do meu irmão. Joguei poucos jogos de vídeo-game na vida e a maioria deles foi por causa da trilha sonora. Era o caso aqui. O jogo era GTA: San Andreas. Sim, era aquele jogo politicamente incorreto em que você roubava carros e podia matar quem quisesse. 

Eu não estava nem aí para a possibilidade de roubar ou matar livremente. O que eu gostava mesmo era de pegar algum carro e ficar viajando pelas estradas do cenário enorme do jogo. De tão bem feito que era haviam até rádios a escolher. A que eu sempre sintonizava era a Radio X, onde rolava um Rock dos anos 90. Era só coisa fina. Coisa do tipo de Guns N'Roses, Danzig, Helmet, Living Color e Soundgarden.

Isso aí. Lá estava ele de novo. Chris Cornell na rádio fictícia do meu carro virtual dentro de um jogo. Parando para pensar é preciso um mínimo de qualidade para conseguir essa proeza.

Foi assim que eu conheci Rusty Cage.



Momento 5

Eu tinha uns 25 anos. Gastava boa parte do meu salário em CDs de lojas que já começavam a fechar as portas.

Foi assim que eu conheci Revelations. Escutei esse disco pelo menos umas 5 mil vezes.


Momento 6

Eu tinha 29 anos. Chris Cornell tinha morrido há alguns dias. Encontrei com meus bons amigos num barzinho. Fazia tempo que não nos víamos e tomamos umas cervejas bem geladas.

Na volta um amigo me deu uma carona até em casa. Roqueiro como era, o cara havia preparado uma lista de músicas em homenagem a Chris Cornell. Perguntei se ele havia ficado chateado com a morte do músico.

- Chorei - ele disse.

Uma música bem pesada tocava no fundo. Mesmo assim, naquela hora, eu é que quase chorei.

Foi assim que conheci Outshined.



Foram muito mais que 6 momentos, mas esses são os que me lembro melhor. Momentos em que, não alguém qualquer ou um artigo na internet me disse. Foram momentos em que o mundo me disse.

Me disse que Chris Cornell era o cara.

Esteja em paz, Chris ;)

Show dos Novos Baianos. Uma noite de alegria e aprendizado

18/09/2017

Show dos Novos Baianos em São Paulo, 01/09/2017

Muito antes de conhecer o som dos Novos Baianos eu conhecia de nome Moraes Moreira, Baby Consuelo e Pepeu Gomes.

Novos Baianos reunidos. Foto: Divulgação

Sempre fui mais ligado ao Rock. Ou seja, estava sempre rodeado de amigos roqueiros. E como todos amigos roqueiros do planeta, nossa conversa era basicamente sobre bandas, indicações de novas músicas, histórias sobre shows ou onde alguém encontrou um disco raríssimo.

Quando o assunto chegava nas bandas nacionais a coisa ficava feia para mim. Consumidor ferrenho do que vinha de fora, meu conhecimento se resumia a bandas inglesas e norte-americanas. Pior: tudo antigo. A maioria das bandas que eu gostava já tinham acabado há muito tempo. Eu tinha histórias para contar aos amigos, mas se o assunto fugisse daquele limitado círculo, eu passava de contador de histórias à ouvinte.

E nessas audições ouvia vez ou outra o nome de Pepeu Gomes. Não conhecia o cara. Nem sabia que ele tinha tocado nos Novos Baianos. Mas, pelo que eu ouvia, o cara era bom. O descreviam como um semideus da guitarra. O cara que faz o que quer com a música, como diria meu pai.

Pepeu Gomes, o mestre. Foto: Reprodução.

Numa época em que Youtube não passava de uma ideia no subconsciente de algum futuro gênio da internet, eu tinha duas opções: pedir emprestado algum CD do cara ou continuar ouvindo Beatles. Naquele tempo eu ainda era bastante acomodado, confesso, e continuei curtindo minhas bandas de cabeceira.

Muitos anos depois, com o comodismo superado (graças a Deus) por uma curiosidade faminta sobre músicas boas (e não apenas mais Rock, mas de tudo mesmo) acabei finalmente conhecendo os Novos Baianos.

Foi amor à primeira ouvida.

Dei sorte e comecei de cara com o disco Acabou Chorare. Considerado por muitos especialistas como uma obra-prima da música brasileira, o disco é, de fato, uma pérola. Um tesouro diferente de tudo que eu conhecia. Uma alegria pulsante, efervescente que transbordava na poesia cantada com maestria por Moraes Moreira e Baby Consuelo. E a guitarra? Ah, a guitarra. Pepeu era realmente o que meus amigos diziam. Ele não entendia de música. Ele parecia ter inventado a música. Cada solo ou acompanhamento era uma dose de vivacidade indestrutível.

Capa do disco Acabou Chorare, um clássico da música brasileira.

E o mais formidável disso tudo era a mistura. O que eles tocavam? MPB? Bossa-Nova? Samba? Rock? Na verdade eles tocavam tudo isso e muito mais. Até Tango os caras abraçaram. Tudo misturado de um jeito que os gêneros apenas de aprimoram e nunca destoam. Nada parece fora de lugar no som dos Baianos. Tudo é perfeito, redondo e bonito.

E ver isso ao vivo foi mais que um presente.

Não apenas ouvi as excelentes músicas do grupo tocadas ao vivo. Pude conhecer um pouco deles. Pude aprender com eles.

Pude sentir amizade e alegria que permeiam não só as músicas como a própria história da banda, naqueles anos em que eles, despreocupados com o mundo, viviam em comunidade em um sítio. Todos eles, amigos, morando junto e fazendo o que amavam fazer: música boa, de coração.

Ao presenciar ao vivo a perícia de Pepeu Gomes com a guitarra outra lição veio como uma flecha na mente. Afinal ele estava lá. Uma lenda da guitarra. Um cara que dominou plenamente sua arte e dela fez seu ofício. Um cara do Rock que não se prendia à estilos ou gêneros, mas, ao contrário, vivia do que gostava tocando de tudo. Sem preconceito. Sem exigir respeito, mas recebendo-o por onde quer que fosse simplesmente por ser um mestre no que faz.

Novos Baianos ao vivo em São Paulo, 1/9/2017. Foto: Felipe Andarilho

E Baby Consuelo? Se eu já havia há muito tempo me apaixonado por sua voz em canções como A Menina Dança e Tinindo Trincando, qual não poderia ser minha alegria ao vê-la ali? Cantando e dançando, exaltando a mais pura alegria de viver em cada gesto. Exatamente como eu a imaginava quando escutava seus discos.

Um dos momentos mais incríveis da noite foi com a saída temporária de Jorginho Gomes da bateria para assumir o Cavaquinho. Ele nem bem havia secado seu suor e já começou com acordes de Bilhete para Didi, numa versão mais lenta, porém extremamente emocionante. Se no disco a faixa era um exemplo de como os caras dominavam seus instrumentos, ver a música nascendo, crescendo, acelerando e explodindo ao vivo foi uma experiência arrepiante.

A voz de Moraes Moreira não é a mesma. Disso ninguém discorda. Mas o mais interessante é perceber que ninguém estava preocupado com o tom de voz dele. Era tanta energia no palco com o próprio Morais conduzindo um violão delirante que tudo o que o público queria era que aquela festa durasse mais e que cada momento ficasse bem guardado na memória.

Paulinho Boca de Cantor também contribuiu com a viagem sonora deliciosa, emprestando a voz em diversas pérolas, sendo o principal destaque a poética Mistério do Planeta. E falando em poeta, não pode passar batido o fato de a banda reservar um espaço no palco para o compositor da maioria das músicas deles: Luiz Galvão que até soltou a voz em algumas canções e declamou uma bonita poesia.

Mais do que um show, o que vi naquela noite no Espaço das Américas foi uma aula. Um aprendizado completo sobre amar o que se faz sem se preocupar com o resto. Sobre ser quem você é e fazer tudo o que fizer com alegria no coração.

Obrigado Novos Baianos.

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